Quanto mais me Conheco Fernando Pessoa
não posso mais te olhar como o céu, a noite e as estrelas, agora outra imensidão me preenche e os raios da manhã dourando a tua silhueta na calçada me faz imaginar que o infinito é o espaço ínfimo entre teus olhos, teu sorriso e tua boca... sei que essa viagem é longa e a eternidade é feita de segundos, mas onde estarei na ausência do teu abraço, a eternidade é tão lacônica e a brevidade das ilusões sussurra nas brisas matinais... não posso mais te olhar como um luar que morre nos primeiros raios da manha; este sentir me ensinou pra sempre que pra sempre é sentir assim... as aflições que conduzem a noite trazem a serenidade que nos ensina a esperar, é isso que chamam de esperança. ah, este sentimento esquisito de sentir as estações como se pudéssemos manusear o tempo... o tempo bate portas, colore as florestas, descolore as nossas cãs em busca de horizontes, mas essa ilusão que acolhe nossos olhares é só um tema poético batido, surrado e de validade prestes a vencer. quero caminhar por uma trilha que me conduza sempre a tua presença
Eu não sei se sou triste
ou se é só mais uma ilusão que eu alimento,
mas esta felicidade ninguém tira de mim...
entra pelas minhas narinas,
motivo de rimas lindas, carnificinas
e antes de mais nada, nada
sonho tanto com quase nada,
um guaraná, uma empada, o azul do céu,
satélites, andorinhas,estrelas, meteoros
misseis antas espaciais; porcos neons
o azul é o nada; e do passado a namorada
de tudo o que eu sabia;
um dia meu olhar se encontrará sozinho
a contemplar a estrela que é só uma ilusão mais nada,
assim como teus seios rijos
a espetar o ser latente na essência deste velho,
e o que é verdade entre o fogo e a água;
entre o que se bebe e o que se derrama,
nada se explica assim com tanta exatidão
que a ilusão se despe
e só nos resta a lógica fria e óbvia do nada
Não tenho medo mais da solidão,
já enganei meu coração
que posso ser feliz sem teu amor
se as noites são vazias eu penso assim,
e penso, assim eu vivo esta ilusão.
Às dezoito horas as lembranças são sempre as mais melancólicas, especialmente nos dias chuvosos quando uma neblina fria, inclinada pelo vento que bate janelas e portas, faz chorar as vidraças, deita todas as desilusões que incomodam; nesse momento parece que temos todo o tempo do mundo para relembrar as decepções. Os bambuzais vergam com o vento assim como paixões vergam nosso orgulho, são histórias tristes que as seis da tarde em dias chuvosos trazem à tona fatalidades que essas horas vazias alimentam.
Os jornais estampam de vez em quando fatalidades causadas pela paixão ou desilusões; essa noite turva contínua vai além dos seus limites e faz purgar os que perderam suas identidades, suas referências e vistos por uma vidraça são só personagens de um teatro sinistro na penumbra dessa noite. Ela dançava na chuva; tinha um grupo de amigas mais ou menos da mesma idade, todas adolescentes, inconsequentes como todos que adolescem, dançavam na chuva com a roupa colada no corpo, mostrando suas formas femininas que se acentuavam; os pingos de chuva sob a luz do poste pareciam pingos de brilhantes. É uma lembrança nostálgica que fica num quadro adornado pela saudade. O sorriso de Emily luzia naquele quarteirão; na padaria onde ela pegava o pão todas as manhãs, na quitanda onde comprava as frutas pra sua avó Giordana, na vacaria onde comprava o leite, tirado na hora, era assim que sua avó queria. Maria Eunice todas as manhãs acena do oitavo andar no condomínio em frente, faz um sinal que só ela entende, era uma senha do grupo que só elas conheciam; algo mais ou menos como: "amigas para sempre", mas havia um algo mais como promessa de fidelidade e lealdade; assim Catarina desistira do casamento ao saber que o noivo já tinha namorado com uma das amigas. Esse fato Emily menciona com frequência; num dia de febre alta delirou mencionando Catarina e Rogério: "talvez fossem muitos felizes hoje", Catarina tornara-se uma pessoa amarga, arredia, reclusa. acho que fomos longe demais com nossos pactos de juventude. A porta se abre trazendo a claridade de um relâmpago; Luis Otavio, filho único, entra salpicando a entrada; tira a capa e o capacete; Doralice o ajuda com as sacolas de compras, ela cuida de Emily e faz os trabalhos na cozinha; Auxiliadora, uma das amigas e também prima de Emily, vem sempre que possível. Luis Otavio menciona algum dano que a chuva causou na estrada, Doralice reclama na cozinha alguma dificuldade com o fogão, Otavio corre a acudi-la. Um sorriso escapa dos lábios de Emily; seu olhar está bem longe através da vidraça: um shortinho salmão de tactel e uma camiseta branca de popeline dançando sob a chuva com as amigas adolescentes e os meninos nas janelas encantados com tanta beleza; a chuva trazia a magia dessas lembranças. A voz de Doralice lhe corta os pensamentos: "seu comprimido, senhora..." e lhe estende um copo com água; a artrite a incomoda mas, Emily o toma rápida e solícita para ficar novamente só com suas lembranças; sabe que violara o pacto, mas como contar à uma quase, ou mais que irmã que Luis Otavio era filho de seu marido, Eduardo José casado com Maria Eugênia os quais foram morar na Itália; mesmo assim Maria Eugenia jamais lhe esquecera, ligava de quinze em quinze dias e jamais esquecera seu aniversário. Entre as amigas, Emily e Maria Eugênia talvez fossem as mais ligadas emocionalmente. Não fora uma traição, foi uma atração, uma paixão muito forte, um sentimento mútuo e apesar disso Emily não permitiu que Eduardo terminasse com Eugênia, assim casaram-se e foram para a Italia sem que Eduardo jamais soubesse de sua gravidez.
Lá fora a chuva parecia dar uma trégua, os sem teto da praça pareciam comemorar alguma coisa, aparecia sempre um filho de Deus para socorre-los com um copo de sopa, uma roupa, um cobertor. Emily não conseguia disfarçar sua perturbação diante dos mendigos; achava que aquela forma de ajuda-los só os deixava acomodados numa zona de conforto. Como podem se acomodar com uma vida tão miserável; certamente a droga os alienara. Otavio entra no quarto interrompendo os pensamentos de Emily: "mãe, olha, meu último poema..." Emily o olha, antes de pegar a folha datilografada, se Maria Eugênia o visse agora não precisaria explicar toda a sua história; Luís Otávio estava a cara do pai, Eduardo José quando ele tinha sua idade. Emily lê e relê o poema diante do olhar inquisitivo de Luis Otavio;"e aí mãe, gostou" "Meu filho você anda inspirado, acho que você anda lendo Cecília..." Luis Otavio amava a sensibilidade de Cecília Meireles. Na madrugada enquanto Emily revivia seu passado cheio de paixões ela escutava o toc-toc da Olivetti no quartinho de Otavio. Artrite limitara seus movimentos, mas nada segurava sua alma; o mundo. o cenário, todos os detalhes dos seus melhores anos estavam todos guardados na sua mente; a caramboleira, a mangueira da casa lilás onde Eugênia subia no muro para derrubar algumas frutas enquanto os cachorros latiam pelo lado de dentro e nos assustavam. Agora ali é um condomínio; gente bem vestida com carros modernos e raros sorrisos, que às vezes se jogam de seus andares ou resolvem seus problemas com um disparo quebrando o silencio da noite, interrompendo os sonhos e a inspiração dos que se apaixonaram e ainda amam a vida.
Emily se move numa cadeira de rodas na madrugada, cumpre a parte do pacto que lhe cabe; amar sempre com fidelidade e lealdade; lê os poemas de Luis Otavio, relê os seus. A vida não é perfeita, as pessoas não são perfeitas; amar a vida e as pessoas, esse é o sentido da vida.
ACREDITAR
No meu sonhar só vejo teu olhar
só beijo teu umbigo
eu sigo meu desejo
e mais do que sonhar
eu quero acreditar
que acreditar nessa paixão
que longe do que eu penso; eu penso longe
eu quero acreditar que existe vida...
e mesmo com o olhar perdido,
o meu olhar que cai com o sol...
que cai com a tua ausência,
com os absurdos do dia a dia...
tem uma luz que conduz a crer
que o amor é que ilumina
Sei o que podemos e o que deve ser feito, mas antes, bem antes... pense, somente pense; nada é mais certo que o amanhã, mas então quando ele chega já não existe mais; é uma ilusão, existe o agora, mas agora... essa ansiedade turva seus horizontes, beleza vai muito além que o superficial, o que vem depois do depois depõe sobre o sorriso ou a lágrima e nada do que se diga se sobrepõe ao que fica calado...
TREM DA PAIXÃO
Não foi só paixão, foi muito mais
o que o rio leva e a cachoeira cai...
uma força além do que eu podia suportar
eu me perdi assim...
o meu lugar comum me guarda desse olhar
nem quero acreditar que o mundo é belo...
se uma andorinha só não faz verão,
verão que a dor do amor dói em qualquer estação
não quero nunca mais sonhar...
além desse ocaso o acaso deste além
o que nos conduz a dor, ao amor
é o trem dessa paixão, é o trem do teu olhar, é o trem...
QUARENTA ANOS DE GESTAÇÃO
Olhava as mulheres gravidas com mais atenção;
a gravidez é no mínimo um gesto de amor;
um gesto de amor que geraria outros gestos de amor.
A mulher é o maior presente de Deus para o homem.
Mulher é divino. Mas a gestação de que falaria não era a de nove meses, era uma gestação de quarenta anos.
Poeta é um ser em eterno estado de gestação.
Assim aos primeiros olhares tudo é descoberta,
tudo é belo, tudo é paixão;
poeta se apaixona pelo menos sete vezes por dia
e sete vezes vai e volta à plutão.
Assim passeava no limite de seu universo,
até descobrir que era um feto em forma de versos,
uma gestação de toda uma vida... então um dia talvez nasceria AMORAMORA
Crescer é quase tão difícil que perder alguem.
Dois extremos, um mais facil do que o outro para algumas pessoas.
Viver é difícil, conviver com outra pessoas é difícil, e nosso único refúgio é estar com nossa própria companhia. Não se sente fútil, não tem que se arrepender dos seus próprios atos quando se esta com si mesmo, porque você se entende, sabe seus motivos e se perdoa.
Eu sei que sou importante, nem sempre para outras pessoas, nem sempre faço diferença. Mas para mim faço diferença, as vezes queria ter uma amizade que fosse como eu sou para mim, sei me controlar, sei das sensações mais sombrias que com frequencias se manifestam na minha alma, entendo minhas razões e até mesmo minhas confusões. Nem sempre estou bem comigo mesma, mas sei que sou a melhor amiga que terei.
O mais interessante é que eu sempre seguia um padrão invariável,
logando no primeiro símbolo e pulando para o terceiro, depois
voltava ao segundo para em seguida saltar para o quarto. Simples assim,
consecutivamente, criptógrafo por criptógrafo, numa simbiótica
relação de interdependência e inviolável relação de cumplicidade.
Era inegável o vínculo de criptopacionalidade do qual
dependíamos. Desse vínculo dependia nossa privacidade e segurança mútua.
A mulher de coração negro é mais astuciosa e traiçoeira que um demônio. Seu beijo é mais venenoso que a naja, e nele os encantados perdem a razão.. Seu olhar é sedução, seu abraço é pura traição, seu corpo é perdição, seu prazer é condenação e seu cafuné é a morte.
Falar sobre arte é falar de vida
A mais arteira de todas as artes.
Sentir a arte é sentir a existência
Em seus aspectos mais sublimes,
mas também em seus detalhes mais sombrios e sórdidos;
Afinal de contas, não é das alegrias e tragédias da vida
que se originam as esperanças e os sonhos,
expressos na arte em suas mais variadas
e diversificadas formas?
Sentir a arte é sentir a própria vida
- girando como uma roda do tempo sob os eixos da Eternidade!
Porque a arte é pura imaginação, sentidos e sentimentos
(Guerras, desventuras d'amor, paixões perdidas,
sonhos desencontrados, esperanças renascidas quais fênix...)...
Tudo é expresso na arte, do profano ao sagrado,
do que nos fascina ao que nos amedronta,
Do que nos encoraja ao que nos acovarda,
Do que nos ilumina ao que nos torna negros...
Eu poderia ser um estranho muito estranho,
Mas sou apenas um ser confuso e perdido.
Eu poderia ser um anjo, mas sou apenas um réu;
Poderia ser um monstro, mas sou apenas um homem
Buscando as palavras certas e a inspiração mais serena...
Mas na arte tudo isso pé tolice,
Porque a arte é espontânea e sem vãs exigências;
Porque a arte está em tudo e não exige de nós
nada mais que observação e plenitude no uso de nossos sentidos.
Ela está no paladar, no olfato, na audição, no tato, no prazer de um beijo
e até mesmo no desprezo que machuca e martiriza o coração apaixonado...
Mas é na visão que tudo se completa e seu show tem início
(Mas não tem fim, porque a arte não é apenas atemporal,
Ela é também imune ao pesadelo da morte).
Eu sinto a arte em meu pulsar, em minha respiração...
Eu sinto a arte em tudo ao meu redor.
Mas é no silêncio - quando absorto em minha solidão -
Eu posso enfim tentar entender a origem de tudo.
O artista é um ser privilegiado em seu dom de criar.
Mas é num pôr do sol, num alvorecer,
na brisa que acaricia a face do ancião em sua jornada morredoura,
Que o artista pára a refletir na arte exuberante à sua volta.
E então ele não consegue evitar o brilho de satisfação exclamando em seu perene olhar,
após um sorriso quase púbere de deslumbre diante da noção que se faz:
"Que arte poderia ser mais bela, complexa e imponente que a vida?"
Nos derretemos diante da arte e nos emocionamos diante de seu impacto.
Mas nós, seres humanos, somos a mais bela e perfeita de todas as artes,
Obras do maior de todos os artistas: Deus!
Mas nem sempre paramos para refletir sobre isso ou para contemplar
a paz do silêncio na penumbra.
Índios inocentes e puros, eram antes de tudo profanos, ímpios e iníquos em suas tradições mais sagradas, feitas de sacrifício de inocentes e libertinagem.
Vítimas da maldade
-------------------
Quando somos vítimas da maldade,
tudo se torna mais claro,
e é aí que a escuridão do mal
se transforma em luz,
pois o ciúme, a inveja e a mentira
uma hora hão de sucumbir diante da verdade.
