Poeta
Disse o poeta, certa vez, que a borboleta era mais importante que a flor. O bêbado, com a lucidez que só o excesso permite, respondeu de que valeria a borboleta se a flor não fosse essencial à sua existência?
Eraldo Silva.
Um poeta tem que sofrer
Sem o sofrer não ha tom,
sem o tom nao ha som.
Deste mesmo som que
da tom no meu coração.
Só me lembro que você me tocou
e depois me esqueceu.
Esse mesmo eu que te venerou e desvaneceu.
E no fim da música dessa história,
a garganta ecoa o som estampido do grito rouco de tanto cantar em vão.
Bom dia, poeta sonhador! Que a manha lhe traga inspiração e palavras doces como um café bem-feito, onde os fonemas murmurejam segredos ainda não escritos.
Para onde vais, poeta
Não estás na rua certa
A tua casa é para o outro lado
Ou vais ali ao mercado
Olha bem para o teu passado
Ó curioso atrasado
Larga lá a minha bebida
Vai tratar da tua vida
A bebida há‑de matar-me
Mas os meus poemas hão‑de ficar
São amor para a eternidade
Nas palavras vi felicidade
Adeus, até um dia desses
Que sejam muitos meses
Nunca tive saudades tuas
Vou mas é beber mais duas
Se eu fosse poeta, homenagearia
cada voz preta que rasgou o silêncio do Brasil.
Homenagearia Maria Firmina dos Reis —
a primeira luz que escreveu a fuga e a dor,
plantando cais de memória em terra de esquecimento.
Homenagearia Luís Gama —
ferro forjado em palavras, libertando nomes,
vindo das chagas para erguer a lei com verso.
Homenagearia Cruz e Sousa —
que fez do céu um espelho de expatriadas almas,
tecendo símbolos como quem reza contra o vento.
Homenagearia Solano Trindade —
com o batuque antigo no peito, palavra viva do terreiro,
poeta do povo, do samba, do salto que não se cala.
Homenagearia Machado de Assis —
ironia que desarma o pudor das verdades,
um espelho complexo onde se lê a cor do país.
E homenagearia tantas outras,
vozes anônimas nos quintais, nas cartas, nos jornais,
mães de rima, operários de verso, crianças de refrão —
todos os poetas negros do Brasil, uma constelação de nomes.
Se eu fosse poeta, faria altar com seus poemas,
acenderia lamparinas sobre as páginas gastas,
faria do silêncio um salão de festa,
transformaria o esquecimento em arquivo de resistência.
E recitaria seus nomes como quem chama antepassados:
para que a memória dance, para que a história ouça,
para que o futuro herde mais do que palavras —
herde voz, coragem e a beleza inteira de ser ouvido.
Poeta.
Tanto escreves sobre os outros...
Tanto sofres, óh eu lírico,
Tanto mendigas e recebes pouco,
Tanto almejas ser prodígio.
Onde encontras teu refúgio?
Da maldade, da tua luta...
Fazes daqui tua terra, céu, chão e eterna labuta...
Mas continuas sendo fugitivo.
Romantizas a morte,
Não temes a ninguém,
Escrever é o que vivo lhe mantém
E mesmo assim, medroso foges...
Não fujas, poeta!
Teu chamado depende de ti,
Letra bonita? Isso pouco importa!
O que importa é o enredo que sofrestes por trás da história.
Poeta, querido poeta, inútil não és!
Erga-te! O mundo precisa te ouvir.
Pegue seu papel, admire e escreve,
Passe os sentimentos, quero todos poder sentir.
Nas profundezas onde o poeta arde,
nasce um amor que ele mesmo inventa
feito de brisa que afaga e tormenta,
de força que dobra, mas nunca parte.
É sutil como o gesto que não se vê,
mas feroz como o vento que rasga o céu;
um amor que ele molda no próprio véu
de sonhos que deseja reconhecer.
O poeta cria versos
Intensifica uma história
Chama a atenção
Sobre o perigo à base de prosas.
Compartilha amor
Fala sobre aprendizado
Conta alguns erros
E sentimentos frustrados.
É um bom guia
E aplica uma lição
Ao estimular a leitura
Dentro do coração.
O poeta escreve, erra apaga, estica alinha a folha, amassa, se excita e rabisca tudo de novo, acaricia a alma em seu papel e na ponta dos dedos, tem piche negro, tem bem-te-vi, mel e frenesi, escreve o que sente o que vive, a poesia com gosto de céu, esse é seu segredo.
Surgimento da escrita
A gente só vira poeta em dois momentos da vida.
O primeiro é quando ama.
O segundo, quando morre por dentro.
Quem não ama
nem chega a morrer em vida.
E quem não vive essas dores e entregas
nunca aprende a escrever com a alma.
O poeta sabe do verso, como a estrela sabe do universo.
Mas o leitor sabe melhor
O músico sabe da canção, mas é o ouvido que melhor vê.
O olho segue a razão e dela não faz vista grossa
Mas é somente o coração, que ouve e vê e faz fé no mais que possa.
Poeta algum, mesmo que deposto na guerra da vida, será jamais derrotado pelo mais arguto crítico, pois só um detém a veracidade da Arte e de si próprio.
Se eu fosse um poeta, escreveria versos infinitos sobre a sua beleza. Se eu fosse um pintor, criaria obras de arte inspiradas em seus traços perfeitos. Mas como sou apenas alguém admirador, digo com sinceridade: você é a mais bela princesa que Deus já criou.
Poema III
Repente de um poeta
Já vi cacto dar flor no silêncio da aflição,
E vi lágrima em dor, em sorriso e oração.
Quem planta o sonho bruto, colhe verso em cada mágoa —
O que rega o futuro? Suor e lágrima, vulgo: água.
O sol não tem compaixão, a chuva virou promessa,
E a terra só dá legume se a fé não for só conversa.
O filho da estiagem tem coragem desde os ossos —
Não murmura a miséria, nem destrata um dos nossos.
Já vi homem ter dinheiro e morrer sem ter sentido,
E matuto sem um troco dividir o seu abrigo.
A riqueza que perdura não se mede por moeda —
Mora é na intenção, no coração de um poeta.
Um poeta muitas vezes é incompreendido. Não porque suas palavras não tenham sentido, mas porque seu coração não foi visto nem entendido.
