Poesia Toada do Amor de Carlos Drumond
Raízes de concreto
um azul de inundar areias
de expor um mar de sombras
de dizer que legal
é verão
e muitos verão, o que os homens fizeram
por ganância, inteligência ou estupidez...
Quem dera
colher na fonte a mais pura liberdade
frutificar sem medo,
e combater sempre mais
outras terras gritarão seus heróis
tantos, quanto um exercito
incalculável verdade
prometida profecia
fronteiras das injustiças
entre o mar e o calabouço
omissos desejos
não havendo um muro
a guerra será inevitável
o anseio por ela
esse,
sempre existiu...
Sinto muito
por você sentir quase nada
e isso acaba
com o pouco que por pouco quase existiu
melhor assim
vai que esse quase nada
era...
Entre o sim e o não
há uma decisão
um desafio
uma confissão
um caos instalado
um paraíso, ao alcance das mãos
entre a dúvida e a convicção
um legado, de sorte ou de dor...
vida engraçada
a gente leva tanta porrada
e ainda sorri feito criança
quando a lembrança
traz os ventos da felicidade
não tem idade
todos têm um pouco de loucura
uns tanto que não levam a vida muito a sério
outros demais, chatos pra caramba
mas o que vale é a ousadia de viver
querer
tanto que morrer
é a primeira coisa que não queremos
envelhecemos
para partirmos quando não der mais
para sorrir
ai sim...
Hoje o dia amanheceu mais ou menos
entretanto os ventos da liberdade sopram
algo vai melhorar
as nuvens, antes densas e carregadas, agora esvaem
os feudos, toscos e aparvoados subestimam a grandeza
e todos numa fila de esperança
depositam suas vontades
o que vencer, não poderá ignorar
o novo tempo, que está para nascer...
Quem quer, precisa conhecê-lo à noite
porque durante o dia, ele esconde preciosidades
e fica azul, tingindo o mar
entretanto à noite, se despe
e na nudez da verdade, mostra a sutileza e a grandiosidade
sem imitar ninguém, rouba a cena
faz do espetáculo, poesia à parte
e encanta quem sabe
que nele, nem tudo é escuridão
Há de o riso resistir
zombando de todas as tristezas
rolando nos gramados feito louco, em tardes de verão
sem medo, ser feliz
acordar
nos fragmentos de uma tela
despertar o dom
há de ter amor, de sobra, de tanto
pelos cantos, pelas frestas, nas colinas
permanecer esparramado na esteira do tempo
e num riso de felicidade, dizer:
vida, valeu...
ZUMBIS
.
Enquanto um menino sonha ser craque
De futebol outro usa pedras de crack
Para se imaginar alguém feliz
E assim surgem times nos campos
E nos guetos das cidades entretanto
Surgem legiões de zumbis.
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São seres cujos corpos caminham
Enquanto suas mentes definham
Os transformando em armas vivas
Que para satisfazerem o vício
Fazem uso de qualquer artifício
Chegando até mesmo a tirar vidas.
.
A polícia com rigor os persegue
Usando bombas e cassetetes
E às vezes até os mata
Tal estratégia parece eficaz
Quando este procedimento se faz
Não contra gente, mas contra baratas.
.
Estes zumbis que nos assustam
Nos tornam reclusos e nos furtam
Além do dinheiro a liberdade
Têm que ser retirados do convívio social
Criminosos na cadeia, viciados no hospital
Para que as ruas voltem a ser da sociedade.
.
Quero viver sem medo do perigo
E ao encontrar jovens reunidos
Sob o escaldante Sol
Sentar-me tranquilo na calçada
Apenas para ver a criançada
Jogar mais uma partida de futebol.
BATALHA DAS IDEIAS
.
Eu também quero me manifestar
Contra o que está a me incomodar
Neste País e também no Planeta
Uns marcham com gritos de guerra
Outros brigam como se fossem feras
E eu me manifesto com a caneta.
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Criticamos os desvios do erário
Nas construções dos estádios
De futebol para a Copa
Mas só tem direito de criticar
Aquele que se põe a gritar
Estando do lado de fora.
.
Todo aquele que vai às arenas
É conivente com a triste cena
Do roubo do dinheiro do povo
Quem grita das arquibancadas
Não tem direito a mais nada
Além de considerar-se um bobo.
.
Eu quero um País sem corrupção
No qual a pacífica população
Possa ter acesso às riquezas
Traduzidas na saúde, educação
Segurança, transporte, recreação
E ao bom alimento na mesa.
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Mas rechaço o oportunismo
De podres partidos políticos
Que promovem a baderna
Transformando as manifestações
Cheias de boas intenções
Em verdadeiros cenários de guerra.
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Todo ato violento deve ser reprovado
Seja ele do povo ou do Estado
Para que a vitória se eternize
Porque as lutas inteligentes
Fazem surgir nas mentes
As mais profundas raízes.
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Grite nas ruas e sussurre aos ouvidos
Ideias que criem conceitos definitivos
Mas que a nossa luta seja harmônica
E se lembre que a arma mais eficiente
Para mudar o que nos faz descontentes
É a poderosa urna eletrônica.
MACHADO DE ASSIS
.
Joaquim Maria Machado de Assis
Mulato carente em cuja cerviz
Pesava o opróbrio do preconceito
Filho de pais pobres
Mas dono de talentos nobres
E de originais conceitos.
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Criado pela madrasta
Suplantou a dor da desgraça
Da perda da mãe querida
Frequentou a escola pública
Mas sua sabedoria única
Adquiriu na escola da vida.
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Aprendeu francês e latim
Exerceu atividades sem fim
No universo da cultura
Mas o seu maior legado
Para sempre ficou gravado
Nas páginas da literatura.
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Foi jornalista, contista
Cronista, romancista
Poeta e teatrólogo
E na fundação da ABL
Foi distinto cerne
E mentor do seu prólogo.
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Chamava-se Carolina
A musa que inspirava as rimas
Dos seus versos de amor
Ela foi a sua obra mais perfeita
Mas que cometeu a desfeita
De morrer antes de seu autor.
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A saudade abreviou os seus dias
E os textos que ele escrevia
Não o acompanharam ao cemitério
Ficaram espalhados como a fumaça
Que subia das fogueirinhas da casa
18 da Rua Cosme Velho.
VERSOS E AMARGURA
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Se de mim retirassem os enganos
Em mim apenas acertos restariam
Seria um poeta de versos levianos
Que como bolas de sabão se esvaziam
Prefiro ser alguém cujas conjecturas
Correm o risco de trazer amarguras
Do que ser um ser vivo sem opinião
Prefiro que me calem com mordaças
Do que ao me ouvirem achem graça
Por repetir os gracejos da multidão.
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Prefiro ser chamado de subversivo
Do que receber afagos dos opressores
Porque tais afagos só são oferecidos
Aos fracos em troca de favores
Com os quais traem a sua dignidade
E ganham uma falsa felicidade
Como troféu para a covardia
Prefiro ter a honra da clausura
Nos frios porões da ditadura
Do que a desonra na democracia.
.
Se de mim retirarem os versos
Ainda me restarão os pensamentos
Que voarão na amplitude do Universo
Montados nas costas do vento
E baterão à porta de Deus
Que atendendo ao apelo meu
Mandará uma forte tempestade
Formada por poesias agudas
Que caindo regarão as mudas
Que aflorarão como liberdade.
Não sei por que tentam excluir nossa cor,
se uma mão branca e a outra negra juntas
fazem sombras iguais como uma poesia de amor!
Amigo é aquele que pede perdão,
que guarda segredos no coração.
Amigo sente saudades
e mesmo que o tempo passe
não muda a sua amizade.
Amigo é irmandade.
Amigo é como um jardineiro,
cuidando das flores.
Amigo é aquele que vê
nos seus olhos suas dores.
Que rega com carinho
para você voltar a dá flores.
Ao invés de dizer que o Diabo o pão amaçou,
erga seus braços para o céu e dê graças,
assim como fez o nosso Salvador.
Mãe também é como uma viola,
em sentir o abraço e os dedos do filho ela chora.
Mãinha é minha base de resistência,
minha guerreira, minha senhora.
Me amou antes mesmo de me ver.
Como não a Deus agradecer
por tê-la ao meu lado!
Ela achando que fui seu presente,
mas eu é que fui presenteado.
TUDO QUE DEUS CRIOU FOI PENSANDO NA GENTE.
Dividiu o mundo;
Deixando a terra
Para andarmos e plantar o trigo.
A água para bebermos e tomar banho.
Clareou uma parte do escuro
E fez de dia.
Fez os animais
E deixou o que se poderia comer.
Pois o amor no coração do homem,
E o homem jogou fora.
Criou a fé, para homem não ficar atoa.
Criou a poesia, e o homem virou poeta.
Até para o homem ele fez uma parceira.
E por fim, deu seu filho para morrer e ressuscitar por nós.
PASSASTE UMA MULHER NEGRA POR MIM...
Ah, havia muita beleza nela, era muito linda.
Superava a Branca de Neve e a Bela Adormecida.
Mulher igual essa... Meus olhos nunca enxergam.
Era uma arte caminhando pela rua,
Como se saísse de um quadro.
Anida sinto seu cheiro...
Seu cabelo era longo, tipo de Raponzel. Cacheado. Bem preto.
Tentei recitar-lhe um poema para ela, mas não deu, o verso ficou engasgado na garganta.
Tentei dar-lhe flores... E dizer que em cada pétala, havia um verso meu, minhas mãos tremiam...
Quando ela olhou pra trás, ela percebeu que meu rosto mudara, meus olhos, e meu coração batia mais forte.
E ela sorriu... E partiu!
E meu coração também, partiu-se.
E ela foi meu amor à primeira vista.
Um passarinho negro
Pousou no meu peito esquerdo,
E construiu um ninho.
E canta todos os dias: poesia de amor com carinho.
