Poesia Completa das Borboletas
Quão breve é o Agora?
Somente o Agora é Agora; o Agora é Fundamento contínuo (dada a efemeridade do Presente, que cadaveriza-se em Passado em relativa questão de minutos, horas, quiçá): está a eternamente construir-se.
Somente o Agora é Agora. Somente o Agora presentifica o Tempo (do) Presente.
Somente o Agora é Agora. Tão somente e, até agora, Sempre.
Somente – e por ora.
Se ela pudesse te falar o que pensa
E o quanto ela quer te provocar de volta
Se ela pudesse dizer o que sentiu ao ouvir tua voz
E o quanto isso foi inquietante
Se ela pudesse sair dessa prisão
Ela faria tudo de novo, loucura por loucura, desejo por desejo
Ela te devoraria sem esperas
Roubaria teu ar sem receio
Contemplaria cada parte da sua geografia
Se perderia nas suas ondas
Em uma cadência arrebatadora
Até que o corpo e o tempo não soubessem mais
os limites do início ou do fim.
XIII - Emissário de um rei desconhecido
Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido...
Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido...
Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...
MULHER, EM TODOS OS SENTIDOS
Quero-te linda, meiga, delicada, feminina, cumprindo por prazer missões de esposa e mãe, mas sem que nada somente nisso venha te envolver.
Pois te quero, também, valente, ousada em teus destinos, sem retroceder, buscando espaços e ocupando cada um que te caiba, como humano ser.
Quero-te superando preconceitos, conquistando na vida os teus direitos sem que deixes teus sonhos reprimidos.
Quero-te forte, livre, verdadeira, pelo orgulho de ter como parceira uma MULHER, em todos os sentidos!
Depois de tudo ter feito,
Deus não achou um sequer
Dos seus atos mais perfeito
Que a criação da mulher.
DEPENDÊNCIA
Bem que tentei resistir
Mas a força hipnótica
Desse teu feitiço
Neutralizou minha resistência.
Conseguiste deixar-me
A mercê do que querias
E, através de teus beijos,
Foste inoculando em mim
O ópio de teu amor
Até me tornares
Dependente irrecuperável
De ti.
O RIO DE MINHA TERRA
Passa um rio pela terra
De quase todo poeta...
Minha terra também tem um rio
Que passa e deixa lembranças,
Que passa e deixa saudades,
Que me inunda de amor
Pela minha terra
Toda vez que em seu manso passar
Molha-me o corpo e a alma.
Se o simples passar de um rio
Pela terra de um poeta
É poesia,
Que nome devo dar
A um rio passando
Pela minha terra
E pela minha vida?
BORDADEIRA
No universo mágico
De linhas e bastidores
Seu trabalho revela
A artista genial
Que existe dentro dela.
A agulha em sua mão
Vira condão de fada
E faz surgir no tecido
Pedaços de fantasia
Sob a forma de bordado.
SAPATEIRO
Na lide cotidiana
do interior da oficina,
quase sempre indiferente
ao movimento das ruas,
esse operário trabalha
a sola crua e a pelica,
preparando proteções
para os pés que dinamizam
o vaivém da vida
DE UM ABRAÇO NO VAZIO
À medida que os anos vão passando
as nossas ambições materiais
vão cedendo lugar às ambições
de natureza emotiva.
No campo da emoção
é sempre ou quase sempre assim:
mais avançamos na idade,
mais crescem, mais se acentuam
dentro de nós as carências.
A propósito,
um dia desses eu me perdi
na ansiedade da espera
por um abraço presencial
de alguém por quem tenho
um amor sem limite,
e que, depois de bom tempo de ausência,
esteve bem perto de mim,
mas não se dispôs a se aproximar
um pouco mais,
a fim de que meus braços abertos
não se fechassem no vazio,
sem que se completasse o gesto
do abraço esperado...
Saí de cena, sem lamento, sem choro,
sem condenação e sem buscar justificativas,
porque o tempo me ensinou,
além de muitas outras coisas,
a bloquear os prováveis efeitos
dos sentimentos menores,
tipo tristeza e mágoa.
Se algo me incomodou,
foi simplesmente a consciência
de não ter aprendido a lidar,
diante de uma grande expectativa,
com essas sensações
de frustração.
REALIZAÇÃO
Eu te encontrei, não sei se por acaso,
mas logo me encantei contigo,
quando eu já tendia a desistir
da busca por alguém
com quem compartilhar
verdades e mentiras,
ternuras e loucuras,
carinhos e arranhões,
erros e perdões
e tudo mais que flui da comunhão
do homem e da mulher,
na vivência do amor.
Entrei em tua vida,
não para visitar-te apenas;
sim, para fincar minha bandeira
na terra rubra de teu coração
e com tua cumplicidade
disfarçada em “nãos”
que eu entendia “sins”,
fixar-me, isso mesmo,
ficar permanentemente dentro dele
e dar-te sempre razões
para que o ouvisses bater de satisfeito
por eu tê-lo ocupado.
Era a única realização
que me faltava,
pois quando saí
em busca da mulher ideal,
que se materializou em ti,
deixei sepultados
no lugar de onde vim
todos os meus projetos
de conquistas amorosas,
exceto este, cujo objetivo
já posso declarar
plenamente alcançado.
ASSIM SERIA
Em secretos encontros semanais,
os dois nos demos ardorosamente
àqueles verdadeiros festivais
do que, em luxúria, a vida nos consente.
Foram sublimes relações carnais
de que a mão do prazer, a ferro quente,
fez questão de gravar vivos sinais
que não se apagarão de nossa mente.
E, se acaso tivesses a coragem
de retomar a nossa fantasia,
eu – da maneira como os loucos agem –
pronto estaria a ir aos meus extremos
e até à Química eu recorreria
para viver de novo o que vivemos.
DESEJO EXPRESSO
Não costumo nem gosto de falar
de minha inevitável viagem
para outro plano de vida
e sempre espero
que ela seja tardia e adiável
o quanto possível.
Mas isso não impede
que eu expresse o desejo
de que meus restos
não sejam cremados:
quero meu corpo sepultado,
dar minhas carnes mortas
à terra de minha terra,
e que isso aconteça
num clima de festa,
em que os cantos de alegria
não cedam lugar
a lágrimas e soluços
de tristeza.
Os momentos do adeus serão apenas
os do começo da travessia
da essência de mim para o desconhecido,
enquanto aqui começará a colheita
do que plantei e não colhi,
mas que não se esgotará
para as gerações futuras,
em cuja memória eu não pretendo
ser, do que fui e fiz neste plano,
simplesmente cinzas,
embora guardadas no mais rico
e belo dos cinzários...
O AMOR QUE EU SEMPRE QUIS
Não busquei um amor para um minuto,
para uma hora, um dia, um mês, um ano,
nem pretendi amor substituto,
por uma mero capricho leviano.
Quis um amor, sem me cobrar tributo,
sem metas a cumprir, sem grande plano,
que fosse livre, inteligente, arguto
e até capaz de se mostrar insano.
E te encontrei, sem procurar por ti,
porque de mim estavas muito perto,
tal como agora estás comigo, aqui,
ouvindo-me dizer que sou feliz
por nossa comunhão ter dado certo
e por teres me dado o amor que eu quis
A RESPOSTA
Nos encontros que nossa turma faz
para um chopinho em tardes de calor,
os meus verbais excessos em louvor
a Pedreiras viraram triviais.
Há nessa confraria um bom rapaz
que, um dia, me pediu para lhe expor
a razão de eu guardar tamanho amor
por uma terra onde não moro mais.
Só que o moço ficou meio sem jeito
quando eu, apontando para o peito
e expressando emoção, lhe respondi:
– É verdade que já não moro lá,
porém minha Pedreiras sempre está
dentro de mim, morando bem aqui!
" Na calada da noite
quando teu cheiro invade meus sonhos
quando nas madrugadas, quase sussurrando,
posso gritar seu nome
o lençol confessa que lembrei de você
crio castelos maravilhosos, nossos
paraísos onde o mar é de água cristalina
nessa busca perco a noção
então num misto de torpor e desejo
me entrego à felicidade
mesmo sabendo
que somente na noite seguinte
serei feliz de verdade...
" Por ser contra o machismo
te criei para ser lendária
com muito carinho te dei o nome
Iria Hilária...
" Ouviram os livros cantarem
e o gosto da vida atiçou
uma sede de justiça
outras páginas formarão novas rimas
para fardados munidos de canetas
celebrarem o novo mundo
cantarão vitórias
mas antes,
precisarão de muitas borrachas
para apagarem do futuro
o insano e inesquecível passado...
" Pelas calçadas impregnar poesias
nas ruas, vielas e mansões
gritar ao povo o que sabe do amar
sabendo do que nos acompanhava
haveríamos de ser dois
mas choveu tanto naquela noite
que as marquises não deram teto
ao amor que despertou em um só...
(Na madrugada)
.
" Se somos assim tão bem resolvidos
por que temos que ser atrevidos
e covardes ao mesmo tempo
por que se sabemos da proteção de Deus
desconfiamos tanto
por quais razões choramos por amor
e rimos por qualquer motivo de ódio
se o contrário é o que faria total sentido
se por medo ligamos as luzes
ascendemos estrelas
por coragem pulamos de pontes
desafiamos o futuro
por que meu Deus
o que era paraíso sucumbiu
o que foi preciso, para tudo acabar
por que meu Deus
não aprendemos a amar???
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