Coleção pessoal de BrendaOliveira
Você acontece
Nos acordes de Ode to my family
Na melodia de Paolo
No assovio de Lost on you
Acontece na panqueca
No suco de abacaxi com hortelã
No Milkshake do Bob’s
Acontece na sensação do quase
Nos incontáveis “e se”
Naquilo que sefoi
E no que teimou em permanecer
É um misto…
Parece certo, depois errado
Parece simples, depois complicado
Parece agora, depois passado
Quis eternizar o abraço
Pausar o mundo e sentir a mistura
Demorar no toque sedento da pele e do cheiro
Brechar tua aflição
Espiar teus pensamentos
Sentir a temperatura
Respirar você
A aflição de não poder responder e dizer que me senti da mesma forma.
Eu também não estava me aguentando de ansiedade de falar e dizer que fiquei tão destreinada a ponto de não saber mais nem como andar.
Hoje não estou muito bem.
Há dias em que a gente não desaba porque aprendeu a guardar. E, de tanto guardar, vai enchendo gavetas que já não fecham mais, empurrando para o fundo do armário tudo aquilo que não teve tempo, lugar ou permissão para sentir.
Hoje sinto o peso dessas gavetas.
O frio da noite parece encontrar cada uma dessas sombras escondidas. Os pensamentos caminham em desordem, cruzam minha mente sem pedir licença, enquanto eu tento, silenciosamente, colocar tudo em equilíbrio. Não porque esteja tudo bem, mas porque a vida continua exigindo que eu siga.
Não tenho a opção de parar para sentir.
Então continuo. Arrumo o sorriso, organizo as tarefas, respondo às pessoas, respiro fundo... mas sinto.
Sinto o cansaço de quem precisou ser forte por tempo demais. Sinto o peso das palavras engolidas, das lágrimas adiadas, das dores que aprenderam a esperar pela madrugada para aparecer.
E talvez seja isso que mais doa: não é a falta de sentimentos. É a falta de tempo para acolhê-los.
Mesmo assim, sigo.
Não porque seja fácil, mas porque, por enquanto, é o único caminho que encontrei. Carrego comigo a esperança silenciosa de que um dia eu possa abrir essas gavetas sem medo, deixar entrar luz onde hoje habitam sombras e, finalmente, descansar o coração de tudo aquilo que ele insistiu em suportar calado.
Hoje não estou muito bem.
Há um barulho dentro de mim que ninguém ouve. Por fora, tudo parece seguir seu curso. Por dentro, os pensamentos se atropelam, as lembranças se misturam e o coração tenta organizar um caos que não cabe em palavras.
Carrego o peso de tudo o que precisei esconder. Das emoções que foram empurradas para as gavetas da alma porque não havia tempo para senti-las. Das sombras que aprenderam a morar em silêncio, atrás de portas que eu mesma fechei para conseguir continuar.
A noite sempre parece saber onde essas portas estão.
O frio toca o que passei o dia tentando aquecer. E, enquanto o mundo desacelera, minha mente percorre corredores que eu gostaria de evitar. Luto para manter tudo em equilíbrio, porque hoje não posso me permitir cair. Há responsabilidades, há caminhos que ainda precisam ser percorridos.
Mas sentir não pede licença.
Mesmo tentando seguir, eu sinto. Sinto o peso, o vazio, a exaustão de quem passou tanto tempo sustentando o próprio mundo que já nem sabe mais como descansar.
Talvez amanhã tudo pareça um pouco mais leve. Hoje, porém, só consigo admitir que existe uma batalha silenciosa acontecendo dentro de mim.
E, mesmo cansada, continuo caminhando.
REENCONTRO
“Quando te passar fiquei paralisado
Tremi até o chão como um terremoto no Japão
Um vento ou um tufão
Uma batedeira sem botão”
Queria decifrar teus pensamentos
Brechar tua aflição
Saber se também tremeu
Se desejou espiar e não sabia como
Se ficou atordoado, anestesiado e meio tonto, rsrs.
Pareceu!
Por um tempo conclui que minha raiva era por você nunca ter me dito não ou nunca ter decidido voltar.
Hoje eu entendo que não foi sobre você, mas por tudo o que eu inventei aqui dentro.
Eu que teimei em atribuir significado ao que era apenas o que era.
Não foi você.
Independente do querer, do desejo e daquilo que permanece, quero que saibas que isso jamais será sinônimo de qualquer coisa que coloque em risco tuas histórias construídas.
Por outro lado, a maturidade não me permite mais brincar de esconder o óbvio em mim, fiz as pazes comigo e não pretendo mais fingir aquilo que não é.
Espero que possa nos conseguir habitar nesse espaço de intimidade de forma consciente e amorosa.
Demorou para assentar a chama, o corpo sedento e a temperatura
Demorou para acalmar o desejo, reorganizar os pensamentos
e voltar para o lado de cá
Ainda não há um modo de nossa proximidade, mesmo que distante, não alterar a temperatura aqui dentro.
Paolo tocando ao fundo
O mesmo perfume no ar
Mãos geladas
Longa espera
Poucos minutos
E um gosto de saudade…
Quis pausar o tempo no sorriso
Vendo os lábios tocados no não-toque
Respiração sentida mesmo que distante
O ofegar,
A pressa e a vontade de demorar
O disfarce sem querer disfarçar
O partir querendo ficar
