Poemas Góticos de Amor

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UMA GRANDE BESTEIRA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A morte acaba de convocar o Ermenevaldo Bastos da Figa... ou de uma Figa. Ermenevaldo, pessoa de grande vulto e prestígio, era imortal. Pelo menos estava imortal. Era membro de academia de letras.
É assim mesmo, a vida: somos imortais até que a morte nos desminta. Ou mortais, até que a morte nos imortalize por algum tempo, talvez por algumas gerações, em saudades ou homenagens pontuais. Uma eternidade miúda, passageira, se considerarmos a própria eternidade.
O que aprendi neste mundo, até o momento, é que a vida é besta. Somos todos, bestas... tudo isto não passa de uma grande besteira.

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BOA MORTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Viver bem é morrer de velhice... morrer de viver... morrer bem.

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CÓDIGO SEM BARRA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ela sempre me apronta
uma triste surpresa,
e não fujo; sou presa;
dou espaço; dou asa...
Coração nem aponta
para quanto mereço;
meu amor é sem preço;
é por conta da casa.

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VÍCIO DO TEU VÍCIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Já me cansa te olhar e só ver sombras,
procurar o teu rosto e me perder
nos escombros de alguém que nunca está;
ou está, mas no fundo nunca é...
Piso em falso nas órbitas do amor
que não sabe trazer felicidade,
cuja flor não supera seus espinhos
nem se livra das grades do pesar...
Vencerei o teu vício de sofrer,
deixarei o meu vício desse vício,
passarei a viver, pois estou vivo...
Eu me canso da espécie de ninguém
sob alguém que me aluga mas não mora;
não me ocupa nem quer desabitar...

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MINHA GRANDE AMBIÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se vier no tempo justo, nem a morte matará o sucesso de minha grande ambição: ver minhas filhas criadas, bem resolvidas e felizes.

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FRUTOS A MAIS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quem planta árvore colhe sombra, sonho e passarinho.

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SONETO SOCRÁTICO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se morri toda morte que se morre,
já vivi cada vida que se tem,
ou de cada bebida o justo porre;
todo mal, se por mal ou se por bem...

Fui além do infinito, após além,
por amor fui mocinho em Love Story,
odiei, fiz a guerra, paz também,
mas ninguém me condene ou condecore...

Sou quem sou desde o dia em que cheguei,
sei de tudo, no entanto nada sei,
quanto mais me procuro e me aprofundo...

Ser poeta me abona pra voar
ou pra ir pelos ares lá no ar,
onde o céu justifica estar no mundo...

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ÁRVORES DA VIDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A sombra fresca e revigorante que nos enche de vida e paz, é o fruto generosamente ofertado por muitas árvores que os tolos dizem que não dão frutos.

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SEM SENTIDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tua sombra me afasta e dissipa vontades
que vieram comigo no arreio dos anos;
cavalguei por verdades que vivi sozinho
nos meus planos perdidos; fantasias gastas...
Teu silêncio amordaça o sentido insistente,
faz deixar de fazer no que sinto por ti,
põe a tua corrente nas asas do sonho
solitário e perdido entre os elos do espaço...
Rasgo todos os panos do que revestia
os desvãos deste afeto sem o teu olhar,
a nudez dos meus dias nesta solidão...
Pouco a pouco te apagas, te fazes comum,
perdes todo este zum com que sempre te vi
como deusa indelével de minha carência...

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DOM QUIXOTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

É mais fácil brigar contra seres de sombra,
inimigos gasosos que moram na mente,
massacrar a serpente na imaginação,
derrotar uma besta no campo dos sonhos...
Afinal, nossos sonhos nos dão armaduras;
neles temos a força que nos torna heróis,
damos voz de prisão, exilamos demônios
previamente vencidos; presentes do céu...
Só assim não teremos que vencer pessoas,
combater injustiças, desbravar caminhos,
assumir os espinhos cravados na carne...
Será sempre mais fácil ser o Dom Quixote
que abastece a coragem de puro festim
entre lendas do início; do fim; do infinito...

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O SONHO NÃO ACABOU

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Com tristeza profunda, vejo que todo sonho acabou. Minha esperança tardia se desfaz em sombra, fumaça e decepção... deixa de ser esperança.
Cabisbaixo, faço meia volta. Se não há mais sonho, nada resta. Não há nada que adoce a constatação deste momento sem sentido. Nem existe o que açucare a queda vertiginosa do prazer com que cheguei aqui.
Mas o mundo é fantástico. A vida é inesperada. O tempo surpreende o destino em questão de segundos, e muitas vezes o põe a favor das nossas expectativas mais frustradas.
Foi assim comigo. Eu já sumia na esquina, quando meu coração acelerou. Emocionou-se com uma voz amiga e solidária que rompeu meus ouvidos e se aninhou bem fundo.
Meu amigo há anos, o confeiteiro Nando anunciava que nem todo sonho acabara. Havia três, ainda frescos, guardados especialmente para mim.

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MATURAÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Hoje gosto de calma. De ar puro. Sombra, rede, quintal. Gosto de amar, fazer amigos, ter liberdade para ser quem sou e deixar bem claro que é pegar ou largar. Escrevo e leio mais do que nunca, sei exatamente o que não quero, aprecio arte, boa música e já não tenho vergonha de ser sensível; romântico; sentimental.
De bem com a vida e comigo mesmo, estou no ponto em que tempo não é dinheiro e sossego não é caretice. Posso desprezar a moda, gostar do que realmente gosto e sonhar ao meu bel prazer... e como não se chega impunemente a tal estágio de segurança, bom gosto e sinceridade, chego à conclusão de que realmente chego à velhice.

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ATÉ A MORTE CHEGAR

Demétrio Sena, Magé.

Conheci muita gente com cara de nada;
sem nenhuma expressão de qualquer sentimento;
não havia momento, repente, mudança,
um registro da alma na flor da expressão...
Vi pessoas talhadas pra serem assim
ante a dor, o contento, a vontade, a repulsa,
no começo, no fim ou no meio do caos,
nas expectativas e nas descobertas...
Muita gente parece de bronze ou de gesso,
reza um terço imutável que nunca termina,
deixa o mundo girar e não cai do suporte...
Vejo rostos em branco, sem nenhuma pauta,
só a falta da falta que que a vida não faz
nessa paz de quem morre até que a morte chegue...

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POEMA CAIÇARA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Aprecio a poesia que me chama
lá no canto; na sombra; no silêncio;
dá um doce, depois me desafia,
me provoca e me faz querer o resto...
Busco aquele poema que seduz
como a droga no dia inicial;
só aos poucos envolve, me vicia
e me diz onde a cruz está cravada...
Escraviza e dá carta de alforria,
faz pecar e dispõe a conversão
lá no fim do sermão fragmentado...
Só existe poesia no poema
que não salta, não corre, não esmurra,
mas que rema e nos leva de canoa...

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MEDO DO SEM FIM

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Vida cansa e começo a pressentir
a tristeza, o ranger do não chegar,
só seguir e saber que não há porto
nem um ponto em que pouse os olhos baços...
Uma vida sem fim seria o fim
rastejado; insistente; sem sentido;
um pedido inaudível por socorro,
de quem sabe que o tempo já parou...
Tudo cansa e se perde sob o nada,
minha estrada revela o que seria
caminhar à deriva para sempre...
Horizonte; horizonte; nada mais;
não há paz na ilusão da eternidade;
comecei a temer que jamais morra...

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SEJA FELIZ

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ninguém fica
feliz
ou infeliz...
mas alegre ou triste.
Segundo a voz
do que me diz
pra ir com fé:
alegre ou triste
a gente fica.
Feliz ou não,
a gente é.

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TRANSFORMADOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ser feliz não me livra de certas tristezas;
não há como viver sem que a dor nos provoque;
nossa luz tem seus curtos e seus apagões,
energia dá choque por ser energia...
Encontrei equilíbrio no transformador
instalado em minh´alma desde que não sei;
meus espinhos têm flor como a flor tem espinhos;
essa lei dá seu tom em qualquer caminhada...
Apagar é da vida e terei minha hora,
mas agora não penso em desligar meus sonhos;
não me deixo cortar nem reclamo do preço...
Reativo as tomadas de querer seguir
e replugo esperanças toda vez que o mundo
faz um raio cair sobre minhas certezas...

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À DERIVA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sinto como a tristeza deságua na gente;
como chega serena feito rio raso;
traz a mágoa escondida numa bolha sonsa;
uma lente que abafa meus olhos pro dia...
Esta minha tristeza me abraçou de leve,
mas trancou seu abraço em silêncio profundo,
fez o mundo perder a profusão de cores
e a graça que os olhos procuram em tudo...
Só me cabe sentir sua enchente morosa,
ver a rosa fluir no seu transbordamento,
dar os olhos ao vento e não pedir de volta...
Quase alegre de triste recolho as vontades;
perco as minhas verdades e nem sei mentir;
deixo ir... deixo ir... deixo ir... deixo ir...

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MEU QUINTAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Uma rede me aguarda no quintal;
numa sombra que a mão até apalpa;
rede não social, por ser só minha,
só aceita o calor de minha pele...
Os calangos procuram meus sinais,
a mangueira não sabe o que dizer,
nem a cobra cipó entre a folhagem
faz menção de saber aonde ando...
Vim ao bairro buscar o que não planto
no meu canto, na terra de arvoredo;
volto logo a compor essa paisagem...
Minha fauna se une à minha flora
nesta hora de ausência inesperada;
meu quintal me requer, pois mora em mim...

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FICAR SEM VOCÊ

Demétrio Sena, Magé – RJ.

A tristeza de alguém que faz gol contra,
não passou num concurso por um ponto,
quem caiu em um conto do vigário
quando mais precisou do que buscava...
Tenho a dor de sofrer uma injustiça,
de boiar numa porta em alto mar,
da noviça que acorda sem um Deus
para crer no mais turvo dos momentos...
Sem você sou país inabitado,
sou estado de sítio e de abandono
em um tempo esquecido por si mesmo...
Minha vida virou pagar pra ver,
sei viver mas não sei saber que sim,
pois ficar sem você é fim de linha...

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