Poemas e Poesias
Quintal
sombra da roupa lavada
que o vento afaga
no varal
bacia secando
ao sol
espiando
o menino
que viaja longe
num caminhão
protegido
pelo irmão.
Infância e quintal
sinônimos de poesia.
Sinceramente, eu estou tão cansado com o peso da minha cabeça
Que, às vezes, chego-me a imaginar que não acharei alguém comparado a ti
Aonde está você agora que esquecera de mim?
Deus vai abençoar a nossa vida, além daqui
Assim como o rio deságua no mar, eu ser amado por você transborda o coração de felicidades
Ao sentir o banho de chuva e vento na cara, tudo o que você canta, me encanta.
A tua alma é luz, claridão
Este poema divino em forma de canção é feito para ti depois de tanto tempo
Logo, poetas para quê se você tem a mim?
Estamos no rigor do inverno
Com teu amor ao me afagar é cheio de esplendor, com muito amor e carinho
Resultado da nossa união, gratidão
Retrato da nossa história jamais esquecidas
Vívidas, escritas e carimbadas no peito
Momentos do teu sorriso quente que me inebria e contagia
És fascinação neste mundo de alienação
Ah, se o trecho fosse usado para descobrir os teus segredos
Intenções boas que meus sentimentos ficariam tonto de tanta emoção
E contigo hei de ser feliz, minha fascinação preferida
Enfim, os nossos melhores momentos hão de ser vividos seja lá onde nós formos bem-vindos.
Regresso
a gente nasce
sendo semente,
gera e cria
até vir pesticida
digo, sociedade
afogando a alma
pra voltar a ser semente,
dessas de barriga grande
que engravidam
e alastram criação
pela beira da estrada
e rompem asfalto,
é preciso volver
água
chão
vento, ardência
até
virar semente
de
novo,
até
virar semente,
ovo.
(do livro 'Zíngara' de Bianca Rufino)
Receita
quando o canto do pássaro te atravessar
se faça de madeira (oca)
deixe ele maturar
no seu íntimo barril
como cachaça
canto bom
é canto curtido.
(do livro 'Zíngara' de Bianca Rufino)
Simples
não é preciso ler todos os livros
nem pertencer a todos os grupos
nem ter tanta história pra contar
nem descobrir todos os mistérios do mundo
nem carregar todas as medalhas,
e se tornar sumo de conquistas árduas e vigorosas
nada nada
vai nos deixar maior
nada nada
só o ser se acontecendo na fogueira do instante
se fará.
do livro 'Entre' de Bianca Rufino.
Percurso
pelo caminho, há chegadas e partidas
o fim é só o fruto do presente
buscar alegria no futuro ausente
é como partir
e nunca perceber os pedaços do caminho
tão importante quanto chegar no ponto final
é desfrutar cada instante, tão somente
ir coletando as pistas na beira da estrada
sobrevoando as alturas
as descidas
as pisadas
uma a uma
dançando como se não houvesse outra música
porque não há
se reconhecer na multidão
é como juntar as palavras de um poema.
do livro 'Entre' de Bianca Rufino.
como amolecer as pedras?
como boiar no céu?
me perguntava incessante
eu queria era rir das regras, das normas, das morais
se até as palavras são cheias de soberania:
“inconsequente”, “irresponsável”, “feio”, “inadequado”
quem foi que disse isso? eu gritava
tudo o que foi dito e feito não me interessa tanto mais
há muito o que se inventar, diria fuganti
amanhã tem de novo sol, e ele me espera
preciso ir,
devo estar preparada para esse nosso encontro.
do livro 'Entre' de Bianca Rufino.
Chamo-te hoje,
Porque pensar-te
É a lâmina mais feroz.
Êxtase de te revelar segredos,
E te acolher no ventre, ó vagabundo,
Entre o pranto e o anoitecer,
Estremecendo vagas de solidão em aguaceiros de poesia.
Ó desconhecido de todos os desalentos,
Escancarando vida no umbral da porta,
Imaginei-te somente!
E, guardiã da tristeza intrínseca,
Baptizei-te alento,
Prenúncio de temporal.
Grito-te ainda,
Porque o silêncio a bailar entre risonhos girassóis,
É o tempo mais sublime,
Ânsia de ansiar
Nossos corpos esculpidos
Num sopro de infinito.
© Célia Moura – Do livro “Enquanto Sangram As Rosas…” (2011)
A Pastelaria Defronte À Casa Vazia De Mim
Na pastelaria defronte à casa vazia de mim
onde habito
distraio-me nas gargalhadas imbecis
das gentes rotineiras que absorvem meias de leite e galões
fazendo uma espécie de orquestra
com o autocarro parado adiante
falando da vida alheia
com a boca tão cheia
que chegam a cuspir “gafanhotos”espaciais
apanhando os mais incautos.
São raras as vezes que passo por lá,
mas gosto de observar o saltitar dos pardais em busca de migalhas.
Na pastelaria defronte à casa
onde ainda habito
o álcool ameniza as mágoas,
a marijuana devolve-lhes
os sonhos mais banais
e as crianças vagueiam soltas sem jantar
brincando e comendo gomas e chocolates.
Se ao menos fossem como os pardais da manhã a saltitar entre as mesas,
se ao menos fossem como alguns cães que certas senhoras
levam a passear aos quais compram bolos de arroz ou com eles dividem a tosta mista!
Quão estéril é a pastelaria defronte a esta casa vazia de mim!
Mulher
quem és tu?
Não sei.
Como não sabes!
E sabes ao menos de onde vens?
Não sei.
Que fazes tu da vida?
Não faço nada.
Como não fazes nada?!
Todos fazem algo, todos têm sonhos,
Que é feito dos teus sonhos?
Asfixiei-os.
Porquê?
Talvez por me causarem uma ilusão desmedida,
não sei.
Doiam-me na alma e no corpo inteiro.
Mulher, tu és totalmente alucinada,
Louca!
Sou sim.
Todos os dias te chamo
envolta no negrume
desta minha alma vazia.
Todos os dias emudecem gritos
na garganta
paridos nesta agonia
de viver sem saber para quê!
Ninguém sabe
de que néctar nos lambuzámos,
de que luz nos incendiámos
na lânguida tela, primordial e eterna
inebriada de papoilas
e trigo por ceifar.
Ninguém soube,
nem eu sequer
o quanto te amei.
Todos os dias te chamo
e tu vens afoito, sorridente
comemorar comigo Vida
ao entardecer na tapada.
E com amoras nos olhos
samambaias no rosto
adormeces-me neste exílio
de terra fecundada
onde me dou por inteira,
sangue, pele, artérias
indignação
e coisa nenhuma.
Todos os dias me adormeces
num beijo de colibri
para que esta dor imensa
renasça flor.
Aos meus dias de pranto,
às vertigens ocas
espaços inexplorados
e às virgens destrambelhadas
o meu aplauso.
Às flores de lótus
quimeras incendiadas
de paz e opala
minha rendição.
À poesia, mãe amada
companheira de glória e infortúnio,
única e dedicada amiga
todas as pérolas,
poemas, almas decepadas
ouro, platina,
filhos que amei
sem parir e chorei.
Agonia que jamais ousei
de meu ventre
amor aos pedaços
pela enseada de azul e nada.
À poesia e somente a ela
todas as alegrias,
todas as tragédias!
Nascem-me das mãos
madrugadas de afronta,
enquanto do meu ventre
gritam araras
em agonia
No lagar da morte
aprecia-se o vinho
enquanto gemem os dias
absurdamente iguais
mordendo pétalas,
as mais belas.
Nasce-me dos olhos
a fome com rosto de meninos
mas é em becos sorridentes
onde meu fado habita
que a morte se esgueira
expande, agiganta-se
num leito de beijos.
Nascem-me das mãos
madrugadas de afronta,
mas é na face uterina da noite
que se incendeiam os dias
e nessa luz imensa
acalma-se a agonia
deste meu ventre de pranto
Quando te deitares comigo
não pises as camélias
que trago no olhar
e me afagam a púbis
neste vale encantado
de luxúria
entre lençóis,
nem beijes a nudez
do meu silêncio.
É tarde meu amor,
tão tarde.
Peço-te
que teu cálice transborde,
enlouquecidamente
a saudade
que me morde as entranhas,
enquanto eu…
…eu apenas trago corais nos sentidos
e asas nos pés.
© Célia Moura, in “No Hálito de Afródite”
"MEU RIO GRANDE MEU CHÂO"
Campos verdejantes
Minha terra meu pampa
Vales e montes
Estão na estampa
Do meu Rio Grande meu Chão
A hospitalidade do seu povo
É a essência do rincão
O amargo do mate
Esquenta a alma
A saudade me bate
Me tirando a calma
Saudade campeira
O rancho rondando
E a solidão traiçoeira
Vem se acomodando
Ainda há brasas no fogão
E o sono tá chegando
Já chega de chimarrão
O minuano tá golpeando
Com fúria o galpão
E já estou me ajeitando
Pra sair daqui quando se apagar o último tição.
Questiono descubro vim, vi venho aprendendo.
Recuperado reagindo, episodio ensinamento.
Penitencia é desistência, paciência no seguimento.
Querendo sossego ficar bem sem mais tormentos.
Ligeira tendencia, modulo frequência.
IMPROVISO
Desprovido, diante da imensidão perdido.
PREJUÍZO
O sol queima meu juízo.
"O vento à espreita,
me encontra só,
como um resoluto esteta,
que contempla luas de quarto-crescente
com algodão doce na soleira.
E assim,
O caos se aquieta.
Em livros e poemas,
busco a companhia de palavras,
para atravessar o ciclo
e alcançar a revoada."
No caderno de um poeta, se encontram linhas e páginas, com versos e orações.
As guais expressam sentimentos e emoções.
Dias de alegrias, vontades e fantasias.
Tristezas, ou talvez profundas nostalgias.
