Poemas e Poesias
Em meio à devaneios, minha alma pôde descansar em uma praia de ventos álgidos que faziam do meu sangue, gelo.
Meus pés puderam passear pela areia quente e solitária, não havia ninguém ao meu lado.
Era um privilégio escutar a canção das ondas, era um privilégio a ausência de voz que não fosse a minha.
A boa solidão, como eu digo, é um privilégio.
Carta de redenção
Dizem que nenhum homem pode se arrepender de seus pecados
E continuar como se não houvesse acontecido nada
Mas as coisas que ouço são diferentes
E sei que no fundo serve apenas para me lembrar
Que cada um terá seu dia, de glória ou julgamento
Percebo que os espíritos me intoxicam.
Observo-os infiltrarem-se em minha alma sem sucesso
Eles tentam dizer que é tarde demais para mim
Mas sei que todos acreditam que esse é o sinal
De que estou voltando para casa...
Eu juro que vou viver para sempre
Digam ao meu criador que ele pode esperar
Estou cavalgando em vida, para algum lugar ao sul do Céu
Talvez em busca de redenção.
É dia de julgamento lá em casa, por isso volto...
Uma vez me prometeram absolvição
Mas sei que no fundo há somente uma solução para os meus pecados.
Tenho que encarar meus fantasmas
E saber sem nenhuma ilusão
Que somente um de nós vai para casa de novo
E eu culpo este mundo
Por tornar-me um homem pecador, sendo eu um homem bom
Se o demônio fizer o que quiser
Vou acabar entrando no Céu
Por que este mundo é o culpado por me fazer um pecador
Mas juro que vou viver para sempre
Depois que voltar para casa
Por que tenho dívidas a pagar e um julgamento marcado lá em casa.
Peço ao Senhor, tenha misericórdia
E guardo uma prece nessa carta para quando mais precisar dela.
Para o Pai, Filho e o Espírito Santo
E a assino, PECADOR, Sem nome.
Quando eu encontrar meu criador
Será que ele fechará o livro dos corações que parti?
Ou será que ele irá embora e me deixará viver para sempre?
Quem ler amiúdemente essa carta assim, pode até parecer que é uma carta de redenção.
Mas na verdade é o primeiro passo para a transcendência.
Pecador, sem nome(Edgi Carvalho).
milímetro de mágoa
foi uma dor cruel
pior que corte feito por papel
pequena, constante
e até revoltante
não era para acontecer.
e a gente vê
que o detalhe pode ser, então
imensidão.
Finalmente...
finalmente percebi...
O tempo, como o vemos.
O presente é sempre constante, e o passado sempre um pouco atrasado.
Quando dizem que não devemos sofrer com as coisas que já lá vão, não são apenas coisas que podíamos ter dito naquela discussão de á 10 anos atrás, mas todos os maus momentos que de um segundo para o outro se transformam de presente para passado.
É importante chegar a esta epifania, que por muito óbvia que seja, é fácil de esquecer.
Entre becos e vagões,
avenidas e vielas,
o vazio mesmo em multidões
faz, molda o poeta.
Afirmaram-se minhas intenções,
amoleceram-se minhas pernas,
não preciso de soluções,
só de emoções sinceras.
"Por retinas que interpretam como arte,
até chefes fazerem descarte.
Somos o gado e o governo o frigorífico,
a escola é a sala de abate".
“VIAS”
As vezes, só o corpo morre,
ou só sonhos se vão.
Sangue escorre,
causa choro ou não.
Em uma estrada,
relâmpagos percorrem horizontes.
A vida parece uma escada,
degraus pra subir ou descer, emoções aos montes.
Peço licença para existir,
sair do lugar,
se não tenho algo para persistir,
tenho causa alguma para respirar.
hoje vou cometer um crime
quando estiver sozinha no meu quarto
mas será um bom crime
que não prejudicará ninguém
e você
já que não lava roupa
mas lava dinheiro
não estará aqui pra saber
"Temida por muitos, desejada por poucos,
Um dia despertará da sua finitude terrena.
Nada nessa vida é certeza,
A não ser sua mortalidade tão plena.
Esteja ciente que não é imortal,
Pratique o bem e preserve seu final."
Chora sinfonia.
"Chora viola que você se afastou
Chora o banjo que fui eu que te afastei
Chora o tempo que me pede perdão
Por estragar meus sentimentos, a quem eu nunca duvidei
E numa chuva de cinismo e poder,
Logo eu, sob chuva, que nunca me acostumei.
E de barco vou barranco a baixo
Chora o baixo o canto pro meu filho
Que meu amor de vida não foi sua mãe,
Mas a cacheada que a tempos me encontrei.
Chora o lute que o amor não e reciprocado,
Só há dor de um lado,
E já se sabe o lado de quem.
Chora a harpa, me acusando de não amar,
Perdi-me em meus sentimentos
Mas os seus não eram dúvidas para ninguém"
Ecoa cachos.
"Chora o berimbau, ecoa a saudade,
Por você, minha ialorixá, tão bela e cacheada.
Em meio aos orixás, você me encantou,
Mas eu, garoto confuso, não soube segurar.
Perdi você por bobeira, por falta de cuidado,
Agora apenas tenho saudade e este vazio.
Mas não posso negar, meu coração ainda chora,
Pela sua ausência, pela sua falta, pelo que foi.
Mas vida vai, e eu me contento,
Com o que tenho, mas você não esqueço.
Nem o perfume de seu santuário,
Nem o brilho de seu olhar, nem seu sorriso.
Chora o berimbau, ecoa a saudade,
Mas eu sei que você está longe, em outro lugar.
E eu aqui, com meu coração dividido,
Entre o que foi e o que poderia ser."
"Palavras belas, fome que rói
Indigente, sem voz.
No sinal, bala, terra estranha,
Onde não se é visto.
Desvairado, honra a pouco preço
Coração cansado, alma ferida.
Poeta, pobre, sem já pertences,
Reclamaram seus versos."
INCÚRIA
Um dia a conta chega
E a ficha cai
O chão desaparece...
O equilíbriose esvai
Há sempre um preço a se pagar
Há sempre um erro a se acertar
Tanta incúria
Recebe a fúria
No vindouro, amargura
Agouro de agora é alguria
A mágoa no peito perfura
Contorce a procura da cura
Cara é cada dose... cada dor
Cada angustia também
E cada passo rumo ao seu futuro.
É uma vida que se refaz e desfaz seu monturo
Duro é o caminho em que se volta
Ao pisar nas pedras de sua ruína
Quando a liça é puramente genuína
A colheita no interior é a paz
AS LENTES DO OLHAR.
(Soneto)
Duas vezes que aprende-se a olhar:
A primeira é quando se fala e o mundo
Vai criando forma bem devagar
E Deus diz "haja luz" e vemos tudo.
Na segunda vez é que se define:
Vê-se o contraste entre o real e o mito.
Esperamos que o caos se desatine...
Não ficamos só a espreitar o Espírito
Que sobre a face do mistério adeja
- A abismada face da inocência -
Num assalto mergulhamos mais fundo.
Aprimorando as lentes do olhar, veja
O Espírito que agora adorna o mundo
Amalgama o novo na consciência
Estamos nos reinventado
Erguendo dos escombros
Não deixe o assombro
Pesar-lhe nos ombros
À sombra do tempo
Plantamos a esperança
A esperança do sertão
As vezes me lembro da última chuva
A maninha ainda tava na barriga da mamãe
Conseguia ver o sorriso de painho em seu rosto
Agradecíamos a Deus por cada gota de água que nos abençoava
Ainda tínhamos esperança
Gostava dessa época
Acordávamos bem antes do galo cantar
Miguel sempre resmungava das longas caminhadas até o poço
Ajudávamos papai até nossas mãos se enxerem de calos
Eu nem ligava, o importante era que nós estávamos juntos
Ainda tínhamos esperança
Depois que partimos de lá
Não se falava mais com vovô
Tentava chamá-lo, mas ele não respondia
Mamãe rezava mais uma Ave Maria, com os olhos cheios de saudade
Ainda tínhamos esperança?
Muito tempo se passou e a chuva no sertão não volta atrás
Olhando para baixo, vejo os registros das pessoas que já passaram por aqui
Olhando para frente, vejo a seca assombrar cada pedaço de vida desse nosso interior
Olhando para o lado, vejo a face de todos se apagando lentamente
Não temos mais esperança
CONSTRUA-SE
A máquina devora a terra,
entre lamentos e vazio,
carrega o peso das promessas,
nos braços frios do desvio.
Imagina-se um lar perdido,
mas tudo se desfaz no ar,
como sombras no escuro ,
e o sonho a se apagar.
Sem aço ao redor da alma,
solidão é mais que alicerce,
um eco brota dos muros
onde o coração se perde
E os tijolos, aos pedaços,
vão caindo ao chão sem cor,
na procura do que não existiu
encontra eco da própria dor.
Há algo que pesa no peito
mas só um nada a sentir
É um grito de frustração,
mas ninguém o ouve ali.
As mãos eram como nuvens
e o interior como trovão
vivia apenas pelo desejo
de acreditar nessa ilusão
As folhas partem no vento,
os sonhos não sabem ficar,
e a casa, feita de ausências,
se dissolve ao se desenhar.
E se o solo não serviu,
não desista do labor:
se a estrutura não se ergueu,
se construa, meu senhor!
𝑪𝒐𝒏𝒆𝒙𝒂𝒐 𝒑𝒓𝒐𝒇𝒖𝒏𝒅𝒂
Quando decidir amar somente a beleza,
Não esqueça de colher seus sentimentos vazios.
O amor pedia conexão, coração a coração.
O desejo superficial é ralo como a chuva no sertão.
Saciar-se o coração com amor e virtude,
O pra sempre não se encontra em qualquer lugar.
Mas sim, em conexões.
Sonho. O desejo,
sonho o desejo
que desejo e não vejo
realizar pra mim.
O sonho que sonhei
nem mais sei,
sonhei outra vez.
Sonhe novo,
sonhe um
novo sonho,
Sonhe um sonho sem fim.
AMOR TECER:
Amor só é amor
se for transforma-dor.
Amor só é amor
se amor-tecer.
Amor só é amor
se for verifica-dor.
Amor só é amor
se limpar a janela
antes de chover.
Para saber se é amor,
basta saber o que não é.
Amor se prova amor
sem precisar testar a profundidade
com mais de um pé.
