Poemas a um Poeta Olavo Bilac
Um jornal é um instrumento incapaz de discernir entre uma queda de bicicleta e o colapso da civilização.
A erudição é, em muitos casos, uma forma mal disfarçada de preguiça intelectual ou um ópio para adormecer as inquietações íntimas do espírito.
Uma grande campanha publicitária fará um mau produto fracassar mais rapidamente. Ela irá conseguir que mais pessoas saibam quanto ele é ruim.
O amante é um arauto que proclama onde existe o mérito, o espírito ou a beleza de uma mulher. Que proclama um marido?
Se é um prazer desfrutar do que é bom, prazer maior é provar o que é melhor; e na arte aquilo que é ótimo é bom o suficiente.
Que importa viver com os outros quando cada um se está nas tintas para o que é importante para os outros?
Qualquer problema que possa ser resolvido com um talão de cheques não é realmente um problema, é apenas uma despesa.
Tão frequentemente o intelectual é um imbecil que o deveríamos sempre tomar como tal, até que nos tenha provado o contrário.
Os homens medíocres cumprem um importante papel nos grandes acontecimentos unicamente porque não se encontram lá.
Palavras, poemas, apelo da alma.
Escrita, que grita, agita, acalma.
Que muito expressa e pouco ajuda...
É fato, é ato de fuga e saída.
Que acode a poeta, eclode na vida,
Mas deixa a queixa, não mata e nem muda.
SEXTO HEXÁSTICO
eis-me aqui sujeito póstumo
zumbi de deambulações
aedo de poemas tortos
catando esmos corações
ditirâmbico sem o báquico
hino para minhas orgias
A LUZ DO FAROL
Não te recitei poemas nem fiz juras de amor,
eu te ofereci meus dias e minha vida
como um criminoso buscando redenção.
E você me abrigou sob sua luz,
intensa e constante como um farol
invadindo o mar para salvar os esquecidos
e os desesperados.
Você calou meus demônios com sua ternura
e fendeu a sepultura onde jazia meu coração
com um simples olhar, com um simples estar.
Eu deixarei morrer cada entardecer
enquanto teu beijo amanhecer o dia.
Eu deixarei morrer cada dezembro
enquanto tuas palavras brotarem janeiros.
Eu deixarei morrer as flores do meu jardim
enquanto teu corpo ressuscitar a primavera.
Eu deixarei morrer silenciosamente
no teu seio minh’alma ou meu espectro,
pois em mim toda paz perde o reinado
(não há virtude sem o pecado).
POEMAS (soneto)
Navego os poemas, linha a linha
Ergo mastros, porta e tal janela
Por ela, os devaneios donzela
Em nudez, trespassam, asinha
Nesse instante imaculado, vela
O verbo e, que no senso avinha
Onde velejo com a alma sozinha
Que esmoe olhar e dor em tutela
Nesta maré anino, e gavinha
A solidão na ilusão que fivela
Cada estória na história minha
Então, faço versos tal caravela
Navegante e, tal qual grainha
Na vinha, germino em aquarela
Luciano Spagnol
Poeta do cerrado
Março, 2017, 05'02"
Cerrado goiano
