Pedra
Findar um som 100% (ou o mais perto disso) intencional e autêntico é como encontrar uma pedra preciosa que sempre esteve no seu sótão.
Ode a Xangô Agodô
Xangô, Senhor do Trovão,
pedra que ressoa justiça,
voz que ruge no coração das montanhas,
equilíbrio das balanças eternas...
Teu machado de dois gumes
corta as correntes da mentira,
derruba tronos injustos,
ergue os que vivem na verdade...
Agodô!
O fogo dos céus te saúda,
a pedra sagrada te reconhece,
e o som dos atabaques anuncia
a tua presença firme e reta...
Rei de Oyó,
Senhor das tempestades e dos raios,
teus olhos são relâmpagos
que iluminam os caminhos escuros,
teu coração é tribunal
onde só a verdade se assenta...
Xangô Agodô,
força que equilibra,
justiça que não falha,
pedra que sustenta,
voz que ecoa no vento,
e guia os filhos de fé...
Kaô Kabecilê!
Kaô Kabecilê, Xangô!
Que tua justiça nos ampare,
que tua força nos guie,
que tua luz nos proteja
neste mundo e além dele...
Kaô Kabecilê!
Eis que a terra estremece ao teu brado,
e o céu se rasga em trovões,
quando teu machado flamejante
desce sobre a mentira...
Xangô, Senhor dos relâmpagos,
juiz supremo dos vivos e mortos,
tuas mãos são rochedos incandescentes
que esmagam os falsos,
que sustentam os justos...
Agodô!
Teu fogo não perdoa,
teu raio não hesita,
tua pedra é sentença
que ninguém ousa contestar...
Rei que governa com justiça,
tua ira é purificação,
tua força é espada de luz,
teu nome é eco que dilacera o silêncio
nas gargantas do tempo...
Kaô Kabecilê!
Kaô, Xangô Agodô!
No teu tribunal de trovões,
as lágrimas viram rios de libertação
e o grito do oprimido
se ergue em vitória...
Xangô,
quando a chuva cai serena
e o trovão murmura no horizonte,
sinto tua presença
como um abraço de pedra e vento...
Teu machado não me assusta,
ele me consola:
sei que corta apenas
o que não é verdadeiro...
Agodô,
és justiça que acaricia,
és força que embala,
és rocha onde posso repousar
meu coração cansado...
Kaô Kabecilê, meu Pai,
teu raio me guia,
teu trovão me embala,
teu silêncio é o templo
onde descanso minha fé...
No altar das pedras,
acendo minha gratidão:
por tua retidão que me ensina,
por tua firmeza que me sustenta,
por tua luz que me ampara...
Kaô Kabecilê!
Kaô Kabecilê, Xangô!
✍©️@MiriamDaCosta
*Xangô Agodô é uma qualidade antiga e elevada de Xangô, o Orixá da justiça, do trovão e do fogo, sendo considerado o "Xangô velho" e o mais antigo e sábio rei. Ele representa a justiça divina e ancestral, governando com equilíbrio e firmeza, e é frequentemente associado a pedras, pedreiras e ao poder da escrita e das leis.
De pedra em pedra a gente vai se melhorando, com muito esforço e coragem. Cada erro ensina, cada queda fortalece. De passo em passo a gente chega lá, o segredo é não parar. Quem insiste, vence. Quem acredita, alcança. Tudo cresce com tempo e cuidado — inclusive você. A força vem dos dias difíceis, não desista agora. Tijolo por tijolo, a gente constrói um futuro melhor. Não precisa ser rápido, só precisa continuar. Mesmo cansado, vá, porque o cansaço passa e o resultado fica. Tudo que é bonito leva tempo pra florescer — tenha paciência e fé. O caminho é longo, mas cada passo é uma vitória.
Coração de Pedra
Há amores que atravessam décadas.
O meu atravessou a alma.
Não foi longo o bastante para o calendário,
mas foi eterno para tudo aquilo
que morreu dentro de mim.
Conheci-te primeiro como quem contempla uma estrela distante:
bela, inalcançável, prometendo luz.
Quando enfim toquei tua existência,
confundi o brilho com o calor
e a esperança com a verdade.
Enquanto teus braços buscavam abrigo,
os meus construíam um lar.
Havia uma criança.
E, sem que ela soubesse,
devolveu humanidade aos meus dias.
Nos seus olhos havia a inocência
que o mundo ainda não havia aprendido a ferir.
Amei aquele pequeno ser
como se o destino, por um breve instante,
tivesse me permitido ensaiar a eternidade.
Mas algumas almas não conhecem o repouso.
São mares em permanente tempestade,
capazes de afogar até quem mergulha
com a intenção de salvá-las.
Eu não enxerguei.
Não porque me faltassem olhos,
mas porque o amor, quando se torna absoluto,
transforma a verdade na primeira vítima.
No fim, descobri que beijava uma ilusão
e abraçava um vazio que tinha o teu nome.
Desde então, ninguém mais conseguiu entrar.
Não por falta de beleza.
Não por ausência de bondade.
Mas porque existe uma porta
que só se fecha uma única vez na vida.
Hoje, meu coração não sangra.
Pedras não sangram.
Elas apenas carregam, em silêncio,
o peso de todas as ruínas que sobreviveram ao tempo.
E, se um dia alguém perguntar
qual foi o maior amor da minha existência,
não direi teu nome.
Direi apenas que houve uma primavera
tão intensa,
que foi capaz de transformar todas as estações seguintes
em inverno.
Onde o Silêncio Reza
Havia um templo feito de pedra,
mas era o silêncio que sustentava suas paredes.
As velas queimavam lentamente,
como se soubessem que nem toda escuridão nasce da noite.
Os bancos antigos carregavam cicatrizes,
marcas de joelhos cansados e mãos unidas em oração.
Pediam apenas cuidado,
enquanto outros olhos enxergavam apenas cifras.
O ouro nunca brilhou mais que a fé.
Ainda assim, há quem troque a luz do altar
pelo reflexo frio das moedas,
esquecendo que toda riqueza roubada da esperança
cobra um preço que o tempo jamais perdoa.
Os sinos continuam a tocar,
mas seu som já não desperta apenas os fiéis.
Também desperta as consciências,
porque nenhuma sombra permanece escondida para sempre.
E quando a última vela se apagar,
não será a madeira, nem a pedra, que serão julgadas.
Serão os corações que confundiram o sagrado com interesse,
e fizeram do silêncio um cúmplice.
No fim, resta apenas a verdade:
ela caminha devagar, veste luto,
e sempre encontra o caminho de volta ao altar.
Muralhas de Ferro
Erguem-se altos os muros da estrada,
Pedra usinada pelo tempo e pela dor.
A vida, às vezes, é fortaleza fechada,
Onde a esperança hesita em compor.
Os portões são de bronze e chumbo pesado,
Com ferrolhos gigantes que ranger nos fazem temor.
E encaramos o fosso, de um lado isolado,
Perguntando se existe passagem ao amor.
Mas até o castelo de pedra mais dura
Guarda uma fresta por onde entra a luz.
Não há ponte levadiça que dure a amargura,
Nem ferro que vença a coragem que conduz.
Pois a mão que moldou a pesada tranca
É a mesma que aprende a encontrar a saída.
E a muralha mais alta, por mais que imponha a banca,
Cede ao passo constante de quem vive a vida.
Ah, coração
Quisera fosses apenas
Um pedaço assim
De pedra, giz ou carvão
Este, que bate em mim
Nada sente
O da alma é diferente
Esse me diz, todo dia
Meu poeta, eu não queria
Viver outra coisa além
Dessa singela poesia que fazemos
Nela, a vida pode não ser bela
Seguramente não é
Mas a gente bota o pé
Quase que seguro de onde pisa
E não precisa mais ninguém
Além de tu e de mim
Pois o mundo não é assim
Que nem a gente
Felizes, interagindo
Buscando um desfecho
Que não se arvore a ser perfeito
Também não precisa ser lindo
Desde que tenha alguma graça
E que faça algum sentido
Pra tu e pra mim
Pois o mundo não pensa assim
O avião que passa lá no céu, só voa
O trovão da tempestade é barulhento
A chuva molha e a vida é boa
Contigo aqui comigo, coração
A chuva é maravilhosa
O trovão da tempestade, ecoa
A vida, flutuante, pega carona
Numa corrente de vento
O avião que voa, sobrevoa um mar de rosas
Mas não vimos nada disso
Porque estivemos desatentos
Tentando enxergar poesia
Onde a luz do dia iluminava
Uma parede de concreto
Uma cidade reta
A flora de ervas daninhas que aflora
Pra glória de quem deseja
Que tu e eu também vejamos
O quanto este mundo seria bom
Se todos os corações apenas
Se comportassem
Como pequenos pedaços
De pedra, giz ou carvão.
Edson Ricardo Paiva
CAPÍTULO III
A PEDRA E O SILÊNCIO.
O inverno descia sobre a Úmbria com a gravidade própria do século XI. As colinas próximas a Perugia tornavam-se densas sob a névoa, e o ar carregava o odor de lenha úmida e terra revolvida. Não havia pressa na estação fria. Havia espera. E na espera formava-se o caráter.
Cladissa contava aproximadamente 17 invernos quando o abade do mosteiro próximo, vinculado à Ordem de São Bento, permitiu que algumas jovens do vilarejo participassem da instrução elementar da leitura dos salmos. Não era privilégio comum. A alfabetização, ainda que rudimentar, concentrava-se nos claustros. Mas a região vivia um momento de reorganização disciplinar após as reformas impulsionadas por Gregório VII, e a formação espiritual das famílias tornara-se preocupação constante.
O mosteiro erguia-se em pedra clara, austera, quase severa. Nada ali convidava ao conforto. Tudo remetia à permanência. Ao atravessar o pátio interno pela primeira vez como aprendiz e não apenas como visitante, Cladissa sentiu algo que não soube nomear. Não era temor. Era reconhecimento. Como se a pedra falasse uma língua silenciosa que sua alma já conhecia.
O scriptorium situava-se no lado oriental do edifício, para receber melhor a luz da manhã. Ali, dois monges copiavam trechos da Vulgata sobre pergaminhos espessos. O odor de tinta ferrogálica misturava-se ao couro curtido das capas. O som dominante era o do raspador sobre o pergaminho, corrigindo imperfeições antes da escrita.
Cladissa observava. Não perguntava em excesso. Sua inteligência era contemplativa. Compreendia que naquele espaço o saber não era ornamento. Era responsabilidade. Cada letra traçada era um gesto de preservação do mundo antigo.
O irmão Martino, monge de meia-idade com mãos firmes e olhar fatigado, percebeu a atenção da jovem. Não a tratou com condescendência. Entregou-lhe um fragmento de salmo e indicou que repetisse a leitura em voz baixa. A pronúncia latina de Cladissa era hesitante, mas clara. Não buscava rapidez. Buscava exatidão.
Naquele instante, algo se deslocou em sua interioridade. Não era ambição de erudição. Era a percepção de que o conhecimento ordena a alma. A disciplina da leitura tornava-se disciplina do pensamento. E o pensamento disciplinado protege contra o caos.
Fora dos muros, entretanto, o mundo mantinha sua rudeza. Um conflito entre dois senhores locais, ligados a pequenas fortificações ao sul de Assis, ameaçava os camponeses com novas exações. A insegurança política era parte estrutural da época. O feudalismo não era sistema abstrato. Era cobrança concreta, era trigo confiscado, era inverno mais severo.
Cladissa escutava as conversas sussurradas no vilarejo. Não reagia com revolta impetuosa. Refletia. Percebia que a violência exterior revelava desordem interior. A ausência de governo justo era reflexo da ausência de autodomínio.
Certa tarde, ao regressar do mosteiro, encontrou a mãe sentada à porta da casa, fiando lã com movimentos ritmados. O silêncio entre ambas não era vazio. Era comunhão. A mãe não dominava a leitura, mas dominava a resistência. E essa forma de saber era igualmente necessária.
Cladissa compreendeu então que sua formação não poderia ser puramente claustral. A pedra ensinava firmeza. A terra ensinava humildade. O mosteiro preservava a palavra. O campo preservava a vida.
Na última vigília daquele inverno, permitiram-lhe permanecer na igreja durante o canto das horas noturnas. As vozes graves dos monges ecoavam sob a abóbada simples. Não havia ornamentos dourados. Havia reverência. A repetição dos salmos não era monotonia. Era lapidação da consciência.
Ali, sob a luz trêmula das velas, Cladissa tomou uma decisão silenciosa. Não se tratava de fugir do mundo. Tratava-se de compreender o mundo a partir de um eixo interior inabalável. Se o século era instável, ela deveria tornar-se estável. Se a política oscilava, ela deveria ordenar-se moralmente.
O inverno terminaria. Os conflitos talvez se agravassem. O poder mudaria de mãos como tantas vezes mudara. Mas a disciplina adquirida naquele claustro permaneceria como fundamento.
Cladissa não buscava glória. Buscava retidão.
E no silêncio das pedras antigas, começou a erguer-se não apenas uma mulher medieval, mas uma consciência capaz de atravessar seu tempo sem dissolver-se nele.
Deseja que o Capítulo IV avance para um evento histórico concreto, como a tensão feudal aberta em violência, ou prefere aprofundar a vocação espiritual nascente de Cladissa dentro do mosteiro.
" Com o " Tinha uma pedra no meio do caminho " é sinal feliz porque tinha, mas é grandioso de perceber que agora falta somente a outra metade do caminho. "
Somos uma pedra bruta e o tempo é o escultor que tenta nos polir usando as intempéries como ferramentas.
Senhor Jesus, que viste além das pedras, ensina-nos a largá-las.
Transforma coração de pedra em coração dócil;
que nossos olhos enxerguem irmãos antes de faltas,
nossas mãos estendam mais que apontem,
e nossa boca leve bênção, não pedra.
Que a Tua graça nos faça especialistas em ajudar, perdoar e restaurar.
Em nome de Jesus, amém.
Verdade sem amor vira pedra; amor sem verdade vira sentimentalismo. Em Cristo, verdade e graça caminham juntas. João 1:14
Pés despidos na pedra fria, olhos que sabem de dor. Mas há no rosto cansado a chama viva do amor. Quem carrega o que é amado não sente o peso que levou.
Teu caminho até mim foi traçado com sangue na terra. Cada pedra feriu Teus pés, não porque eu merecesse, mas porque Tu escolheste me amar.
