O Poeta e o Passarinho
Quando entrei nos eixos do Plano Piloto vi a caixa preta da política brasileira escondida no painel do senado tendo seu selo quebrado.
O tempo é um irresponsável, dirá aquele que se deixou levar. O tempo mata quem não quer viver, destrói quem não abre páginas na história. Mas aos que colaboram com a realidade plastificada atrás da memória o tempo premia com a lembrança do futuro, já concretada nos livros.
Fazendo caras tristes os palhaços conseguem gargalhadas. O povo consegue o mesmo fazendo cara de que está tudo bem, nos dias de eleição.
Eu não suporto pensar que um dia acreditei que o mundo não fosse perfeito, mas que as pessoas só existiam para melhora-lo. Hoje sei que o mundo é perfeito, e as pessoas só existem para destruí-lo.
A maioria sempre convence a ela mesma que sua burrice é a melhor opção para a minoria. É assim que é aprovada a grande parte de nossas leis.
Fazer poesia é fazer casulos de cobertores e sofás e brincar dentro deles fazendo comidinha. Ah, é lá dentro que apaixonamos a primeira vez.
Na Estrutural uma fumaça negra de pneu desenhou no céu de Brasília a ignorância do povo. Padecem por não saber sequer onde levar seu grito.
Não houve formação de quadrilha, na verdade houve formação de partido. E a cada dia formam mais um e ninguém faz nada.
Houve um tempo que eu achava que o voto não era importante. Agora eu tenho certeza. O melhor retrato do voto é um caminhão de boias frias.
Existe um lugar onde palavras não tem importância nenhuma. É quando elas vão embora e ninguém olha. Aí as palavras ressentidas voltam e ficam.
Sou como os pés de uva que nos dias de chuva, trançado no jirau, ainda guardo no doce de meus frutos o recado de meus sentimentos.
A poesia mudou senhores, uma nova escola nasceu. Estamos no tempo dos poemas que cabem em bilhetes de bolso.
O preso deu fuga, através do seu túnel, para a cambada toda. Mas na hora de ir, descobriu que já havia criado raízes. Estava preso.
Quando não há nada no coração
Nem silêncio,
Nem perdão,
Uma voz muda deixa a votação
É que sem opção
A democracia acaba
Justo na eleição
Tem aquele dia em que estamos desassossegados, é nestes dias que as poesias borbulham dentro da gente. É como se encontrássemos pela primeira vez a mulher da vida da gente. Não só uma, todas elas juntas. É o encontro com a mãe, com filha, com a mulher amada, com a amiga que ocupa lugar especial. Nestes dias não conseguimos fazer nada. Queremos um sorriso, daquela pessoa inusitada no bar quase cheio. Queremos um abraço apertado, daqueles que fazem a gente escrever uma obra prima. Sou daqueles poetas que alegram-se por nunca ter faltado inspiração. Mas eu tenho medo. Tenho medo que as poesias sequem. Tenho medo que o grande prazer que ganho todo dia se perca na serenidade dum dia desses.
