O Poeta e o Passarinho
SONHO
Sob o encanto mortiço do olho sem
pálpebras da sentinela desolada, vagos
e nefastos errantes sombrios entram em
sua nimbosa treva proibida.
Perturbados por sonhos hipocondríacos,
se encantam com a moribunda noite,
assim como o velho poeta e seus versos de outrora.
Se não tentam me convencer com grandes ideias e sim com tolices, será difícil - mesmo com todas as forças da tolerância - andar em comum acordo
"Eu vi um homem sendo ridículo
e me pus a rir dele
mas foi só por um breve instante e parei
pois quando olhei para trás
vi que um outro ridículo
ria de mim."
INQUIETUDE
O que me incomoda é este teu silêncio
de amar e se fazer amada
mas não me ama.
Você me olha quase falando
mas nada fala.
Teus gestos tem um quê!
mas eu não sei o por que
deste teu silêncio.
Desta chuva que cai, mas não molha
deste fogo que arde, mas não queima
deste vento que sopra tão forte,
mas não move sequer uma folha do lugar.
E você permanece imutável
sem saber que te amo,
deixando apenas o silêncio
falar por você...
Palavras, poemas, apelo da alma.
Escrita, que grita, agita, acalma.
Que muito expressa e pouco ajuda...
É fato, é ato de fuga e saída.
Que acode a poeta, eclode na vida,
Mas deixa a queixa, não mata e nem muda.
“Pois EU SOU uma dança, um amor que balança, uma esperança que se alcança, e por todos os lados há música!..."
As vezes você lança uma semente em um solo que por cima tem boa aparência, que foi adubado; depois, infelizmente, descobre-se que era infértil.
Traços De Mim!
Os traços...
Vão dando a forma.
O jeito.
O sombreado.
A imagem surge...
E aos poucos
fez-se poesia.
Num rosto de mulher,
que esboçava um
tímido sorriso.
O poeta-desenhista,
traçou um rosto familiar.
Um rosto que
sem dúvida,
sou eu!
SE A VIDA TE AFLIGE
Se a vida te aflige...
Faz dela um poema...
Faz dela um soneto,
Sem um pingo de desencanto.
E que de encantos,
Encante-se o verbo ao mundo.
Se a vida te aflige...
Torna-te um poeta...
Faz dela um belo poema...
E do mundo - a tua inspiração.
Logo pela manhã eu insisto em criar analogias, e destruí-las. Todas elas enquanto bebo meu café, forte e amargo - como minha alma.
A CAIXA
Dor...
Fique bem aqui, guardada
Dentro desta caixa
A caixa é escura e grande:
Grande o bastante para estar tão vazia;
Negra o bastante para o medo do escuro;
Silenciosa o bastante quando fechada.
Quando aberta é fatal!
Os gritos começam,
Provocando tamanha lástima.
Sempre a mesma música ao abri-la.
Aquela melodia chorada
Cada vez aberta, lágrimas
Rasgando a ferida.
Dor...
Não vá embora
Fique bem aqui, guardada
Dentro desta caixa
Ou quando abrirem-na
Não haverá mais nada.
E se de repente eu parasse de escrever sobre o amor. E se ao invés do amor eu passasse a escrever sobre os meus amores, todas elas?! Seria fascinante, uma viajem ao tempo, um mergulho nas lembranças; o dedo na ferida, o sangue coagulado, a cicatriz se abrindo. Eu saberia que ainda fazendo isso e juntando página por página, nenhuma teria valido o que valeu a minha Capitu. Não a de Machado de Assis e seu Dom Casmurro, mas a minha!
Máquina da desinvenção
[J.W.Papa]
Desinventei a amizade, desinventei o namoro, desinventei a cidade
desinventei tudo que fora inventado, e antes que fosse tarde
me revoltei com o sistema, chutei o balde
desinventei a velha máxima de que adolescente é tudo rebelde
e assim segui pela vida... desinventando as invenções existentes.
Desinventei minha infância, abandonei os livros, os amigos, a escola...
Senti-me como se fosse um adulto temporão
no pleito dessa minha nova desinvenção fui trabalhar nas férias:
- vendendo picolé, carpindo lotes, acompanhando e cuidando de idosos -
Logo alguém viu a merda que fiz e cismou de desinventá-la por mim.
Então, tive de me adaptar! Uma vez que, barriga vazia não para de roncar.
Sem querer inventei o fórceps!
Assim que nasci, desinventei o parto normal
e foi essa, a minha primeira desinvenção que deu o que falar.
Tornei-me logo cedo um grande desinventor
- marginalizado por minhas ideias revolucionárias de desinvenção.
Desinventei a guerra, desinventei a fome, desinventei a miséria
desinventei tudo que havia de ser desinventado
segui em frente desinventando tudo que pude sem olhar para trás
até que um dia cismei de inventar uma máquina que desinventasse as desinvenções
e assim tudo cessou de ser desinventado por mim.
A poesia parece ter morrido sufocada pelas transições nebulosas da fabrica que cria mentiras.
Parece não haver espaço para os apreciadores que saldosos tornam-se poucos
Durante a sua criação ela nasce e cresce consigo leva os turbilhões de idéias e emoções que em chamas arde o peito de quem há de escrevê-las.
É quase como vomitar aquilo que não se consome e pó assim dizer que para o poeta ela morre quando a caneta para em um ultimo nome.
"Quando você não se enxergar no meu olhar e a minha boca o seu nome não pronunciar é porque estou te beijando."
Guetto Moreno
