Nove Noites de Bernardo Carvalho
Não moro apenas em mim. Moro em cada abrigo de amor que eu ofereço diariamente à minha própria alma.
Nara Minervino
Não sou mais dona de mim.
Meus olhos já não mais me enxergam,
de tanto que olham para ti.
E respiro...
E inspiro...
E suspiro...
E o meu sossego?
Eu não vejo.
Eu sigo a luz dos meus instintos.
Não minto.
Mas eles me enganam,
E somente a ti é que amam!
Quão cruel é o meu coração:
Não reconhece que o meu amor
Que te dou
É em vão!
Muitos escondem os perigos que sua alma e seu coração oferecem e acabam por nos convencer a chamá-los de amigos.
Quando um corpo estático sente falta de outro, que já foi quente, não é que alguém esteja errado. É que algo está ausente.
Não me subestimo com a grandeza nem me envaideço sobre a simplicidade. Tento oferecer exatamente aquilo que procuro receber.
Não somos mais inteligentes, se temos mais conhecimentos. Somos mais inteligentes se, conhecendo mais, respeitamos o outro e o seu direito de não saber, ainda, o que já sabemos.
Quando a gente vem ao mundo destinado a amar alguém, só passa a viver realmente depois do encontro com o ser amado.
REVOLTA
Passou por mim
Como um vento ao relento.
Soprou. Acariciou.
E, suavemente, ar no meu peito jogou.
Exaltei. Vibrei.
De alegria cantei.
E, de tão macia a brisa,
Não enxerguei a ferida
Que em meu peito se abria.
Chorei. Causei.
Foi para trás que eu fiquei.
Parada. Estática.
Eu fui a folha que voa.
Eu fui a folha que passa.
Seca. Murcha. Despedaça,
Mas que, virando semente,
Em nova folha se acha.
A vida não acaba para quem fica,
Mas para quem passa.
Babaca!!!
SINGULAR. SINGULAR. PLURAL.
O tempo.
O contento.
O relento.
Ele vem.
Ele traz.
Ele leva.
Ele vai.
Vontade.
Encontro.
Desejo.
Saudade.
Eu.
Singular.
Você.
Singular.
Nós.
Plural.
Você.
Singular.
Eu.
Singular.
Não mais.
Singular.
Ímpar.
Par.
COMENDO SEM SOFRIMENTO
E agora, meu DEUS,
O que é que eu vou comer?
O que eu gosto não pode,
E, quase sempre, o que pode
É o que eu não vou querer!
Se tem verdura no meio,
Que mais parece ração,
Eu como com algum receio,
Mesmo com fome de leão!
Se tem doce ou chocolate,
Logo a gula me bate,
E, como não sou moderado,
Vejo a saúde no abate.
Macarronada, lasanha,
Refrigerante ou pudim,
Cada coisa dessa me ganha
E me faz comer "tudim",
Mas logo, em pouco tempo,
Eis que vem o resultado
E, porque foi tão gostoso,
Minha saúde foi pro ralo.
Quinua, gergelim ou gengibre,
Chia, aveia ou linhaça,
Eu como se é o jeito,
Mas de uma colher não passa.
Aí, escutando os mais velhos
E ouvindo os especialistas,
Vejo que essa é a comida
Pra comer por toda a vida.
E agora? O que fazer?
Será que eu tenho mesmo,
Mesmo, mesmo que escolher?
Não precisa sofrimento
Pra escolher o alimento
Que vai me fortalecer
E me ajudar a viver.
O que eu preciso, apenas,
É colocar na balança:
O que me cresce a saúde
E o que me alimenta a pança.
Depois de equilibrar
O que eu preciso e o meu gostar,
Vou vendo que as duas coisas
Eu posso reajustar.
Na maior parte do tempo
Que eu tenho na minha vida,
Vou comendo o que é devido
E, assim, evitando feridas.
Somente uma vez ou outra,
Naqueles dias festivos,
Dou vida aos meus desejos
Sem ficar enlouquecido,
Como somente o que quero,
Cheio de desejo e equilíbrio.
Tudo na vida é assim:
Um viver na corda bamba.
Se pende apenas prum lado,
A vida vira um fardo.
Se pende somente pro outro,
O futuro nos traz desgosto.
E assim eu vou convivendo
Com dois ritmos de um só samba,
Mas eu sei que isso tudo é preciso,
Senão minha vida desanda.
Agora o que eu preciso
Pra viver com dignidade,
É saber que nem tudo é devido
Pra que eu tenha felicidade.
Eu posso ser feliz
Comendo o que não suporto,
Como também assim o serei,
Controlando as comidas de que gosto.
Se assim eu vou fazendo,
Feliz é que eu vou vivendo,
Porque tudo o que me alimenta
Minha saúde vai mantendo.
DESTEMIDE-SE
Não perturbe!
(Se) Mude!
Se sua vida lhe erra,
(Se) Enxerga!
Não precisa se afogar
Nesse mar do reclamar.
Quem vive de lamentações
Perde tantas embarcações,
De prazeres e deveres,
De sonhos e de ilusões;
De novas fases e descobertas
De toda vida tão certas!
Não entre nessa esfera,
De esperar pela vida,
(Que lhe espera).
Tome logo uma atitude.
Ou muda ou se mude.
Não pode é ficar parado
Com tanta vida que tem ao seu lado.
SOBRE PLANTAÇÕES E COLHEITAS
De nada adianta
Investir na plantação
Se para fazer a colheita
É necessária a decisão
De sair sob sol ou chuva,
Vestindo ou tirando luva,
Colhendo o que foi plantado
Na terra que se tem arado.
Se aquele que planejou,
Que cavou, plantou e arou
É o mesmo da terra duvida,
A toda a colheita castiga
E a alma na vida investida
Com a plantação está perdida.
SOLTANDO PIPAS
Pode ser pipa, papagaio ou gavião.
Depende do vento, brando ou furacão.
Com ela se encanta a criança crescida
Que no meio da rua se prepara pra vida.
Criança com pipa se cerca de encantos
E através dela faz seus olhos brilhando.
Não sabe que a vida nos cerca de dores
E joga na pipa inexistentes temores.
Quem solta pipa tem uma infância feliz,
Faz do papagaio seu amigo aprendiz.
Com ela a criança seus sonhos balança,
No fio de linha que, com outras, ela trança.
NÃO ATIRE O PAU NO GATO
Atirei o pau no gato, pois ele vivia miando,
E, num só salto, muito rápido, o gato saiu pulando,
Foi miar no meu telhado, o meu sono incomodando,
Me fazendo repensar "porque eu dei no bichano".
Toda noite, agora, acordo e chamo pelo bichinho:
"Venha pra cá, lindo gato! Venha pra cá, seu gatinho!"
Mas o gato, já escaldado, não quer cair na minha mão,
Não sai mais do meu telhado e ainda me dá uma lição:
Quem atira o pau no gato e o gato quer machucar
Vai passar a noite em claro, sem poder nem cochilar.
Nara Minervino
