Nao me Peca pra te Esquecer
"Pai, se não for de Ti, não permitas que me toque. Que caia por terra todo presente envenenado, toda aliança disfarçada de bênção. Porque eu sei: até o diabo sabe se vestir de promessa."
Pois está escrito: “Ainda que mil caiam ao teu lado, e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.”
Mas também sei o que disse Maquiavel: “O homem esquece mais rápido a morte do pai do que a perda do poder.”
E é por isso que não me iludo com sorrisos.
Não me encanto com elogios.
Não aceito coroas que venham com coleiras.
Eu não quero tudo.
Eu quero o que vem limpo.
O que vem com a mão de Deus — e não com a mão de um traidor.
Porque aprendi com a Bíblia a esperar o tempo de Deus.
Aprendi com Shakespeare que até reis morrem pelas mãos dos que beijam seus anéis.
Aprendi com a vida que bênção fora de hora é armadilha disfarçada.
Então, Pai...
Se for plano Teu, confirma.
Se for cilada, confunde.
Se for bênção, aproxima.
Se for engano, afasta.
E se for pra me derrubar... que seja só de joelhos, na Tua presença.
Que nenhum homem, por mais poderoso que pareça, ouse disputar com Teu propósito em mim. Porque quem se levantar contra mim, estará se levantando contra Aquele que me levantou do chão.
E nisso eu descanso. Porque quem anda com Deus... não precisa correr atrás de nada. O que é Dele, me alcança.
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Purificação
Sentir o silêncio significa ouvir um pranto sentido, mas não derramado, de um escritor que foi morto pelas palavras falseadas.
O levar dos minutos arrasta a realidade e ao atravessar o silêncio de uma ponte de névoa eu me transformei em neblina.
O vazio diz para a esperança desistir porque nada tem sentido. A esperança afirma que ela é palavra e concreto, indestrutível e incorruptível.
Vida e morte se encontram no mesmo instante e o que é eterno morre e renasce no mesmo insight das palavras não ditas, mas sonhadas.
Existidor – mistura de existir e dor.
Exemplo: Ela existidou até o último instante.
A alma é para o tempo assim como o corpo está para morte. A alma se esvai com o tempo, assim como o corpo se esvai para a morte.
Um estado pusilânime se apossou dos convidados em coro lastimável entremeado de dor e silêncio.
No seu quarto silencioso a dor apareceu como um fantasma e ela em meio à sua solidão desértica derramou seu pranto fúnebre.
Daria voz à melancoalegria, mistura de melancolia e alegria. Seria uma alegria triste, como o sorriso da Mona Lisa.
Ser humano é dançar com as estrelas no espaço cósmico.
Rua 22
Quero olhar pra cima, mas não dá.
Quero cantar, mas ele me obriga a me ajoelhar.
Já é 9 horas e eu, perdido nessa rua,
Não sei o que eu fiz, meu amigo, me perdoa.
Passei a noite toda no boteco do seu Odilo,
Já não reparei as cores — parece que saí de um hospício.
Já faz tempo que ando nessa rua que eu me criei,
A rua tem 22 becos, e 22 anos sou eu.
Já vejo a lua tão grande no céu,
E, ao mesmo tempo, vejo o sol...
Parece carnaval, na Bahia.
Vejo as portas das casas arrombadas,
Vejo imensos dias que passaram rápidos.
Vejo a Bíblia sagrada.
Peço a Deus que me perdoe,
Que me expulse e me abençoe,
Pra poder trilhar sozinho essa caminhada.
E, nessa estrada, eu quero perceber
Que, nessa rua escura do dia,
Não quero ter noite — ousadia.
Ousaria temer?
Mas, toda vez que eu choro, eu me lembro
Que, quanto mais choro, mais eu me lamento.
Pra perceber, meu amor, pervertida, hora válida,
Vem sem merecer.
A pessoa vai se acostumando a sempre estar em guerra e não percebe que está atropelando tudo a sua frente, no final a solidão é a companheira amarga e por vezes cobra às escolhas impeçadas.
Nessa disputa em ser o melhor, não há tempo para se conhecer e muito menos espaço para conhecer outra pessoa.
Conhecer a si mesmo é o passo mais importante que uma pessoa pode dar na vida e não é uma decisão fácil de ser tomada.
Islene souza
Na verdade, viver como Amélie não é fugir da realidade;
É resistir a ela com beleza.
É dizer, com o coração em carne viva:
“–eu não vou deixar de ver beleza, mesmo que ninguém mais veja”.
Ecos do Atraso
A estrada não tem piedade de quem tenta recuperar, em minutos, o tempo que se perdeu no espelho da vaidade.
A pressa nasce do tempo mal planejado, o perigo cresce no pé acelerado.
Quem vive correndo contra os ponteiros, faz do tempo seu oponente,
do volante, arma potente, e da pressa, tragédia iminente.
Mas o imprevisto — esse que todos culpam — só vira rotina onde falta disciplina.
Porque sair com tempo é sabedoria,
e estar vivo é sempre mais urgente
do que chegar na hora.
Não é no volante que se compensa o relógio. A velocidade no asfalto é convite ao velório.
Cabra Sem Frescura
Sou da terra do sol quente,
Onde o povo é valente,
Aqui não tem paciência
Pra frescura de mais gente.
Se vier com lero-lero,
Já dou logo um "vá-se embora!"
Comigo é tudo na raça,
Sem mimimi, sem demora!
Se tropeçar, eu dou risada,
Depois ajudo, é claro,
Mas drama só presta em novela,
No meu terreiro é raro.
Sou do tipo desenrolado,
Não dou volta, não enrolo,
Falo mesmo na lata,
Se gostou, dê logo um colo!
Tem gente que vive de chiado,
De cara feia e fofoca,
Mas eu vivo é de risada,
De cuscuz, forró e tapioca.
Não sou de fazer arrodeio,
Sou direto igual rojão,
E se quiser paz comigo,
Deixe a frescura no chão!
Não Vim Ser Juíza
Quem sou eu pra ditar os rumos,
pra traçar limites no chão?
Mas quem sou eu pra calar meu peito
diante do peso da contradição?
Não nasci pra medir o certo,
nem pra impor definição.
Mas carrego no olhar atento
verdades que gritam em mim, com razão.
Não aponto dedos ao vento,
mas também não abaixo a cabeça.
Porque ser justa não é ser cega,
e sentir não é fraqueza.
Sou feita de pulso e escolha,
de silêncio e opinião.
Se erro, aprendo com firmeza.
Se acerto, sigo com convicção.
Não vim ser juíza do mundo,
mas também não fujo da cena.
Entre extremos e incertezas,
sou quem pensa. Sou quem se empenha.
Quando a alma se recolhe em silêncio absoluto, o tempo fica suspenso no ar. Ele não se move, nem para frente, nem para trás. Fica inerte, pois é a alma que dá vida ao tempo. Bailam ensinando ritmo à vida.
Nos zoológicos animais aprisionados sobrevivem sem alegria. Cercados, mudados, são privados de sua vida natural. É um espetáculo lúgubre para pessoas sem consciência que admiram a tortura lenta e arrastada de seres que, com vida, já não vivem.
Ela se vestia de ausências para não ser tocada. Ela se exímia de significado para que mãos intrusas não a violassem. Ela era feita para ser apreciada, tocada apenas por olhos sensíveis.
Lembrar é trazer para o presente uma pintura renascentista. Ressuscitar é pintar a própria renascença, novamente com força original. Lembrar é uma forma vulgar de retomar imagens. Ressuscitar é recriar a realidade extinta com as cores da simbologia.
Esperançar é a mistura de esperança e esperar. Não é um neologismo estático, passivo, pois a esperança aponta para a urgência, para a solução. Esperançar é esperar no agora, no momento oportuno, em que cada palavra encontra a sua ressonância.
Uma ponte feita de palavras não ditas é o mesmo que uma ponte feita de sussurros. As palavras não ditas vibram e transportam o significado de uma parte a outra. Pontes são sempre ligação entre o afirmado respondendo o não dito.
Todo finito contém o infinito. O infinito grandioso, imponente, materializa-se no finito. A linguagem é infinita e se recria a cada instante, já a palavra é finita, mas carrega em sua essência o infinito. O universo é infinito, mas o ser humano é finito. Dentro do ser humano cabem todas as estrelas e o universo. Há uma dialética entre o infinito e o finito.
Há um relógio que marca as horas do coração. Quando ele para o coração sente algo como a indiferença, e tanto faz viver quanto morrer, no coração inerte nada pulsa. Apenas os sentimentos podem consertar esse relógio, seja a compaixão, o amor, a amizade. Os dois em sincronia marcam o pulsar da vida.
Há uma constelação que simboliza a mente de alguém que pensa demais. Chama-se Além Mundo. É uma constelação que sempre se alimenta de pensamentos e questionamentos. É para lá que vão as almas cansadas da vida terrena.
Há uma dança entre o que se sente e o que se pode dizer. Tudo pode ser dito, mas tudo convém. O que queremos dizer mora em pedaço do cérebro que morre de inanição das palavras não ditas. Quantas palavras de amor eu falaria se houvesse eco em ouvidos sensíveis, mas elas se encontram caladas, encarceradas em nossos sonhos não permitidos.
Nao sei se ela era Alice, no seu País dos sonhos,
Se era Amelíe, a procura de um destino fabuloso,
Talvez um Girassol nascido no asfalto, da safra dos poetas do quintal de Van Gogh;
–Talvez fosse um pouco de cada coisa que amava. Sobretudo, uma arte, de um artista maior.
"Pro amor
Vou prá onde for
Prá amar
Vou prá qualquer lugar
Pro amor não existe distância
Nem complicação
Pois dá a importância
Prá fazer feliz o coração."
O mundo é feito daquilo que vemos e daquilo que nossa visão não alcança. O reino do invisível paira no ar como uma entidade. Em momentos de sonho ou transcendência podemos vislumbrar um átomo de sua existência, mas não podemos manipular o invisível com as mãos. O invisível é o que é: invisível. E possuem raízes nas palavras impronunciaveis, na gramatica aleatória do infindável. Está lá no invisível tudo que você quis dizer e calou. O invisível é o silêncio do não dito, perdido para sempre na vontade calada. Mora no reino do invisível aquela dor impronunciavel, que afogou dentro de nós. Mora aquele amor inalcansavel, aquela saudade que rasga o peito, mas se apresenta contida, como se fosse muito bem educada. Moram no Reino do invisível nossas loucuras mais esdrúxulas, explosivas, mas que se apresentam como um manso cordeirinho. Nunca chegava ao fim essa lista, mas é nas raízes do invisível que transformamos toda nossa subversão em conformidade. No mundo real eu sou um gatinho. No Reino do invisível eu sou uma pantera. Tantas coisas falaria desse Reino e de mim. Mas por basta, no Reino do invisível eu grito e canto. Mas no Reino do agora eu sou apenas uma pacata cidadã.
O termo “descanse em paz” usado muitas vezes após a morte de alguém, não muda o destino de alguém que não viveu pelos princípios bíblicos!
Não importa o quanto você faça, sempre haverá um 'mais' a ser feito, um lembrete constante de que o suficiente nunca é suficiente, entenda bem isso.
