Nao Gosto do que Vejo
Ando apaixonado
Não pela vida
Pois essa foi sempre traiçoeira
Não pela noite
Que me deixa só toda manhã
Também não amo a poesia
Pois esta é feita
de pensamentos, palavras
e lembranças
nas quais pouco eu penso
Eu ando apaixonado
Pelo som do silêncio
Silêncio no qual vivo agora
Que ignora a voz do vento astuto
Atento ao coração
Pois hoje
Quando ele chora, eu escuto
No silêncio das coisas que ora penso
Mando embora toda e qualquer tristeza
Mas quando a tristeza vem
Ela também chega em silêncio
Me abraça, enquanto acordado
Explica e justifica
O sentido dessa vida
Nós dois nos viramos de lado
Abraçados, não dormimos
Dormitamos
Sem ouvir qualquer ruído.
Edson Ricardo Paiva
Não sei nada
Sobre a vida
Ou sobrevida
Sobrevivo
Sobre o trigo
Sob a sombra
Sobra escombros
Sobre os ombros
Chão
Escuridão
Pão
Perdido
Sobra
Outro pedido
Sempre
Desatendido
Vida
Sobre ela
Sei
Que acaba.
Edson Ricardo Paiva
Janela
Paisagem distante
Tem coisas que não dá
Pra enxergar ou definir
Espaço e tempo
Prenúncio de tempestade
Um buraco no Céu
O Sol ainda arde
Mas agora é tarde
Difícil
Segundo a segundo
O dia escurece
Não se pode dizer
Quando a chuva cai
Mas é fácil dizer que ela vem
Janela aberta
Paisagem distante
Nada ou ninguém
Calado
Penso no passado
Tem dias que tudo passou
Eu murmuro uma oração
Ela há de ecoar pra sempre
A janela se fecha
Deserto por dentro e por fora
Agora só me resta uma certeza
Fechou-se a janela certa
A tarde parecia tão morna
Noite morta
Esquecida eternamente
Essa sensação parece boa
Somente a oração
Que no silêncio ecoa.
Edson Ricardo Paiva.
Impossível dizer
Se foi difícil chegar até aqui
Eu fiz tudo do jeito que era preciso
Até não precisarem mais de mim
Então, de repente
Eu olhei e me vi
Percebi um pássaro sem nome
Cantando uma canção antiga
Um cântaro sem água
Uma toalha de mesa
Desenhada de morangos
Uma longa estrada, que ficou pra trás
Meus passos apagados pelo vento
A cada novo passo
Um telhado, uma casa, um passado
O pássaro bateu as asas
Levando consigo
Aquela bela canção
Tão estranha, tão antiga
Não há tarde, não há festa, não há dança
Um desnível na calçada
Uma queda por distração
Impossível dizer
Se foi difícil chegar aqui
Também não há quem ouvir
Além do som da leve brisa
Entrando pelas frestas do telhado
Melhor deixar de lado
Não precisa.
Edson Ricardo Paiva
Eu sob a nuvem
A nuvem sob o Sol
E o Sol, num Céu que não tem fim
Mas, se existisse mesmo a infinitude
Qual seria a razão
Dessas simples existências
Eu, a nuvem, Sol e Céu
Juntos, nesse mágico momento
Que há de ser mais um, entre muitos
Qual de nós tem mais motivo
Pra estar vivo
Amanhã ou depois?
Pode ser que nenhum
Ou um
Talvez dois
Pequeno pedaço de espaço
Curto traço sem chão
Nem feio e nem bonito
Estranhamente finito
Perante tamanha amplidão.
Edson Ricardo Paiva.
Eu tento uma coisa nova
Invento chamar a chuva
Reclamo quando não chove
E quando chove, também
Eu faço do mesmo jeito
Não me lembro de como ele era
Saio à chuva, depois que ela pára
Reclamo enquanto não chove
Eu tento chamar a chuva
E chove
Eu tenho um jeito novo
Pra fazer as velhas mesmas coisas
Meu melhor modo
É deixar tudo de lado
Da mesma maneira
Um velho pássaro vem
Pousa em meu telhado e morre
Já passou-se a vida inteira.
Edson Ricardo Paiva.
O maior desafio da vida
É vivê-la, sendo a quem nós somos
Na maior parte do tempo
Não somos quem pensamos ser
Nem aqueles a quem
Enxergamos em nós
Como sendo a nós mesmos
Mudanças acontecem
Baseadas no primeiro pensamento
Que lhe vem pela manhã
O mundo muda num momento
Pra depois a gente ver, ou não
Que tudo ainda é do jeito que era
Sem nunca mais poder ser de novo
Do jeito que um dia foi
Pensamentos são como folhas que vem e vão
Procure olhar pra si mesmo
Com a mesma isenção de quem o vê
De longe e pelo lado de fora
Perceberá
Nossas ideias e pensamentos
Não são quem nós somos
Mas podem e mudam a vida
Sejam eles bons ou ruins
Conduzem decisões
Fazem escolhas importantes
Tudo muda
Mas você ainda
É o mesmo de antes
Mas não tem como voltar a ser quem era
Não pense ser a parede
Nem veja a si mesmo
Como sendo a mancha na pintura,
A pesca generosa
E nem o buraco na rede
Alegria, euforia, melancolia, tristeza
Um pouco de cada coisa
Do brilho do ouro à leveza do pó
Para o qual fatalmente se volta
Mas, enquanto isso
Pense nisso
Conheça-se e ame-se
Pra poder ser um milhão
Sendo sempre uma pessoa só.
Edson Ricardo Paiva.
O mundo parece ser o mesmo
Creio parecer, não há certeza
A passagem das horas engana
Em sua constante movimentação
Cuja direção não se altera e nem varia
Dia-a-dia sempre em frente
Às vezes o tempo passa
Da mesma maneira
Que se espera que aconteça
Mas tem horas que o tempo dá saltos
Há magia na luz que toca o chão
Desvia a atenção, engana
O mundo sempre muda um pouco
Em momentos assim
Quando a gente não percebe
Mas a gente muda tanto
Nesse lento dia-a-dia
Que chega a pensá-lo eterno
Muitas vezes você pensa
Em ir ao mar, para olhar
Poucas vezes se imagina
Conhecendo o mar inteiro
Pois, enquanto girarem ponteiros
E enquanto existir a incerteza
Haverá sentido e direção
No tempo, na vida
E nessa ausência de definição concreta
O mundo é repleto de impressões
Como o vento que toca o teu rosto
E prossegue em seu caminho
Pra um lugar qualquer
Você sabe que o caminho existe
Mas a graça dessa vida
É a gente nem sempre saber qual é.
Edson Ricardo Paiva
Dizem
Que muita coisa na vida
Não vale a pena
Quando eu ouço isto
Penso nas coisas que conheço
No preço que custou-me a vida
Eu olho pra mim e pras roupas que visto
Penso em cada manhã
Que acordei muito cedo
No jeito que fui tratado
E em cada trabalho bem feito
E até hoje
Ainda não me pagaram direito
E nem sequer agradeceram
Pois conheço a fundo
A solidão e ingratidão
Com que este mundo nos paga
Penso no quanto
Eu aprendi com tudo que passei
Enxergando que cada ser vivente
Possui uma lista de coisas
Pelas quais somente ele há de passar
Pra aprender o valor
Desta vida e do seu viver
Mas somente uma pouca parcela
Descobre que essa história louca
Compensa
E no fim
Dizer o quanto ela foi bela
Pois, por mais que se escreva essa história
No final descobre
Que fizemos apenas parte
Uma pequena parte dela
Mas que viver
Valeu a pena.
Edson Ricardo Paiva
De tanto querer
Que o tempo não passasse
Sem querer o vi passar
E tem horas que parece
Que só vi
Porém, sem vê-lo
Penso uma imensa lista
De coisas que queria ter feito
E que fiz
Mas vejo que fiz de outro jeito
Senão não cabia a mim
Esse vasto cabedal de desamor
Eu acho que só se desama
Porque na vida que se vive de verdade
Quando alguém encontra o amor
Pensa, infeliz, que só amor não basta
Difícil dizer
Os nomes dessas coisas tristes
Cidade onde nunca fui
Lugar que só existe em mim
Que no fim compõem as horas
Conjunto de longas horas
Que na falta de quaisquer outras
Insisto em chamar de vida.
Edson Ricardo Paiva.
Transformar
Não não se resume
A mudar a forma
Nem tampouco o conteúdo
Transformação muda tudo
Desnuda a alma
Que se lava na chuva
E depois se purifica
À luz do Sol
Mesmo assim
Permanece o mesmo
Após imutado
Quem o olha
Sem molhar-se nessa tempestade
Diz que parece inalterado
Desconhece a verdade invisível
Realidade, onde nada existe
Transformar é perceber
Que tudo que tem uma forma
Simplesmente a tem
Por seguir as normas
Das mentes que não enxergam
Translúcido e nem transparente
Vendo a reles realidade
Das verdades aparentes
Aos olhos de quem
Tem olhos
Que nada vêem.
Edson Ricardo Paiva.
Eu não sei que outro nome se dá
Pra'quela coisa que tem um nome
Mas que cuja pronúncia
Me causa uma coisa ruim
E que eu não sei dizer que nome tem
Eu queria saber explicar
Que espécie de dor é esta
Um desconforto que cresce
E ao mesmo tempo
Me transporta, me deixa absorto
Dói em tudo quanto é lugar
Mas não sei te dizer onde dói
É algum tipo de chama
Fria e gelada
De olhar o Céu muito azul
E só ver nuvens de tempestade
É ver a idade avançar antes do tempo
Com tudo de ruim que o tempo faz
E depois do tempo, o nada
Uma pressa que termine o dia
Mesmo sabendo que amanhã
Essa dor que me acompanha vai voltar
Uma dor de tristeza que não passa
E que não pensa em me deixar
Creio
Que se realmente existe uma alma
Essa dor tá doendo é lá.
Edson Ricardo Paiva.
Lugares.
Muito além dos lugares felizes
Cujos dias não se conta
Presentes nos melhores sonhos
Aquele, que é, quando a pele da gente
Arrepia, de pensar sonhar
Quando eu digo que se encontra além
Quis dizer; que você pode percorrer o mundo
Pode esquadrinhar os céus de ponta a ponta
Mas eu digo que talvez ele não seja assim, muito acessível
E, quiça, somente a gente o possa ver de olhos fechados
Descobrir que esteve sempre perto, ao lado
Reservado às almas que aprenderem, leves
A enxergar uma reserva enorme de universos
Presentes dentro de nós mesmos
O caminho pra encontrar essa leveza
É luz, a mesma luz que a escuridão da alma, oculta.
Edson Ricardo Paiva
Prece sem Razão
Não sou o dono de qualquer verdade
Nem senhor jamais eu fui
De nenhuma vontade, além das minhas
Eu não tenho aquele olhar que exclui
Não é minha a voz que manda
Tenho os sentidos que ouvem
E olhares que veem
Não faço parte do grupo que tinha ou que tem
Enfim
Sei que fica tudo sempre tudo bem
Porque as coisas são assim
Se olhar direito e prestar atenção
A voz da ilusão não combina com ela
Fica sempre aos mais atentos
A velha impressão que essa voz não vem dela
Uma das duas é bela, outra não
Não sou dono de qualquer verdade ou senhor da razão
Sigo a voz dos ventos sussurrando em meus ouvidos
Fecho os olhos pra enxergar sentido
Porque sei que as coisas são assim
E que, apesar de tudo
Tudo fica sempre tudo bem
Porque é assim que as coisas são
Razão, verdade, ilusão ou sentido
Antes, nunca tinha me sentido assim
Até que um dia percebi
Que a voz da ilusão
Junta gente em multidão e grita em frente à praça
Enquanto a voz dos ventos me procura
Quando estou na mais completa solidão
Na hora escura da vida
Numa prece humlide, na beleza mais bonita da verdade
Na simplicidade da oração
E cura a dor sentida, num sorriso de alegria
Carrega a tristeza que eu tinha
E tudo fica sempre tudo bem
Porque não sou dono da vontade de ninguém
Além das minhas
Sinto-me em paz
Me encontro em mim
E fica tudo sempre tudo bem
Sem qualquer necessidade de que exista uma razão.
Edson Ricardo Paiva.
"Voando de cara para o vento a vida inteira não se ocupa em pensar se a vida ela é boa ou não é a vida é só vou voar é momento que se vive à toa"
Edson Ricardo Paiva
A vida é uma lista
de coisas que nós não fizemos
relembre o que fez
E verá que deixou de fazer
Um tanto assim de coisas boas
E seu coração
Ainda guarda um lugar vago
Um lago sem vida
Cercado de esperanças perdidas
A saudade é uma cobra que voa
Pouca coisa sobra
Além daquilo que não fez
desde que elegeste a lista
das coisas importantes
Que hoje não parecem
Nem de perto
As mesmas de antes
Algo soa dissonante
A vida é um barbante esticado
No qual penduramos lembranças
Algumas doídas
Outras mansas
E algumas malsãs
A saudade é uma irmã
Furtada de nós, quando criança
A vida é uma dança
Que nós não sabemos dançar
A esperança
é um pote de ouro escondido
que você nunca vai saber
onde ele está
Por mais que procure
Por mais tempo que dure
esta busca infinda
Mas mesmo assim, no final
Verá que acabou de escrever
Uma história linda
num livro que não tivemos
tempo de lêr
Estávamos ocupados
em viver
Eu não compreendo o que se passa
Quando percebo
que pequenas coisas que me emocionam
Para a imensa maioria
Não tem e nunca terão
A mínima importância
A chuva durante uma tarde de verão
A nova versão de uma canção antiga
Uma pequena vitória
de qualquer pessoa amiga
O mendigo que sorri para você
Agradecendo a graça dividida
A tristeza inexplicável que eu sinto
Quando termino de ler um bom livro
A insustentável sensação
de ser e não ser livre
A vontade de saber voar
Contrastando com o medo de altura
A doçura do sorriso
daquela pessoa desconhecida
Que posou despercebida
Numa foto antiga da família
A saudade de amigos ausentes
O gosto de pitanga
Que a memória gustativa
Traz à boca
Eu posso sentí-las nos dentes
As plantinhas que nasciam
Nos cantos dos jardins
Nas escolas da minha infância
Incríveis coisas invisíveis
Que enxergava e ainda enxergo
Não é possível que os demais
estejam cegos
Não tenho medo da morte
Nunca tive
Meu medo era viver
Esta vida
Na qual não se vive
Nunca tive medo de tempestade
Tenho medo deste Sol que arde
Não Existe apenas a chuva
O problema é a palavra
Que me vem e tanto machuca
São lembranças
Piores que a morte
Que fizeram estes cortes
Sem cura
Não tenho medo do escuro
Meu receio é a claridade
Ela invade a vida
E me impede de esconder
Ou de esquecer
A dor
de ver tanta vida
assim
Perdida
Estrela
Linda estrelinha
Que brilha no firmamento
Te peço, por favor, não vá
Nem apague ilusão tão pura
Que trago em mim nesta hora
por favor, não vá embora
Te rogo que permaneça
Porém, se estás decidida
A outras coisas ver em vida
Que vá
Não há de me ver chorar
Mas, antes de partir, te digo
Que hoje, para mim
Não há brilho que te ofusque
Não há saudade que sempre dure
Portanto
Se tens que partir, pois que vá
busque...procure
Durante algum tempo
Não haverá dia em que eu me deite
Sem antes olhar para o Céu
Toda noite
Vai buscar teu horizonte
Seja feliz, vá
Mas não espere me encontrar aqui
Quando voltar
Depois que descobrires
Que não há no Universo
Amor Igual ao meu
Que tanto a ti se dedique
Me deixe aqui na tristeza e vá
Porém, se não há certeza
Então
Te suplico que fique
Quando a gente descobre aquilo que queria, muita vezes nem percebe, até que se lembra que não se importa mais com aquilo que os outros pensam.
