Não Existe uma Pessoa Certa
“Viver é um mistério. Não existe infortúnio nem infelicidade. Cada um transforma o pior dos escuros, num lindo amanhecer de boas realizações.”
O que existe do outro lado da vida?
O que acontece quando atravessamos a última fronteira e encontramos a Deusa da Luz Imaginária? Será que ela nos recebe como quem reconhece uma alma antiga? Será que, depois do silêncio, existe uma luz capaz de explicar tudo aquilo que aqui permaneceu sem resposta?
Ninguém sabe, com certeza, o que existe depois da morte. Talvez haja um lugar. Talvez uma nova forma de existir. Talvez sejamos acolhidos por uma luz que não fere os olhos, mas acalma o coração. Talvez a morte não seja o fim, mas uma passagem para um mistério maior do que a nossa compreensão.
E eu me pergunto: haverá, do outro lado, aqueles que amamos?
Será que, quando chegar a minha hora, encontrarei novamente os rostos que a vida levou? Será que poderei abraçar quem hoje só consigo tocar pela memória? Será que a voz que se calou voltará a chamar meu nome? Ou será que o amor, de algum modo que ainda não entendemos, nunca deixou de existir?
Porque a morte é um mistério, mas a saudade é uma certeza.
Ela chega sem pedir licença. Às vezes, se esconde em uma música, em um cheiro, em uma fotografia, em um lugar vazio à mesa. Às vezes, aparece de repente e aperta o peito, como se o coração tentasse alcançar alguém que já não pode ser alcançado pelas mãos.
Talvez a saudade doa tanto porque o amor não aceita desaparecer. Talvez ela seja a prova de que algumas presenças continuam vivendo dentro de nós, mesmo quando já não caminham ao nosso lado. E talvez amar alguém seja aprender a carregá-lo para além do tempo, para além da ausência e, quem sabe, para além da própria morte.
Eu queria ter a certeza de que existe algo lindo depois daqui. Queria saber que, quando a minha caminhada terminar, não encontrarei apenas o vazio, mas uma luz. Queria acreditar que haverá reencontros, abraços interrompidos que finalmente se completarão e lágrimas que, um dia, serão transformadas em paz.
Talvez não possamos provar que existe um outro lado. Mas também não podemos provar que o amor termina quando o corpo se despede.
Então, enquanto a resposta permanece escondida no mistério, escolho guardar uma esperança: a de que ninguém que amamos desaparece por inteiro. Que, de alguma forma, aqueles que partiram continuam em nós — nas lembranças, nos gestos que herdamos, nas palavras que ainda ouvimos em silêncio e no amor que permanece, mesmo diante da ausência.
E talvez, quando eu encontrar a Deusa da Luz Imaginária, ela não me entregue todas as respostas. Talvez apenas sorria, abra os braços e me mostre que o amor nunca esteve perdido.
Talvez, do outro lado da vida, eu encontre novamente quem amo.
E talvez a saudade, finalmente, se transforme em reencontro.
Existe uma beleza cruel na decepção.
Ela chega sem ser convidada, quebra os móveis da esperança, rasga os retratos que insistíamos em chamar de futuro e, por alguns dias, nos convence de que nada além da dor permanecerá de pé. Mas a decepção nunca veio para destruir; ela veio para devolver.
Antes dela, chamávamos de amor aquilo que muitas vezes era apego. Não à pessoa, mas à promessa. Não ao que existia, mas ao que imaginávamos existir depois de tempo suficiente.
É curioso como insistimos em regar jardins onde as flores já decidiram morrer. Dizemos que é persistência, maturidade, lealdade. Às vezes é apenas medo. Medo de admitir que o castelo em que depositamos tantas horas nunca passou de um andaime.
Então a decepção faz aquilo que o afeto não teve coragem de fazer: arranca nossas mãos do que já não nos pertence.
Ela nos obriga a olhar para o outro sem o filtro da saudade antecipada, sem a maquiagem das expectativas. Pela primeira vez, enxergamos pessoas como elas são, e não como precisaríamos que fossem para justificar nossa permanência.
Há uma violência quase divina nisso.
Porque dói descobrir que não perdemos alguém; perdemos a fantasia que construímos ao redor dessa pessoa.
E fantasias morrem gritando.
A decepção tem a elegância dos carrascos antigos. Não ergue a voz, não pede licença, não explica seus métodos. Apenas corta, com precisão suficiente para separar quem somos daquilo em que insistíamos em nos prender.
Depois, resta um silêncio.
No início, ele parece abandono.
Mais tarde, entendemos que era liberdade.
A verdade é que nossos maiores cárceres raramente têm grades. São feitos de expectativas, de lembranças editadas, de versões idealizadas de pessoas comuns. Passamos anos chamando isso de destino, quando era apenas apego usando roupas bonitas.
Por isso, hoje desconfio dos finais que chegam sem decepção.
São os desapontamentos que arrancam de nós as últimas ilusões. Eles devolvem a lucidez que o encantamento havia roubado.
Que privilégio descobrir, ainda em vida, que aquilo que julgávamos indispensável era apenas um hábito emocional.
Há perdas que diminuem um homem.
Mas há decepções que o devolvem a si mesmo.
E talvez seja essa a mais silenciosa das libertações: perceber que a dor nunca veio para nos ensinar a viver sem alguém. Ela veio para nos ensinar a viver sem a necessidade de transformar qualquer pessoa no centro da nossa existência.
Como é bela a decepção.
Porque toda corrente, antes de ser rompida, faz barulho.
Depois, resta apenas o som discreto da liberdade.
há dias em que eu me convenço de que existe uma conta aberta em meu nome. uma dívida antiga que eu nunca lembro de ter feito, mas que a vida faz questão de cobrar todos os dias.
talvez eu mereça. talvez cada ruína tenha sido construída pelas minhas próprias mãos. eu sempre encontro um jeito de tocar no que amo com tanta força que, sem perceber, também encontro um jeito de quebrar. construo casas para depois assistir ao teto desabar sobre mim. e o pior é que, mesmo conhecendo o roteiro, eu continuo acreditando que dessa vez será diferente.
já tentei me absolver. sentei diante dos meus erros como quem visita um velho amigo, esperando ouvir que tudo ficou para trás. mas eles nunca respondem. apenas me olham em silêncio, como espelhos que insistem em refletir a pior versão de mim.
o que mais me machuca não é perder. é nunca entender a lição. se toda dor existe para ensinar alguma coisa, então por que eu continuo repetindo o mesmo capítulo? quantas tempestades ainda faltam para que o mar finalmente aceite que eu já aprendi a afundar?
carrego um oceano de raiva que nunca encontra a praia. e uma tristeza tão antiga que às vezes parece ter nascido antes de mim. ambas dividem o mesmo peito, disputando espaço com um coração que ainda insiste em acreditar nas pessoas, mesmo depois de colecionar ausências.
eu não queria milagres. nunca quis promessas impossíveis. só queria experimentar, por um instante, a estranha sensação de receber na mesma intensidade em que entrego. descobrir como é estender a mão e encontrar outra vindo na direção contrária, em vez de mais um adeus.
mas existe uma crueldade silenciosa em continuar remando quando a maré parece ter escolhido o lado oposto. você se esforça, sangra as mãos nos remos, perde o fôlego, e ainda assim termina exatamente onde começou. às vezes até mais distante da margem.
e talvez seja isso que mais destrói o gabrieu: não o peso das derrotas, mas a dúvida de não saber se está lutando contra o mundo… ou contra si mesmo.
assassinato do auto ego
Existe um momento estranho em que o ego começa a perder a voz.
Não é uma morte completa, mas uma espécie de silêncio. Como se todas as certezas que eu carregava fossem uma casa construída com paredes de vidro, e bastasse uma queda forte o suficiente para perceber que, na verdade, eu nunca estive tão protegido quanto imaginava.
Talvez seja necessário chegar em algum tipo de fundo para enxergar.
Porque enquanto estamos no alto, tudo parece absoluto. Nossas dores parecem eternas, nossos desejos parecem indispensáveis, nossas versões parecem definitivas. A gente acredita que aquilo que sente naquele instante é a verdade final sobre quem somos.
Mas quando tudo desmorona, quando o personagem perde a fantasia, começa uma visão diferente.
Você começa a enxergar as próprias versões que já morreram dentro de você.
A pessoa que você era antes de certas dores. A pessoa que você tentou ser para ser aceito. A pessoa que você fingiu ser para não demonstrar fraqueza. A pessoa que você criou na sua cabeça e passou anos tentando alcançar.
E então vem a parte mais estranha:
perceber que nenhuma delas era realmente você.
E talvez nenhuma delas fosse falsa também.
Eram apenas momentos.
Porque no fim, tudo parece ter essa natureza passageira que a gente tenta ignorar. O sentimento que ontem parecia impossível de superar, um dia vira uma lembrança distante. A certeza que parecia inabalável, um dia parece uma ideia de outra pessoa. As coisas que jurávamos que definiriam nossa vida acabam sendo apenas capítulos pequenos em uma história que continua mudando.
A gente passa tanto tempo tentando encontrar significado em tudo, como se existisse uma explicação escondida esperando ser descoberta.
Mas talvez o universo nunca tenha prometido sentido.
Talvez nós sejamos seres tentando organizar o caos, criando narrativas para suportar a passagem do tempo.
Chamamos de destino aquilo que aconteceu.
Chamamos de aprendizado aquilo que conseguimos aceitar.
Chamamos de personalidade aquilo que são apenas padrões repetidos até parecerem permanentes.
E quando o ego fica despido, quando não existe mais a necessidade de parecer certo, forte ou invencível, sobra uma percepção quase assustadora:
nós somos muito menos fixos do que imaginamos.
Somos feitos de fases, encontros, perdas, memórias e versões que vão surgindo e desaparecendo conforme atravessamos a vida.
Talvez o fundo do poço não seja apenas um lugar de destruição.
Talvez seja o único lugar onde a gente consegue olhar para cima sem mentir sobre a altura que caiu.
Porque lá embaixo não existe mais personagem.
Não existe imagem para sustentar.
Não existe plateia.
Existe apenas você, diante de tudo aquilo que tentou esconder, percebendo que talvez a maior ilusão nunca tenha sido o mundo lá fora.
Talvez tenha sido a ideia de que algum dia nós realmente fomos uma coisa só.
silver lining
Dizem que existe uma estrada no interior da Inglaterra onde os postes de iluminação foram instalados próximos demais uns dos outros. À noite, quando um carro atravessa aquele trecho em alta velocidade, as sombras passam pelo para-brisa como os quadros de um filme antigo. Luz. Escuro. Luz. Escuro. Rápido o suficiente para enganar os olhos, lento o bastante para deixar a imaginação terminar o que não viu.
Foi ali que um velho frentista começou a notar um carro preto passando todas as madrugadas exatamente no mesmo horário.
Nunca abastecia.
Nunca diminuía a velocidade.
Nunca parava.
Apenas cruzava a estrada, desaparecia na curva e voltava quarenta minutos depois, percorrendo o caminho inverso como se procurasse alguma coisa que insistia em escapar.
Na décima segunda noite, a curiosidade venceu.
Quando o carro finalmente encostou, o motorista desceu sem desligar o motor. Não parecia cansado. Parecia perseguido. Os olhos não olhavam para o posto, nem para o velho, nem para a estrada. Permaneciam presos ao retrovisor, como quem espera que alguém apareça a qualquer instante.
O frentista perguntou se havia algum problema.
O homem demorou para responder.
Depois sorriu de um jeito estranho.
“Você já passou tanto tempo procurando uma pessoa que começou a esquecer o rosto dela?”
O velho riu, acreditando que fosse uma piada.
Mas o motorista continuou.
“No começo você procura porque sente falta. Depois procura porque precisa de respostas. Depois porque acredita que ainda existe alguma coisa esperando para ser resolvida. E, quando percebe, já não está procurando a pessoa. Está tentando encontrar a versão de si mesmo que existia quando ela ainda ocupava aquele lugar.”
O posto ficou silencioso.
Só o som do motor preenchia o espaço entre os dois.
O frentista olhou para a estrada vazia e perguntou por que ele simplesmente não desistia.
O homem encarou o asfalto iluminado pelos faróis.
“Porque a dúvida é muito mais resistente do que a ausência.”
Naquela noite, depois que o carro desapareceu outra vez, o velho não conseguiu esquecer aquelas palavras.
Dias depois, passou a reparar melhor nas pessoas que apareciam para abastecer.
Havia casais que conversavam sem escutar um ao outro.
Gente que desbloqueava o celular a cada poucos segundos, esperando uma mensagem específica entre centenas de notificações inúteis.
Pessoas que juravam ter seguido em frente, mas ainda sabiam de cor o caminho até a casa de alguém que não viam havia anos.
Foi então que compreendeu uma coisa curiosa.
O amor raramente termina quando a presença acaba.
Ele termina quando a possibilidade morre.
Enquanto existir uma única fresta por onde a imaginação consiga escapar, a mente fará dela uma porta.
Porque ela odeia finais.
Prefere inventar universos inteiros sustentados por uma única pergunta sem resposta.
“Será que…”
É impressionante a força dessas duas palavras.
Elas transformam desconhecidos em fantasmas.
Silêncios em promessas.
Coincidências em destino.
Fazem alguém dirigir centenas de quilômetros por uma estrada onde sabe que não encontrará ninguém, apenas porque uma parte da consciência se recusa a aceitar que algumas histórias não acabam com uma explicação, mas com um eco.
Anos depois, fecharam o posto.
Construíram uma rodovia mais moderna alguns quilômetros adiante, e a velha estrada foi lentamente esquecida. A vegetação tomou conta do acostamento, os postes enferrujaram e o asfalto começou a rachar como uma fotografia antiga.
Ainda assim, em certas madrugadas, moradores da região juram ouvir um motor atravessando a escuridão.
Não dizem que veem o carro.
Dizem apenas que escutam.
Como se algumas buscas sobrevivessem ao próprio viajante.
Talvez porque existam perguntas que nunca quiseram uma resposta.
Elas apenas precisavam de alguém disposto a continuar dirigindo.
E talvez seja esse o truque mais cruel da mente humana: convencer alguém de que está perseguindo outra pessoa, quando, na verdade, passou a vida inteira correndo atrás da única coisa que jamais conseguiu possuir completamente.
A certeza.
Quando existe empenho, entrega e propósito, a resposta (muitas vezes) chega antes mesmo do que imaginávamos.
Com o tempo deixei de invejar os que são amados. Existe uma ingenuidade quase sagrada em acreditar que dois abismos podem salvar-se mutuamente. Eu conheço melhor a natureza humana. Sei que, por vezes, até o afecto é apenas uma forma mais delicada de abandono.
Assim como não existe vacina para arrependimento
não existe também nem um remédio para dor na consciência ou remorso por qualquer acontecimento ruim
que consequentemente devido a teimosia e falta de bom senso de alguns
possa vir a prejudicar ou condenar ao fim
o destino de muitos
E realmente o inferno existe sim...
Nas pessoas que inventam ou espalham mentiras, nas condutas racistas, preconceituosas, na alma de gente ruim.
AVISO
Não existe informação sobre qualquer instituição financeira no céu. Portanto, qualquer movimentação bancária deve ser feita em vida, antes de partir — caso você vá para lá, é claro.
O Peso Silencioso de ser o Porto Seguro de Todo Mundo
Existe um cansaço que o sono não cura.
É o esgotamento de quem passou a vida inteira sendo o esteio emocional dos outros, a pessoa que sempre tem a palavra certa, o abraço pronto e a disposição para salvar quem está caindo. Mas o que acontece quando quem cuida de todo mundo também precisa de cuidado?
Se você se identifica com isso, entenda uma coisa: esse esgotamento crônico geralmente é o seu corpo e a sua mente avisando que a conta não está fechando.
Ser o porto seguro de todo mundo o tempo todo cobra um preço muito alto, especialmente quando você olha ao redor na sua hora de tempestade e percebe que ninguém se importa em ser o seu. O afeto, o apoio e a atenção precisam ser uma via de mão dupla.
Quando vira contramão, a gente adoece.
Por isso, entenda que não há problema nenhum em dar um passo para trás.
Isso não é egoísmo, é sobrevivência.
Recuar não significa que você deixou de amar as pessoas, significa apenas que você escolheu guardar um pouco dessa sua dedicação, do seu tempo e do seu cuidado para você mesmo.
Até os esteios mais fortes precisam de manutenção. Se cure primeiro, se abasteça primeiro. Você não é obrigado a carregar o mundo nas costas quando o seu próprio chão está tremendo. Cuide de você.
"O inferno não é um lugar distante; ele existe aqui e agora. Habita na mente de quem espalha a mentira, na conduta de quem propaga o racismo e na alma escura de gente ruim.
"Existe uma obsessão humana em querer gerenciar aquilo que não lhe pertence. É a fiscalização da roupa, o palpite no comportamento, o peso do julgamento sobre a vida alheia. Que perda de tempo. O alheio é individual, imutável diante dos seus olhos e soberano na própria história. Deixe o outro ser outro. Quem gasta os dias tentando ditar o ritmo dos passos alheios acaba esquecendo como caminhar com as próprias pernas."
Existe um tipo de dor muito específico em perceber tarde demais que alguém te amou sinceramente… e que foi você quem cansou esse amor.
Quem vê apenas a ferrugem nunca compreenderá a coragem que existe em continuar de pé depois de tantos invernos
