Mudar de Cidade

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Parabéns, São Paulo altaneira,
Cidade-mãe de todos os povos,
Onde o mundo inteiro se encontra
E constrói seus próprios novos.


Paulista, artéria do tempo,
Beleza que pulsa e ensina;
Entre concreto e esperança,
Ali o futuro caminha.


Ibirapuera, verde abraço,
Respiro vivo da metrópole;
Exuberante, livre e eterno,
Santuário da alma paulistana.


Augusta, rua da diversidade,
Expressão plena da liberdade;
Bela em seus contrastes humanos,
Espelho fiel da pluralidade.


Ipiranga e São João, memórias,
Avenidas de história e paixão;
Ecos de um Brasil que cresce
No ritmo do próprio coração.


São Silvestre, passos centenários,
Corrida de fé e emoção;
Onde o mundo corre contigo
Pelas veias da mesma canção.


São Paulo, grandeza que inspira,
Orgulho eterno do Brasil;
Explode em amor esta cidade
Que nunca dorme — apenas sorri.

Na cidade onde o povo não cobra, o político se acomoda e nada avança.

Na esquina que a cidade não vê
Onde o negrume da noite reside,
Acende o letreiro: "É por você!"
Mas o brilho do ouro é quem decide.
​O pastor, de terno e voz aveludada,
No púlpito, a Bíblia aberta e o olhar sereno,
Condena a luxúria, a carne profanada,
Com o carro importado, o luxo obsceno.
​E o fiel, pobre e de alma tão sedenta,
Deposita a sobra, a última moeda,
Ouve que a benção só é opulenta
Se a fé for medida por nota na gaveta.
​A moral na boca é de pedra fria,
Julgando o vizinho que erra no passo,
Apontando o cisco com tamanha ousadia,
Enquanto esconde a trave sob o braço.
​Falam de Cristo, humilde e despojado,
Que andava na poeira, sem teto nem coroa,
Mas fazem do templo um trono dourado,
Onde a caridade é só uma loa.
​Alegam o amor que tudo perdoa,
Mas fecham a porta para o diferente,
Só aceitam quem reza, quem se ajoelha e entoa
A canção padronizada e conveniente.
​A hipocrisia veste a roupa santa,
É o dízimo da boca, mas não do coração.
A verdade é que a fé, por vezes, se levanta
Não em Deus, mas em pura ostentação

Por trás das janelas
Chove.
E a cidade parece a mesma para todos que passam apressados na rua, protegidos por guarda-chuvas e pensamentos que não se dizem em voz alta.
Mas basta olhar para cima.
Em cada janela acesa, há um mundo inteiro acontecendo.
Alguém corta legumes com cuidado.
Alguém se senta na cama, cansado demais para fazer qualquer coisa além de existir.
Alguém assiste televisão para não ouvir o próprio silêncio.
Alguém espera. Mesmo sem saber o quê.
Ninguém vê.
Ninguém imagina.
Compartilhamos o mesmo prédio, a mesma calçada molhada, o mesmo som da chuva —
mas não compartilhamos as mesmas dores, nem as mesmas alegrias.
A vida não é barulhenta como parece.
Ela acontece em gestos pequenos, repetidos, quase invisíveis.
E ainda assim, profundamente humanos.
Talvez seja isso que a chuva faça:
ela desacelera o mundo o suficiente para que a gente lembre
que todo mundo carrega uma história atrás de uma janela iluminada.
E que, no fim, estamos todos tentando a mesma coisa:
um pouco de abrigo.
Rosana Figueira

Metrópoles




Cidade formigante,


Céu alimentado por fumaça,


Arranha-céu rasgando a natureza,


Mentes sufocadas pelo caos,




Tempo encolhido,


Desejos espremidos,


Sonhos engolidos,


Os gritos da cidade assustam os pombos,




A cegueira da correria na cidade esconde os que mais precisam,

Os dias são férteis para uns, enquanto as noites são frenéticas para outros,


Entre sirenes e ônibus, elevadores e geradores, bares, baladas e shoppings, escolas e pátios de empresas a dança tem várias notas mas o ritmo é um só,


Ao olhar para a cúpula da igreja, lágrimas de desespero, um pedido de socorro e muitos apelos.

Na caminhada


O rio e o sol se pondo de um lado,
do outro lado a cidade e a lua cheia com todo sua beleza,
no meio a estrada, os caminhos a seguir, um horizonte a desbravar.

A cidade segue funcionando, as pessoas riem nos lugares errados, o tempo insiste em andar para frente.
Eu não acompanho.
Eu administro a falta. Em silêncio. Em turnos.
Não chamo de saudade porque saudade é doméstica demais para o que ficou.
Isso aqui é permanência forçada.
É carregar alguém mesmo quando a outra pessoa largou o peso.

Nascimento do poema.
Deixo a cidade e seu tumulto lá fora,
E o silêncio sussurra os versos,


As palavras dançam ao vento,
E o mundo some , se afasta,agora compondo parindo!!!
Só restam as emoções,
E o poema nasce, lentamente sem pressa. Leila Boás 13/12/2025

Aprendendo regular dopamina




Menina nascida na cidade do barulho, já com a vida cercada de muros.
Recebida não com colo, mas com sentença.
Chamaram-na excesso antes de ser presença.
Aprendeu cedo que amor, em certas casas, é moeda rara e grito frequente.


Cresceu calibrando o próprio pulso pelo humor de quem deveria cuidar e dar o exemplo,
lendo o clima como quem estuda tempestades para sobreviver.
Hiperalerta.
Hiperativa.
Hiperconsciente.


O sistema nervoso virou quartel.
O coração, radar.


Enquanto era chamada de vários nomes que podem ferir,
ela decifrava o mundo pela tela azul da madrugada,
internet discada como portal secreto,
ICQ piscando como farol de outro continente,
músicas baixadas em silêncio,
fitas gravadas como quem arquiva provas de que existe beleza.


Trancada, mas não pequena.
Sozinha, mas não vazia.


Ela estudava pessoas como quem estuda maré.
Observava. Comparava. Não engolia narrativas prontas.
Sua mente nunca coube em moldura doméstica.


Quando o portão abria,
virava oceano.
Skate no asfalto,
corrida na areia,
prancha rasgando a água,
dopamina como milagre bioquímico,
liberdade como direito ancestral.


O mar não gritava com ela.
O mar respondia.


Ali descobriu irmandade feminina,
descobriu biologia como idioma do planeta,
descobriu que justiça não é conceito e sim
instinto.


Desde criança defendia quem nem gostava,
porque desigualdade lhe doía na carne.
Onça quando preciso.
Silêncio quando estratégico.
Memória absoluta quando traída.


Ela não guarda ódio.
Ela arquiva.


Inteligente o bastante para liderar,
sensível o bastante para sentir antes de acontecer.
Sonhos lúcidos, pressentimentos,
um tipo de percepção que não cabe em manual clínico
nem em catecismo.


Chamaram-na intensa.
Era apenas desperta.


Confiou demais,
porque quem ama com verdade não imagina cálculo alheio.
Teve ideias roubadas,
amizades rasgadas,
lealdades quebradas.


E mesmo assim continuou oferecendo água num mundo que vende sede.


Há nela uma dualidade quase mitológica:
a menina que sobreviveu à casa em guerra
e a mulher que escolheu proteger águas e florestas.
Trauma e missão dividindo o mesmo corpo.


Ela se trata.
Regula a dopamina.
Aprende a dialogar com o próprio sistema nervoso como quem domestica um cavalo ferido sem quebrar sua força.


Não precisa mais viver em modo incêndio.
Pode viver em modo construção.


Às vezes o passado aciona alarmes invisíveis
e a tristeza senta ao lado.
Mas agora ela sabe nomear o que sente
e nomear é poder.


Há quem diga que ela carrega memórias de outras eras,
que já andou por sombras antigas
e retorna vida após vida tentando equilibrar a balança.
Talvez mito.
Talvez metáfora.
Talvez apenas a forma poética de explicar
por que alguém tão jovem carrega tanta responsabilidade.


Ela é virgem na análise,
áries no impulso,
escorpião na emoção,
tigre na defesa,
oceano na profundidade.


É abrigo para segredos.
É ombro firme.
É aquela que chega quando todos vão embora.


E, paradoxalmente,
ainda se pergunta por que foi rejeitada no início.


A resposta não está nela.
Nunca esteve.


Ela nasceu inteira demais
para caber em lugares rasos e pequenos.


Agora caminha com o aperto no peito de quem enxerga o mundo ruir, a
geopolítica em combustão,
a natureza saqueada,
os heróis sociais e ambientais tombando pela missão,
e mesmo assim escolhe plantar.


Porque há pessoas que vieram para consumir.
E há as que vieram para criar e cuidar.


Ela não é ingênua.
Ela é deliberadamente boa.


E isso exige mais coragem
do que qualquer guerra.

Há tantos lugares que nessa cidade que me lembram você. Alguns me trazem boas memórias do tempo que passamos juntos. Outros, infelizmente, fazem com que seja a sua partida seja ainda mais dolorosa. O tempo que passamos juntos nesse plano foi curto, mas o suficiente para eu continuar pensando em você depois de todos esses anos. Eu sei que se você estivesse aqui, gostaria que eu seguisse em frente. É que alguns dias ainda são muito difíceis. A saudade fala mais alto e eu não consigo explicar o que sinto. Esteja em paz, meu bem. Venha me visitar novamente em um sonho, por favor.

Depois de todos esses anos, decidi, finalmente, retornar à minha cidade natal e fazer uma visita. Eu era muito jovem quando decidi ir embora e explorar novos caminhos. Não me arrependo jamais dessa decisão. Só que naquela época, jamais poderia imaginar o quão desafiador seria estar aqui novamente.
A sua partida doeu por muito tempo, e esta cidade é repleta de lembranças suas — lembranças lindas, mas dolorosas para alguém que sente tanto a sua falta. Ainda assim, eu sabia que estava na hora de voltar.
Após duas noites seguidas sonhando com você, senti como se fosse um sinal para voltar e revisitar esse lugar que marcou tão profundamente minha infância e juventude. Então, deixei a tristeza de lado e fui. Eu sei que você entenderia as razões pelas quais eu demorei tanto para voltar para cá.
É doloroso lidar com histórias do passado que nunca foram resolvidas, e a sua partida foi uma delas. Eu sabia que, em algum momento, precisaria confrontar todas essas emoções. Definitivamente, não foi fácil. Porém, quando cheguei aqui, senti uma paz imensa. Senti a sua presença — era como se você estivesse orgulhosa por eu estar aqui.
Visitei novamente vários lugares que marcaram minha vida. Essas ruas, parques e casas nos trouxeram tantos momentos bons, não é mesmo? Enquanto eu viver, vou lembrar de você. E eu juro que, desta vez, não vou demorar tanto para voltar.
Lá fora está um dia frio e nublado, enquanto dentro de mim, permanece um sol forte, daqueles que ilumina a alma.
Não posso dizer que fiz as pazes com o passado, mas, de certa forma, estou lidando melhor com essas emoções. Você era força, resiliência e otimismo. Guardo cada memória no meu coração. Saudade é para sempre.

"" A cidade geme
pressão e calafrios ao amanhecer
pássaros cantam e voam alvoroçados.
a cidade é criança.
brinca de esconde esconde em cada esquina
é moça bonita que encanta
às vezes é o caos
mas se levanta
tem o mágico, a menina
que são capazes de torná-la feminina
quando sem medida
a abraçarem com amor...

O irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte; e as contendas são como os ferrolhos de um palácio.

Bíblia Sagrada
Provérbios 18:19

O Dono da Estufa

Na cidade de vidro havia uma estufa
onde cresciam homens em fileiras retas —
raízes presas a crachás,
folhas presas ao relógio.

O jardineiro vestia linho claro
e falava sobre produtividade
como quem fala do clima:
sem jamais olhar o céu.

Regava apenas a própria varanda.
Nos corredores, o ar era contado
em parcelas invisíveis —
cada respiração descontada do salário.

As plantas amarelavam
não por falta de água,
mas pelo excesso de sede alheia.

Ele bebia a empresa em taças largas,
degustando relatórios como vinhos raros,
e confundia lucro com eternidade.

Um dia mandou vir um sino —
um leiloeiro de voz firme,
treinado para anunciar destinos
e dar preço ao silêncio das coisas.

O homem do martelo
aprendeu o eco das paredes,
mediu o peso do tempo,
deu valor até ao pó suspenso.

Mas o jardineiro, entediado,
trocou o sino por outro qualquer,
não por falha,
não por custo,
não por razão —

apenas pelo prazer
de provar que até a palavra
lhe pertencia.

E assim ficou a estufa:

homens podados antes de florescer,
cadeiras polidas como lápides,
e um dono sentado ao sol artificial
num trono feito de folhas arrancadas.

No livro-caixa
não constava o vento.
No balanço
não cabia o cansaço.

Mas à noite,
quando as lâmpadas cessavam de mentir,
as raízes conversavam sob o chão
e sabiam —

nenhuma planta sobrevive
ao jardineiro
que se alimenta do jardim.

Quantas memórias...
essa cidade faz parte da minha história!
Eu deixei esse lugar quando eu era ainda muito jovem e demorei muito para voltar. Não porque eu não queria, mas porque a minha cidade natal, na qual passei minha infância e juventude, me traz muitas lembranças de pessoas que já se foram. Então, retornar significa encara todas essas emoções e sentimentos não resolvidos.
Mas, finalmente, estou aprendendo a lidar com isso. Voltar não me traz muita dor, pelo contrário, me traz um certo alívio e conforto. Agora, ao passar por essas ruas, consigo me lembrar com menos aflição de pessoas e momentos que fizeram parte da minha história.
Em breve vou embora novamente, porém, valorizando minhas raízes. Jamais vou esquecer de onde eu vim.

⁠Quem não conheceu a tentação de ser o primeiro na cidade não compreenderá nada do jogo político, da vontade de submeter os outros para convertê-los em objetos, nem adivinhará os elementos de que se compõe a arte do desprezo.

Emil Cioran
História e utopia. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

Música sertaneja: gênero escolhido por pessoas que sempre viveram na cidade, mas ganham dinheiro suficiente para comprar uma fazenda em Goiás.

Anda na cidade com alegria; mas, se queres andar com felicidade vitalícia é bem melhor mirar a Cidade Santa nos Céus.

⁠Na política, ratos não roem queijo, mas sim o futuro de uma cidade.

Às vezes o silêncio da cidade diz mais do que qualquer testemunha.