Luto Morte
AS SENSAÇÕES DOS ESPÍRITOS E O DRAMA INVISÍVEL DA CONSCIÊNCIA APÓS A MORTE.
Encontramos textos indispensáveis à nossa elucidação dentro da Doutrina Espírita que não apenas esclarecem, consolam. Eles desnudam a alma humana diante da eternidade. Entre esses estudos de profundidade incomum encontra-se o monumental artigo “Sensações dos Espíritos”, publicado na Revista Espírita, em dezembro de 1858, onde se encontra uma das análises mais impressionantes já realizadas sobre o sofrimento espiritual após a morte.
Não se trata de imaginação poética, superstição medieval ou alegoria religiosa. Trata-se de uma investigação metódica, racional e experimental acerca das sensações do Espírito depois do túmulo. O estudo destrói concepções fantasiosas e igualmente combate interpretações materialistas que reduzem o homem apenas ao cérebro e à carne.
A pergunta central é devastadora.
“Os Espíritos sofrem?”
E a resposta é ainda mais perturbadora.
Sim. Sofrem. Mas não como imaginamos.
O texto apresenta o caso de um avarento desencarnado que, mesmo sem possuir corpo físico, afirmava sentir frio intenso e suplicava permissão para aproximar-se de uma lareira. À primeira vista, a cena parece contraditória. Como alguém sem corpo poderia sofrer com temperatura?
É precisamente aqui que a Doutrina Espírita introduz uma das distinções filosóficas mais profundas de toda a sua estrutura.
O Espírito não sofre pela carne. Sofre pela consciência.
O frio daquele avarento não era um fenômeno fisiológico. Era uma repercussão psíquica, moral e perispiritual daquilo que ele mesmo cultivara durante a existência terrestre. O homem que negara calor aos outros permanecia aprisionado à impressão íntima da privação que escolhera viver.
A Doutrina Espírita não descreve um inferno de fogo literal. Ela descreve um inferno psicológico.
E isto é infinitamente mais sério.
O Espírito leva consigo suas tendências, paixões, vícios, obsessões e estados mentais. A morte não transforma instantaneamente o caráter. Ela apenas remove o corpo físico. O ser continua sendo aquilo que construiu dentro de si mesmo.
Por isso o texto afirma que muitos Espíritos ainda acreditam estar vivos logo após a desencarnação. Alguns não percebem a própria morte. Outros sentem os efeitos do estado cadavérico do corpo. Outros experimentam angústias morais que se convertem em sensações aparentemente físicas.
É nesse ponto que surge o conceito fundamental do PERISPÍRITO.
O perispírito é apresentado como o elo semimaterial entre Espírito e corpo. Não é o Espírito propriamente dito, nem o organismo físico. É o instrumento transmissor das sensações.
Enquanto encarnado, o Espírito percebe o mundo através do corpo por intermédio do perispírito. Após a morte, o corpo desaparece, mas o perispírito permanece ligado ao Espírito conforme o grau de evolução moral da criatura.
Quanto mais materializado e preso às paixões alguém viveu, mais denso será seu envoltório espiritual. E quanto mais denso esse envoltório, mais intensamente sofrerá as repercussões de sua própria inferioridade moral.
Eis porque os Espíritos inferiores descrevem fome, sede, frio, dores, opressões e perturbações. Não porque possuam órgãos físicos, mas porque suas percepções ainda estão aprisionadas às ilusões e automatismos da vida material.
O texto explica algo extraordinariamente moderno quando compara tais fenômenos às dores fantasmas de pessoas amputadas. Um indivíduo pode perder um membro e continuar sentindo dores nele durante anos. A matéria desapareceu, mas a impressão permaneceu na consciência.
Da mesma forma, o Espírito conserva impressões profundas da experiência corporal.
Isto destrói a ideia simplista de que a morte resolve instantaneamente todos os sofrimentos humanos.
A morte apenas revela o que realmente somos.
Outro ponto impressionante do estudo é a análise dos suicidas. Muitos permanecem ligados ao corpo em decomposição, percebendo os processos destrutivos do cadáver como se ainda estivessem encarnados. Não porque os vermes atinjam o Espírito, mas porque a ligação perispiritual ainda não foi completamente rompida.
A Doutrina Espírita apresenta aqui uma concepção profundamente ética da existência.
Cada pensamento produz consequências. Cada vício gera vinculações. Cada excesso produz aprisionamentos psíquicos. Cada virtude amplia a liberdade espiritual.
Não existe punição arbitrária.
O sofrimento espiritual é consequência natural do estado íntimo do ser.
O homem dominado pelo egoísmo permanece sufocado por si mesmo. O orgulhoso torna-se prisioneiro da própria vaidade. O invejoso alimenta continuamente sua própria tortura. O sensualista permanece preso às sensações que já não consegue satisfazer.
A verdadeira prisão está na consciência deformada.
Mas o texto também oferece uma das maiores consolações da filosofia espírita.
Nada é eterno.
Nenhum sofrimento é perpétuo.
Todo Espírito pode regenerar-se.
Mesmo os mais endurecidos estão destinados ao progresso. O sofrimento não é vingança divina. É mecanismo educativo da consciência. Deus não condena criaturas ao tormento infinito. O próprio Espírito prolonga ou reduz suas dores conforme sua disposição de transformar-se moralmente.
É por isso que o artigo insiste na necessidade da reforma íntima ainda durante a existência corporal.
A criatura que domina paixões inferiores. Que desenvolve humildade. Que aprende a perdoar. Que combate o egoísmo. Que vive sobriamente. Que pratica o bem.
Essa criatura já começa a libertar-se da matéria antes mesmo da morte.
Quando desencarna, experimenta menos perturbação, menos apego e menos sofrimento.
A Doutrina Espírita apresenta assim uma visão profundamente racional da vida futura. Não há milagres arbitrários nem condenações teológicas absolutas. Há leis morais funcionando sobre a consciência imortal.
Quanto mais o Espírito se depura, mais sutis tornam-se suas percepções.
Os Espíritos elevados já não dependem das impressões grosseiras da matéria. Não sofrem calor nem frio. Não estão presos às vibrações inferiores do mundo físico. Sua percepção é ampla, lúcida e livre.
Já os Espíritos inferiores vivem mentalmente encarcerados nas próprias imperfeições.
O texto ainda desmonta outro erro comum.
O perispírito não carrega cicatrizes físicas eternas do corpo terreno, como muitos imaginam em interpretações antidoutrinárias. O Espírito não permanece deformado perpetuamente pelas enfermidades físicas da encarnação. As dores do corpo pertencem ao corpo. O que permanece são os estados morais e psicológicos cultivados pela alma.
Essa compreensão possui consequências filosóficas gigantescas.
Ela demonstra que o verdadeiro centro da existência humana não está no corpo, mas na consciência.
O cérebro não cria o pensamento. O Espírito pensa através do cérebro.
A matéria não produz a alma. A alma utiliza a matéria temporariamente.
E quando o organismo cai no silêncio do sepulcro, aquilo que realmente somos continua vivo, consciente e responsável diante das leis eternas da vida.
Talvez por isso este estudo permaneça tão atual mesmo após mais de um século e meio.
Porque ele não fala apenas da morte.
Fala da responsabilidade invisível que carregamos todos os dias dentro de nós.
Cada pensamento constrói nosso futuro espiritual. Cada sentimento modela nosso perispírito. Cada escolha define a qualidade de nossas percepções além da matéria.
A Doutrina Espírita não oferece ameaças. Oferece lucidez.
E talvez poucas coisas sejam tão solenes quanto compreender que a eternidade começa agora, dentro da própria consciência humana.
FONTES:
Revista Espírita
O Livro dos Espíritos
O Céu e o Inferno
Traduções e estudos doutrinários de José Herculano Pires.
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"O TRISTE NÃO É A MORTE DE UM HOMEM, MAS O QUE MORRE COM ELE" provérbio chinês.
Sem dúvida, é a experiência adquirida durante a vida, os erros cometidos, que serão enterrados junto com ele" Ademar de Borba
uma garrafinha de água
o fogo na floresta apaga
e salva o bicho preguiça
da morte pela queimada
que a ponta de uma brasa
de cigarro que foi jogada
pela janela do seu carro
naquela beira de estrada
não coloque fogo na mata
existe vida nas matas
evite causar queimadas
não lance fora a brasa
e o equilíbrio de tudo
na sua vida sagrada
simplesmente depende
que a vida seja preservada
então ao invés de fogo
leve sempre um pouco de água
e quando fizer parada
dêixe lá para a bicharada
Começo por acreditar e desenvolver o que um rapper brasileiro SID, falou dizendo a morte de um cachorro, por vezes, gera mais desconforto, mais revolta pública e maior repercussão do que a morte de uma mulher negra e grávida, de homens esquecidos pela pobreza ou de crianças abandonadas à própria sorte.
Eu concordo.
Isto não significa negar os direitos dos animais. Todo ser vivo merece respeito. Humanos, animais, plantas e até os próprios malfeitores carregam dentro de si o direito de existir. O problema não está no amor dedicado aos animais. O problema está na indiferença selectiva que a sociedade desenvolveu diante da dor humana. Chegámos a um tempo em que muitos choram diante de um vídeo de um cão ferido, mas deslizam o dedo com frieza diante da notícia de uma criança morta pela fome, de uma mulher assassinada ou de famílias inteiras destruídas pela miséria.
Não porque o animal não mereça compaixão, mas porque o sofrimento humano foi banalizado pela repetição, pela política, pela desigualdade e pelo costume. A dor tornou-se espectáculo. E o espectáculo escolhe aquilo que provoca mais emoção instantânea. Um animal, muitas vezes, aparece aos olhos do povo como inocente, puro e incapaz de maldade. Já o ser humano é constantemente julgado pela sua cor, pela sua classe social, pela zona onde vive, pela forma como fala ou até pela roupa que veste.
A sociedade aprendeu a humanizar certos animais, mas continua a desumanizar muitos humanos. É triste admitir que, em certos casos, um cachorro recebe mais atenção médica, mais campanhas de solidariedade e mais defesa pública do que um cidadão pobre abandonado num hospital sem medicamentos. Enquanto isso, mulheres continuam a morrer nos corredores da negligência, crianças crescem sem saneamento, e homens desaparecem silenciosamente dentro da depressão e da fome.
Não se trata de escolher entre defender animais ou defender pessoas. Uma sociedade equilibrada deve proteger ambos.
"Que a poesia continue a ser um meio de libertação"
A morte precoce de Bruce Lee, o Pequeno Dragão, aos 32 anos, em 20 de julho de 1973, foi resultado da busca incansável pela perfeição. 🐉
É na hora da morte que a alma do corrupto é julgada e lançada no inferno por Deus, o Justo Juiz. ⚖️
📖 Hebreus 9:27; Salmos 9:17
Algumas das pessoas que hoje estão no corredor da morte poderiam não estar lá se os tribunais não tivessem sido lenientes com elas enquanto eram rés primárias.
Se você acredita que adversários políticos deveriam ser punidos com violência ou morte, você é um terrorista.
JÓIAS DEVOLVIDAS.
Do livro: Quem Tem Medo da Morte?
de Richard Simonetti.
“Jóias Devolvidas” é um dos contos mais conhecidos e emocionalmente penetrantes da literatura espírita contemporânea. A narrativa apresenta uma reflexão profunda sobre o apego humano, a transitoriedade da matéria e a verdadeira natureza dos vínculos afetivos sob a perspectiva da Doutrina Espírita.
O enredo gira em torno de uma mulher que perde prematuramente os filhos e mergulha numa dor devastadora. Revoltada contra Deus e incapaz de aceitar o sofrimento, ela procura um sábio homem espiritual em busca de explicações. Esperava consolo imediato, talvez alguma fórmula para anestesiar a própria angústia. Entretanto, recebe uma comparação inesperada.
O mentor lhe pergunta se ela possuía jóias valiosas guardadas em casa. A mulher responde que sim. Então ele questiona:
“Se alguém lhe emprestasse jóias preciosas durante alguns anos e depois viesse buscá-las, você acusaria essa pessoa de roubo?”
A mulher responde negativamente, afirmando que aquilo que é emprestado continua pertencendo ao verdadeiro dono.
É nesse instante que surge o núcleo filosófico do conto.
O sábio explica que os filhos não pertencem aos pais em sentido absoluto. São Espíritos imortais confiados temporariamente ao cuidado da família terrestre. Deus os concede por empréstimo sublime para que haja aprendizado, reencontro, reparação e amor. Quando regressam ao plano espiritual, as “jóias” são apenas devolvidas ao verdadeiro proprietário da Vida.
A alegoria é profundamente coerente com os princípios espíritas sobre reencarnação e sobrevivência da alma. Segundo O Evangelho segundo o Espiritismo, os laços familiares transcendem o túmulo, e a morte física não rompe os vínculos do afeto legítimo. O corpo perece, porém o Espírito continua sua jornada evolutiva.
O conto não banaliza a dor materna nem reduz o luto a um discurso frio de resignação. Pelo contrário. Richard Simonetti trabalha a dimensão psicológica da perda mostrando que o sofrimento nasce, muitas vezes, da ilusão de posse. O ser humano acostuma-se a dizer “meu filho”, “minha esposa”, “meu pai”, como se as almas fossem propriedades definitivas. O Espiritismo, entretanto, ensina que ninguém possui ninguém. Todos são companheiros temporários na travessia terrestre.
Há também um aspecto moral extremamente elevado na narrativa. A maternidade e a paternidade aparecem como missões espirituais e não como direitos absolutos. Os pais são administradores de consciências em formação, responsáveis por oferecer amor, orientação ética e amparo moral enquanto durar a experiência encarnatória.
Sob prisma psicológico, o conto toca numa das maiores angústias humanas: o medo da separação. A perda física parece insuportável porque a consciência materialista encara a morte como extinção. Já a visão espírita modifica radicalmente essa percepção. A ausência transforma-se em distância temporária. O túmulo deixa de representar destruição definitiva e passa a simbolizar apenas mudança de estado existencial.
A força do texto reside justamente na simplicidade simbólica da metáfora. As jóias representam aquilo que mais amamos. E quanto mais valiosas, menos realmente nos pertencem. O amor verdadeiro não aprisiona, não reivindica posse e não exige permanência eterna na matéria. Ama sabendo libertar.
O conto também dialoga profundamente com a questão 934 de O Livro dos Espíritos, quando se discute por que criaturas boas sofrem tanto na Terra. A resposta espírita demonstra que as provas dolorosas frequentemente possuem finalidade educativa, expiatória e evolutiva. Muitas vezes, reencontros familiares são breves porque certas almas necessitam apenas de pequeno contato regenerador antes de retornarem ao mundo espiritual.
Richard Simonetti consegue transformar uma reflexão doutrinária em experiência emocional. Não escreve apenas para instruir intelectualmente, mas para tocar regiões profundas da alma humana. Seu conto convida o leitor a substituir revolta por entendimento, desespero por esperança e posse por gratidão.
A verdadeira tragédia não é devolver as jóias ao Céu. A verdadeira tragédia seria jamais ter recebido seu brilho por um único instante sequer.
Fontes:
Quem Tem Medo da Morte?
O Livro dos Espíritos.
O Evangelho segundo o Espiritismo.
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A morte é tão temida por uns,desejada por outros,mas também, pode ser o descanso para quem muito já viveu.
A sua traição pode ter sido apenas virtual. Mas em mim, a dor e a morte que causou, serão eternamente reais!
NADA TRANSCENDE À REALIDADE:
Discorrer à morte...
Remete-nos às margens
Dos rios
Que se vão
Rumo ao mar longínquo
Com a fúria do vendaval
Arrebatando sonhos e ilusões.
Discorrer à morte...
Nos conduz ao epicentro
Das incertezas.
Encetando-me a nitidez de que
Nada tenho ou sou
Ou para aonde vou.
Que tudo é nada.
E a única inferência
É morrer.
DANTE. O EXILADO QUE A MORTE NÃO RECONCILIOU.
Há episódios da história que parecem escritos por um dramaturgo medieval. O destino de Dante Alighieri é um deles. Poucos homens foram tão glorificados pela posteridade e, simultaneamente, tão rejeitados pela própria pátria. O criador da Divina Comédia transformou-se em símbolo da literatura italiana, mas morreu como peregrino político, carregando sobre si a amargura do desterro e a ferida de uma cidade incapaz de reconhecer a grandeza daquele que havia concebido uma das maiores arquiteturas poéticas da civilização ocidental.
Nascido em Florença por volta de 1265, Dante viveu em uma Itália fragmentada por disputas políticas, rivalidades familiares e conflitos entre facções. Pertencia ao partido dos guelfos brancos, grupo que se opunha à interferência política do papado nos assuntos florentinos. Quando os guelfos negros assumiram o poder com apoio pontifício, Dante foi acusado de corrupção e condenado ao exílio em 1302. A sentença era brutal. Caso retornasse à cidade, poderia ser queimado vivo.
A partir desse momento começou uma peregrinação dolorosa. Dante atravessou cortes italianas, experimentou humilhações materiais e conviveu com a condição do expatriado. Em uma de suas passagens mais célebres, escreveria sobre “o sabor salgado do pão alheio” e “o subir e descer das escadas dos outros”. Não era apenas uma metáfora poética. Era a descrição concreta de sua ruína social e emocional.
Foi nesse estado de exílio que amadureceu a Divina Comédia. A obra não nasceu do conforto, mas da expulsão. O inferno, o purgatório e o paraíso percorridos pelo poeta carregam marcas profundas de sofrimento político, desencanto humano e anseio espiritual. Muitos dos personagens condenados por Dante eram figuras reais de seu tempo, inclusive adversários florentinos. Sua literatura tornou-se simultaneamente transcendência estética e tribunal moral.
Em 1321, Dante morreu em Ravena, acolhido pela corte de Guido Novello da Polenta. Não retornou à cidade natal. Florença não revogou plenamente sua condenação enquanto viveu. A pátria que mais tarde transformaria sua língua em fundamento da identidade italiana não teve a dignidade de recebê-lo de volta quando ainda respirava.
O que ocorreu após sua morte possui contornos quase litúrgicos. Séculos depois, Florença passou a desejar os restos mortais daquele que antes repudiara. Em 1519, sob autorização do papa Leão X, uma delegação florentina dirigiu-se a Ravena para recuperar os ossos do poeta. A missão possuía forte simbolismo político e cultural. Seria uma espécie de reconciliação tardia entre a cidade e seu filho ilustre.
Mas os frades franciscanos de Ravena compreenderam o paradoxo moral daquela tentativa.
Antes da chegada da comitiva, removeram secretamente os restos mortais de Dante do sepulcro. Quando os enviados abriram o túmulo, encontraram apenas o vazio. O gesto dos franciscanos não foi simples obstinação regional. Havia nele uma dimensão ética silenciosa. Ravena recusava entregar à glória póstuma uma cidade que negara misericórdia ao homem vivo.
Durante séculos, os ossos permaneceram ocultos no convento franciscano. Aquela guarda secreta adquiriu caráter quase sacral. Não protegiam somente um cadáver. Protegiam a memória de uma injustiça histórica.
Em 1865, durante obras próximas ao túmulo, os restos foram reencontrados dentro de uma caixa de madeira contendo inscrição identificadora. O episódio provocou enorme repercussão cultural na Itália recém-unificada. Dante já havia sido elevado à condição de pai simbólico da língua italiana, e a redescoberta de seus ossos assumiu contornos nacionais.
Nem mesmo o século XX encerrou a peregrinação póstuma do poeta. Durante a Segunda Guerra Mundial, os restos mortais foram novamente escondidos para protegê-los dos bombardeios. Como em um ciclo histórico melancólico, Dante continuava exilado até mesmo na morte, deslocado de um lugar para outro por forças políticas e militares.
Hoje, Florença conserva um monumental cenotáfio em Basílica de Santa Croce dedicado ao poeta. Contudo, o túmulo está vazio. O verdadeiro corpo permanece em Ravena, guardado pela cidade que o acolheu quando a própria pátria lhe negara abrigo.
Existe nisso uma das ironias mais profundas da memória humana. Muitas sociedades perseguem seus gênios enquanto vivos e veneram-nos quando mortos. O reconhecimento tardio frequentemente possui menos virtude do que remorso. Dante converteu-se em patrimônio universal não por causa da benevolência de Florença, mas apesar de sua hostilidade.
Ravena compreendeu algo que a posteridade raramente admite. Há exílios que ultrapassam a política. Transformam-se em cicatrizes morais. E certas ausências permanecem como testemunho eterno da ingratidão dos homens diante daqueles que lhes ofereceram eternidade literária.
Fontes consultadas. Biblioteca Italiana. Sociedade Dante Alighieri. Arquivos históricos de Ravena. Enciclopédia Treccani. Museu Casa de Dante.
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