Literatura Brasileira
Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa. A realidade antecede a voz que a procura, mas como a terra antecede a árvore, mas como o mundo antecede o homem, mas como o mar antecede a visão do mar, a vida antecede o amor, a matéria do corpo antecede o corpo, e por sua vez a linguagem um dia terá antecedido a posse do silêncio.
Me apego a alguns objetos que guardo. Eles me passam a idéia de que sorriem felizes ao reencontrá-los nas gavetas e caixas. Não me fazem perguntas. Não procuram entender nada nem ninguém.
Ao contrário, reencontro pessoas, sempre com muitas perguntas e um gabarito que definirá se eu acertei tudo.
Não tenho memória
para ser músico
então escolhi ser escritor
que não consegue lembrar de tudo
por isso anota.
A escrita e a leitura reduzem nossa sensação de isolamento. Aprofundam, alargam e expandem nossa noção da vida: alimentam a nossa alma.
Desprezo qualquer tipo de certeza
que ousa me seduzir. Sinto-me atraído
por esse ânimo do saber, mas apesar de intensos
minutos dedicados, parece que o tempo
encurta-se para mim de forma natural. Não me
surpreendo por longos meses e anos. Sinto que
preciso renovar-me a cada dia, para obter a evolução que foi requerida à minha alma antes mesmo de aqui chegar.
Sou a falta que me falta, mas não consigo me preencher.
Quando me abduso para escrever um poema ou um texto qualquer, às vezes caio num círculo de pensamentos repetitivos sobre tudo já ter sido escrito. Tudo que sai de mim, já foi estudado e escrito. Não há nada de novo em mim. É só procurar por aí, não há segredos sobre a vida e sentimentos humanos. A atualidade falha por estar apenas repetindo os tempos antigos.
Por que uma pessoa começa a escrever? Porque ela se sente incompreendida, eu acho. Porque nunca sai com bastante clareza quando ela tenta falar. Porque ela quer refazer o mundo, para pegá-lo e devolvê-lo novamente de forma diferente, de modo que tudo é usado e nada está perdido.
Quando se cansar de mim a vida,
e tudo for escuridão profunda e fria,
meu corpo será adeus em despedida;
minh'alma, eterna poesia.
Uma história era uma forma de telepatia. Por meio de símbolos traçados com tinta numa página, ela conseguia transmitir pensamentos e sentimentos da sua mente para a mente de seu leitor. Era um processo mágico, tão corriqueiro que ninguém parava para pensar e se admirar. Ler uma frase e entendê-la era a mesma coisa; era como dobrar o dedo, não havia intermediação. Não havia um hiato durante o qual os símbolos eram decifrados. A gente via a palavra castelo e pronto, lá estava ele.
Os bons escritores são aqueles que conseguem colocar os leitores na pele do outro. Creio ser essa a maior virtude da leitura.
Como leitor, muitas vezes fico desagradado com autores e histórias sem famílias ou crianças e toda a angústia e alegria que elas trazem consigo.
O escritor não precisa ser politicamente correto; tem que ser eticamente e humanamente correto, mas não precisa ser politicamente correto.
