Inverno
Hoje não é o amanhã e nunca será. Hoje é tarde. beirando a noite, esperando o inverno, mesmo no cano que não sufocar de amor
As estações estão perplexas...
A Primavera, no calendário
acabou de chegar
mas, o Inverno com o seu cenário,
não parece querer passar...
A paisagem cinéria na Região Oceânica
me convida à introspecção
enquanto a névoa vai envolvendo a litorânea
escrevendo seus versos cinzas
entre os rochedos e o mar...
A Primavera anuncia-se no calendário,
mas o Inverno ainda resiste,
com sua sombra fria,
tecendo um silêncio persistente
sobre a pele do tempo...
A Serra da Tiririca veste-se de cinza,
a névoa rasteja e sufoca o horizonte,
como se o mar respirasse em versos apagados
e os rochedos guardassem segredos
de um poema que tarda a florescer...
A Primavera sorri no calendário,
mas ao meu redor,
ainda sopra o vento do Inverno,
delineando restos de silêncio
entre um céu turvo e uma lembrança antiga...
Na Região Oceânica, a paisagem cinéria
me acolhe em sua bruma,
e a névoa, delicada, borda poemas invisíveis
sobre as pedras e o mar,
como se traduzisse a estação inspiradora
da minha alma...
✍©️ @MiriamDaCosta
as vezes , a alma precisa atravessar o próprio inverno para descobrir que carrega em seu âmago , um sol que jamais se apaga; você não é apenas o sobrevivente das tempestades , mas a própria prova de que a luz mais bonita nasce da resistência entre a fenda e o abismo .
Márcio José
A FACE DA LUZ E O INVERNO DA ALMA.
Como pode a Luz que toca minha face
Trazer-me, em segredo, a mais densa escuridão?
Como pode o fulgor que o horizonte refaz-se
Converter-se em silêncio dentro do coração?
São-me estranhos os dias, estranhas as horas,
Como sombras que dançam sob o véu da razão;
As auroras parecem antigas senhoras
Que se perdem cansadas na mesma estação.
Eis que nela se encontram as quatro estações,
Primavera e verão em perfeita harmonia;
Outono de ouro e serenas emoções,
Mas em mim reina apenas a fria ventania.
Em seus olhos florescem os jardins da existência,
Em seus gestos repousa a ternura sem fim;
Mas em minha alma cresce a gélida ausência,
E o inverno prolonga seus domínios em mim.
Há distância nas formas, nos tempos, nos rumos,
Há distância nos sonhos, nos risos e no olhar;
Há distância até mesmo nos mais doces perfumes
Que tentamos, em vão, entre lágrimas guardar.
Como podes, ó Deus, permitir semelhante sorte?
Que mistério governa tão severa lição?
Por que a vida aproxima com mãos de conforto
Aquilo que se afasta do alcance da mão?
Neste instante derradeiro, entre a prece e o pranto,
Ergo a voz que vacila na dor que me conduz;
E recordo Bach, em seu sublime canto,
Quando implora ao Eterno a permanência da Luz.
Não aparteis de mim a Vossa santa face,
Nem me deixeis sozinho nos desertos do ser;
Que a esperança, ainda que ferida, renasça,
E me ensine, na noite, novamente a viver.
Se o inverno é o caminho que hoje devo trilhar,
Que eu encontre em seu gelo uma secreta missão;
Pois a neve mais fria, ao tempo de se calar,
Também guarda invisível a semente do verão.
Mensagem:
Há momentos em que a alma contempla a luz e, paradoxalmente, percebe mais intensamente as próprias sombras. Contudo, nenhuma noite possui autoridade sobre a eternidade do amanhecer. Aquilo que hoje parece ausência pode ser apenas o labor silencioso de Deus preparando novas flores para o espírito. A luz não abandona quem a procura; às vezes, apenas ensina a enxergá-la para além das aparências.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro
Fontes de Inspiração.
Obra musical e espiritual de Johann Sebastian Bach.
Salmo 27:9 — "Não escondas de mim a tua face".
Reflexões filosóficas sobre a dor, a esperança e a transcendência.
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A FACE DA LUZ E O INVERNO DA ALMA.
Como pode a Luz tocar-me a face
e, em seu fulgor, despertar a escuridão?
Como pode o horizonte, em sua ampla beleza,
reerguer-se em ouro e morrer no coração?
São-me estranhos os dias, estranhas as horas,
como sombras que se alongam sob o olhar da razão;
e as auroras, outrora jovens e promissoras,
parecem velhas senhoras fatigadas da estação.
Nela habitam as quatro estações da existência:
a Primavera, fecunda em perfumes e alegria;
o Verão, ardendo em solar magnificência;
o Outono, dourado em serena melancolia.
Mas em mim, onde deveria florescer a esperança,
reina um vento sem pátria, austero e desolador;
e o Inverno, com sua lenta perseverança,
estende sobre a alma seus domínios de torpor.
Em seus olhos florescem jardins de existência;
em seus gestos repousa a ternura sem fim.
Há primavera em sua simples presença,
enquanto o gelo aprofunda seus silêncios em mim.
E há distância nas formas, nos tempos, nos rumos;
distância entre os sonhos, os risos e o olhar;
distância até nos mais delicados perfumes
que as mãos da memória tentam, em vão, conservar.
Que estranho cálculo rege a geometria da vida,
em que duas almas se encontram sem se possuir?
Que força aproxima aquilo que, em seguida, distancia,
como se amar fosse aprender a perder e prosseguir?
Como permitis, ó Deus, semelhante paradoxo?
Que teorema oculto governa esta severa equação?
Por que a vida aproxima, com mãos de conforto,
aquilo que permanece além do alcance da mão?
Talvez a dor possua uma matemática secreta,
e o sofrimento, uma lógica que não sabemos decifrar;
talvez aquilo que julgamos ruptura completa
seja apenas outra forma de aprender a amar.
Neste instante derradeiro, entre a prece e o pranto,
ergo a voz vacilante à altura da minha cruz;
e recordo Bach, quando seu sublime canto
parece implorar ao Eterno a permanência da Luz.
Não aparteis de mim a Vossa santa face,
nem me deixeis sozinho nos desertos do ser.
Se a noite me envolver em sua lenta voracidade,
ensinai-me, mesmo nela, novamente a viver.
Não permitais que eu confunda ausência com abandono,
nem silêncio com a negação de Vossa presença.
Há estrelas que somente revelam o próprio brilho
quando a noite se torna suficientemente imensa.
Se o Inverno é o caminho que hoje devo atravessar,
que eu encontre em seu gelo uma secreta razão;
pois a neve, antes de desaparecer, ao se calar,
guarda sob sua brancura a semente da estação.
Nada floresce sem antes enfrentar alguma obscuridade.
A semente conhece a noite antes de conhecer o jardim.
O rio atravessa a pedra por força da continuidade,
e o espírito amadurece quando deixa de fugir de si.
Talvez a Luz não tenha deixado o meu caminho.
Talvez eu apenas tenha aprendido a procurá-la fora.
Talvez Deus permaneça exatamente onde imagino o vazio,
silencioso como a madrugada que antecede a aurora.
Há momentos em que a alma contempla a Luz
e, justamente por contemplá-la, percebe suas próprias sombras.
O fulgor não cria a escuridão: revela-a.
E aquilo que a consciência vê com maior nitidez
é precisamente aquilo que, antes, permanecia oculto.
Nenhuma noite, porém, possui autoridade sobre o amanhecer.
Nenhum Inverno é eterno.
Nenhuma ausência é capaz de abolir aquilo que o amor verdadeiramente edificou.
Talvez a vida não esteja me castigando.
Talvez esteja apenas me ensinando a distinguir
a posse da presença,
a presença da aparência,
e a aparência daquilo que permanece.
Porque há amores que não foram feitos para permanecer ao alcance das mãos.
Foram feitos para permanecer na consciência.
E talvez seja essa a mais severa lição do Inverno da alma:
compreender que a Luz não desaparece quando já não podemos tocá-la.
Ela apenas se torna mais profunda.
E, quando a última folha cair,
quando o vento cessar sobre os campos interiores,
quando a alma, cansada de lutar contra a própria noite,
finalmente silenciar,
talvez descubra, sob o gelo,
aquilo que nunca morreu:
a semente invisível do Verão.
Quem é Ela?
Tem o abraço quente como o verão,
Para aquecer os corações em dias de inverno!
Ela veste as cores da primavera,
E seu sorriso, faz cair as folhas da inveja como no outono!
Hoje
Os dias são de inverno
No inverno
os dias sempre são mais curtos
Mas existe a solidão lá fora
Embora
ela esteja aqui dentro há tempos
Pois os tempos não voltam
E as lembranças remontam
O meu dia aos avessos
E a cada dia mais frio
Tão frio quanto a madrugada
Desses dias de frio inverno
Resta escrever poesia
Fria, em seus mornos versos
O latido de cães
E as cantigas de roda de outrora
Agora, tudo isso
é coisa por demais antiga
Saudade verdadeira
Verdade da boa
O forno de pão
O chão de terra batida
Violão e conversa
Lembranças tão dispersas
Quanto estrelas no Céu
Isso é a vida
No início
Um papel em branco
... e bonito
No final
Um livro escrito de qualquer jeito
Com direito à notas de rodapé
Em tempos de outra estação
Infância de poetas
São sempre as mais felizes
ou talvez as mais tristes
de vez que o poeta existe
Pra que elas sejam sempre algo mais
Mesmo que sejam somente
as mais distantes
tão distantes que agora
Não existe diferença
entre as verdades e as mentiras
O vento sopra e a roda gira
Uma longa lista de lembranças
As quadras,
cantigas de roda
e canções pra lá de antigas
Pondero
Que nunca mais eu cantei como antes
Pois a dura vida de ontem
vivida de hora em hora
Eu vejo agora
Parece que durou
somente um mero instante.
Edson Ricardo Paiva.
CAPÍTULO III
A PEDRA E O SILÊNCIO.
O inverno descia sobre a Úmbria com a gravidade própria do século XI. As colinas próximas a Perugia tornavam-se densas sob a névoa, e o ar carregava o odor de lenha úmida e terra revolvida. Não havia pressa na estação fria. Havia espera. E na espera formava-se o caráter.
Cladissa contava aproximadamente 17 invernos quando o abade do mosteiro próximo, vinculado à Ordem de São Bento, permitiu que algumas jovens do vilarejo participassem da instrução elementar da leitura dos salmos. Não era privilégio comum. A alfabetização, ainda que rudimentar, concentrava-se nos claustros. Mas a região vivia um momento de reorganização disciplinar após as reformas impulsionadas por Gregório VII, e a formação espiritual das famílias tornara-se preocupação constante.
O mosteiro erguia-se em pedra clara, austera, quase severa. Nada ali convidava ao conforto. Tudo remetia à permanência. Ao atravessar o pátio interno pela primeira vez como aprendiz e não apenas como visitante, Cladissa sentiu algo que não soube nomear. Não era temor. Era reconhecimento. Como se a pedra falasse uma língua silenciosa que sua alma já conhecia.
O scriptorium situava-se no lado oriental do edifício, para receber melhor a luz da manhã. Ali, dois monges copiavam trechos da Vulgata sobre pergaminhos espessos. O odor de tinta ferrogálica misturava-se ao couro curtido das capas. O som dominante era o do raspador sobre o pergaminho, corrigindo imperfeições antes da escrita.
Cladissa observava. Não perguntava em excesso. Sua inteligência era contemplativa. Compreendia que naquele espaço o saber não era ornamento. Era responsabilidade. Cada letra traçada era um gesto de preservação do mundo antigo.
O irmão Martino, monge de meia-idade com mãos firmes e olhar fatigado, percebeu a atenção da jovem. Não a tratou com condescendência. Entregou-lhe um fragmento de salmo e indicou que repetisse a leitura em voz baixa. A pronúncia latina de Cladissa era hesitante, mas clara. Não buscava rapidez. Buscava exatidão.
Naquele instante, algo se deslocou em sua interioridade. Não era ambição de erudição. Era a percepção de que o conhecimento ordena a alma. A disciplina da leitura tornava-se disciplina do pensamento. E o pensamento disciplinado protege contra o caos.
Fora dos muros, entretanto, o mundo mantinha sua rudeza. Um conflito entre dois senhores locais, ligados a pequenas fortificações ao sul de Assis, ameaçava os camponeses com novas exações. A insegurança política era parte estrutural da época. O feudalismo não era sistema abstrato. Era cobrança concreta, era trigo confiscado, era inverno mais severo.
Cladissa escutava as conversas sussurradas no vilarejo. Não reagia com revolta impetuosa. Refletia. Percebia que a violência exterior revelava desordem interior. A ausência de governo justo era reflexo da ausência de autodomínio.
Certa tarde, ao regressar do mosteiro, encontrou a mãe sentada à porta da casa, fiando lã com movimentos ritmados. O silêncio entre ambas não era vazio. Era comunhão. A mãe não dominava a leitura, mas dominava a resistência. E essa forma de saber era igualmente necessária.
Cladissa compreendeu então que sua formação não poderia ser puramente claustral. A pedra ensinava firmeza. A terra ensinava humildade. O mosteiro preservava a palavra. O campo preservava a vida.
Na última vigília daquele inverno, permitiram-lhe permanecer na igreja durante o canto das horas noturnas. As vozes graves dos monges ecoavam sob a abóbada simples. Não havia ornamentos dourados. Havia reverência. A repetição dos salmos não era monotonia. Era lapidação da consciência.
Ali, sob a luz trêmula das velas, Cladissa tomou uma decisão silenciosa. Não se tratava de fugir do mundo. Tratava-se de compreender o mundo a partir de um eixo interior inabalável. Se o século era instável, ela deveria tornar-se estável. Se a política oscilava, ela deveria ordenar-se moralmente.
O inverno terminaria. Os conflitos talvez se agravassem. O poder mudaria de mãos como tantas vezes mudara. Mas a disciplina adquirida naquele claustro permaneceria como fundamento.
Cladissa não buscava glória. Buscava retidão.
E no silêncio das pedras antigas, começou a erguer-se não apenas uma mulher medieval, mas uma consciência capaz de atravessar seu tempo sem dissolver-se nele.
Deseja que o Capítulo IV avance para um evento histórico concreto, como a tensão feudal aberta em violência, ou prefere aprofundar a vocação espiritual nascente de Cladissa dentro do mosteiro.
LÁGRIMAS ESCURAS ESTRANHAS.
“Camille Marie Monfort caminhava como quem carregava um inverno dentro do peito. Não eram lágrimas comuns. Eram precipícios líquidos escorrendo silenciosamente pela face de alguém que compreendeu cedo demais o peso das despedidas.”
Ela não chorava apenas por um amor perdido. Chorava pelas múltiplas mortes invisíveis que a existência impõe lentamente à alma humana. Chorava pela infância que lhe arrancaram antes da hora. Pelos corredores vazios das antigas casas aristocráticas onde o silêncio parecia observar cada passo. Pelos retratos antigos que conservavam sorrisos de pessoas já devoradas pelo tempo.
Camille descobriu algo terrível. Algumas pessoas não enlouquecem por excesso de dor. Enlouquecem por excesso de lucidez.
As tristezas escuras nasceram quando ela percebeu que muitos afetos humanos são frágeis demais para sobreviver ao desgaste do egoísmo, da vaidade e das conveniências sociais. Desde então, seus olhos passaram a carregar aquela melancolia semelhante às catedrais abandonadas após a chuva.
Existia também outra ferida. Mais profunda. Mais metafísica.
Camille sentia-se deslocada do próprio século. Como se sua alma pertencesse a algum salão antigo iluminado por velas mortiças, música fúnebre e cartas jamais enviadas. O mundo moderno lhe parecia excessivamente rápido para compreender sentimentos profundos. Via pessoas sorrindo enquanto apodreciam emocionalmente por dentro. Via corpos vivos habitados por espíritos fatigados.
Por isso suas lágrimas eram escuras.
Não porque amasse a escuridão. Mas porque a escuridão havia aprendido a morar nela.
Ainda assim, havia beleza em sua tragédia. Uma beleza austera. Quase litúrgica. Camille transformava sofrimento em contemplação filosófica. Enquanto muitos endureciam diante das perdas, ela tornava-se mais sensível, mais introspectiva, mais perigosa para si mesma. Certas almas possuem esse destino. Não nasceram para atravessar a vida superficialmente. Vieram para sentir tudo até o último abismo.
E quando a noite caía, Camille permanecia diante da janela observando o mundo como quem esperava algo impossível retornar das sombras. Talvez um amor. Talvez uma vida que nunca viveu. Talvez apenas a parte de si mesma que morreu silenciosamente sem que ninguém percebesse.”
Assim como o orvalho gélido de uma manhã de inverno, a dúvida se instalou em meu coração, fria, silenciosa e com o poder sutil de congelar toda a esperança. O cristal, que parecia belo e puro à primeira vista, era, na verdade, a evidência de uma noite rigorosa que ainda não havia chegado ao fim. Não era um prelúdio de sol, mas a prova de que a vida, por vezes, se detém em sua forma mais dura e intocável.
Se a chuva de inverno promete não durar para sempre, é porque há um ciclo implacável de renovação em curso. A escuridão, embora vasta, é apenas uma ausência temporária, não é preciso ignorá-la, mas usá-la como a tela nítida para o desenho exato da luz que o amanhã trará.
Amar é, por vezes, aceitar o outro como inverno. Sabemos que virá friagem, talvez geada, talvez neve. Mas também há a claridade cortante dos dias limpos. Aceitar é vestir-se de fibra para enfrentar o frio. E ainda assim, entregar-se ao calor raro é risco necessário.
