Ha como eu Queria q ela Soubesse

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"É preciso ter cuidado com as mudanças que desejamos. Há mudanças que mexem profundamente com o passado, destroem o presente e tornam o futuro incerto."
(FURUCUTO, P. D., 2026)

Desde que comecei a estudar e a ensinar Matemática, descobri que há um cálculo que nenhuma fórmula me ensinou a resolver: subtrair as minhas dívidas do meu saldo bancário e, ainda assim, encontrar um número positivo para sobreviver às despesas.
Daniel Perato Furucuto, 2026.

⁠A verdade é flexível. Sempre há outra maneira de contar a mesma história, outro revés para jogar na narrativa.

R. F. Kuang
Impostora. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2024.

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Em tudo há uma pitada de epifania.

"Quando alguém confiar uma amizade a você, agarre, pois há poucas pessoas que têm esse privilégio."


07/05/26

A Arte de Ser Sóbrio


Autocontrole, Clareza Interior e Ética do Ser


Há quem pense que ser sóbrio é viver em negação.


Mas não é.


Ser sóbrio não é viver com menos vida.
É viver com mais presença.


É perceber o que acontece dentro de si antes de simplesmente reagir.
É reconhecer o desejo sem se tornar escravo dele.
É sentir sem precisar fugir.
É escolher sem precisar ser levado pelo impulso.


A vida oferece distrações o tempo inteiro.


Um excesso aqui.
Uma fuga ali.
Uma promessa de alívio imediato.


E então surge aquela voz:


“Só mais um pouco. Você merece.”


Talvez a pergunta mais importante seja outra:


“Eu realmente quero isso ou estou tentando escapar de alguma coisa?”


É nesse pequeno espaço entre o impulso e a escolha que a sobriedade começa.


Não como punição.
Não como privação.
Não como uma guerra contra aquilo que somos.


Mas como liberdade.


Porque autocontrole não é sufocar o que sentimos.


É conseguir ouvir o que sentimos sem entregar a isso o comando da nossa vida.


É respirar antes de responder.
É esperar antes de agir.
É saber quando parar.
É reconhecer quando algo deixou de ser escolha e começou a ser dependência.


Isso exige força.


Mas não uma força rígida.


É uma força serena.


Fogo domado.


A capacidade de permanecer inteiro mesmo quando alguma parte de nós pede excesso.


E talvez seja aí que a chamada pureza vibracional encontre seu verdadeiro significado.


Não como uma ideia de perfeição ou como uma lei invisível que precise ser provada, mas como uma imagem para aquilo que cultivamos dentro de nós.


Pensamentos influenciam atitudes.
Atitudes transformam relações.
Relações transformam ambientes.
Ambientes também nos transformam.


Aquilo que alimentamos interiormente deixa marcas.


Uma palavra pode aproximar.
Outra pode ferir.


Uma emoção pode ser compreendida.
Outra, quando ignorada, pode acabar conduzindo nossas escolhas.


Por isso, cuidar da própria energia também pode significar cuidar daquilo que pensamos, sentimos, consumimos, dizemos e transmitimos.


Pureza não é nunca se contaminar com a vida.


É saber reconhecer o que nos faz bem, o que nos desequilibra e o que precisamos deixar ir.


É cuidado.


É consciência.


É presença.


E existe ainda uma dimensão mais profunda da sobriedade: a ética.


Porque nossas escolhas não terminam em nós.


Aquilo que fazemos pode alcançar outras pessoas.


Por isso, respeitar os próprios limites também significa respeitar os limites do outro.


Não transformar nossa carência em cobrança.
Nossa raiva em agressão.
Nosso medo em controle.
Nossa frustração em ferida para alguém.


Existe uma ética que ninguém vê imediatamente.


Ela está na intenção.
Naquilo que fazemos quando ninguém está olhando.
Na responsabilidade que assumimos pelas consequências de nossas escolhas.


Sobriedade, nesse sentido, não nos torna melhores que ninguém.


Torna-nos mais responsáveis por aquilo que fazemos com aquilo que sentimos.


E talvez um dos excessos mais silenciosos da vida moderna seja justamente a dificuldade de permanecer consigo mesmo.


Estamos sempre procurando alguma coisa para preencher o silêncio.


Mais estímulo.
Mais distração.
Mais velocidade.


Qualquer coisa que nos impeça de parar.


Porque parar exige coragem.


Quando o ruído diminui, podemos encontrar aquilo que tentávamos evitar.


Uma dor.


Uma dúvida.


Uma lembrança.


Mas também podemos encontrar algo que estava escondido por trás de todo aquele ruído:


clareza.


Talvez seja por isso que a sobriedade possa ser entendida como um reencontro.


Não com uma versão perfeita de nós mesmos.


Mas com aquilo que somos quando deixamos de fugir.


Ser sóbrio é poder dizer:


“Eu posso sentir isso sem me perder.”


“Eu posso desejar sem precisar obedecer.”


“Eu posso dizer não.”


E, principalmente:


“Eu posso escolher.”


Porque liberdade não é fazer tudo aquilo que o impulso pede.


Liberdade é ter espaço interior suficiente para decidir.


É escolher aquilo que consumimos.
Aquilo que cultivamos.
Aquilo que falamos.
Aquilo que permitimos permanecer em nossa vida.


É saber que nem todo desejo precisa ser realizado,
nem todo pensamento precisa ser seguido,
nem toda emoção precisa se transformar em ação.


A sobriedade não promete uma vida sem dor.


Promete algo mais honesto:


a possibilidade de atravessar a vida sem precisar fugir de si mesmo.


E talvez seja essa a verdadeira lucidez.


Não chegar ao fim da estrada completamente intocado.


Mas chegar inteiro.


Inteiro depois das escolhas.
Inteiro depois das perdas.
Inteiro depois das tentações.
Inteiro depois dos dias difíceis.


Sem precisar apagar aquilo que sentimos para continuar caminhando.


🌕 Aos que sentem o chamado da lucidez, aproximem-se.


Não é preciso chegar perfeito.


Basta chegar verdadeiro.


Deixem à porta os disfarces, as pressas e aquilo que já não serve.


Aqui, a presença é o vinho.
A escuta é o banquete.
A consciência é a luz.
E a clareza, o altar.


Não se entra neste templo para fugir da vida.


Entra-se para estar mais inteiro dentro dela.


O templo está aberto.


A alma está pronta.


A sobriedade é a chave.

A ONÇA DENTRO DE NÓS


Por: Marco Arawak


Há uma região em nós que não aparece nos espelhos.


É nela que permanecem as lembranças que o tempo não dissolveu, as perguntas que nunca terminamos de formular, os desejos que modificamos para caber nas expectativas alheias e os receios que, silenciosamente, participam de nossas escolhas.


Talvez conhecer essa região seja uma das tarefas mais difíceis da existência.


Porque olhar para dentro não significa simplesmente recordar. Significa interrogar a própria história.


Perguntar de onde vieram nossas certezas, quais experiências moldaram nossas convicções, por que determinadas situações despertam determinadas reações e até que ponto aquilo que chamamos de personalidade é, na verdade, uma construção feita de hábitos, circunstâncias e memórias.


É nesse território que encontramos a nossa autoanamnese.


Uma cartografia interior.


Um retorno às próprias origens para compreender os caminhos que nos trouxeram até aqui.


Quem fui antes de saber quem deveria ser?
O que escolhi por desejo e o que escolhi por necessidade?
Quais partes de mim nasceram de convicções e quais nasceram de adaptações?


Dentro de cada pessoa existe uma natureza que nem sempre se revela.


Há uma força silenciosa que observa antes de agir, percebe antes de responder e reconhece aquilo que muitas vezes tentamos ignorar.


É a onça dentro de nós.


Ela não precisa rugir para existir.


Move-se no silêncio das nossas percepções, atravessa nossas memórias e surge nos momentos em que algo essencial é ameaçado: nossa liberdade, nossos valores, nossos limites ou aquilo que profundamente reconhecemos como parte de nós.


Mas essa onça não representa apenas força.


Ela também representa consciência.


O instinto que observa.


A presença que não se precipita.


A capacidade de permanecer em silêncio antes de escolher um movimento.


Talvez por isso olhar para dentro exija coragem.


Porque podemos descobrir que aquilo que nos perturba nem sempre está no mundo exterior.


Às vezes, está naquilo que ainda não compreendemos em nós mesmos.


Há pensamentos que nos perseguem.


Há medos que condicionam escolhas.


Há padrões que se repetem porque jamais foram examinados.


E há partes de nossa própria história que permanecem à espera de serem reconhecidas.


Nem tudo aquilo que habita em nós precisa nos governar.


Pensar não significa necessariamente estar certo.


Sentir não significa necessariamente obedecer ao sentimento.


Ter medo não significa ser fraco.


E reconhecer uma parte difícil de nós não significa aceitá-la como destino.


A consciência começa justamente quando conseguimos observar aquilo que acontece dentro de nós sem sermos imediatamente dominados por isso.


Somos, ao mesmo tempo, experiência e observador.


Sentimos e podemos refletir sobre o que sentimos.


Pensamos e podemos questionar nossos próprios pensamentos.


Erramos e podemos compreender o erro.


É nessa distância entre o impulso e a escolha que surge uma das formas mais profundas de liberdade.


Também o passado precisa ser contemplado com honestidade.


Não para justificá-lo.


Não para condená-lo.


Mas para compreendê-lo.


A pessoa que fomos não possuía necessariamente os conhecimentos que possuímos hoje. Julgá-la apenas pelos olhos do presente pode transformar aprendizado em culpa.


O passado não pode ser refeito, mas pode ser compreendido.


E quando compreendemos aquilo que vivemos, nossa relação com a própria história começa a mudar.


A autoanamnese atravessa todas as dimensões da existência.


Está na família, onde recebemos histórias, valores e comportamentos que muitas vezes carregamos sem perceber.


Está nas amizades e nos afetos, onde descobrimos como confiamos, como estabelecemos limites e como nos relacionamos com o outro.


Está no conhecimento e no trabalho, onde nossas escolhas revelam aquilo que valorizamos e aquilo que desejamos construir.


Está nos erros, porque toda experiência pode se transformar em aprendizado.


Está nos sonhos, porque nem todo desejo que carregamos nasceu verdadeiramente em nós.


E está no futuro, porque nenhuma transformação consciente acontece sem alguma compreensão de quem somos hoje.


Por isso, talvez a pergunta mais profunda não seja simplesmente:


“Quem sou?”


Mas:


“O que está participando da construção de quem estou me tornando?”


Somos memória, mas não somos somente memória.


Somos consequência, mas também escolha.


Somos herança, mas também transformação.


Somos passado, mas ainda somos possibilidade.


A onça dentro de nós talvez seja essa parte primordial que nos lembra de permanecer atentos à própria existência.


Ela observa.


Espera.


Reconhece.


E nos ensina que força verdadeira nem sempre precisa fazer barulho.


Há momentos em que a maior demonstração de força é permanecer em silêncio.


Há momentos em que é preciso recuar.


Outros em que é necessário avançar.


E existem aqueles em que a verdadeira coragem consiste simplesmente em reconhecer o que acontece dentro de nós.


Conhecer-se não é domesticar a própria natureza.
É aprender a caminhar conscientemente com ela.


Talvez a maturidade seja justamente isso:


olhar para dentro sem medo de encontrar imperfeições;


compreender sem transformar compreensão em desculpa;


reconhecer nossas sombras sem permitir que elas ocupem todo o horizonte;


honrar nossa história sem permanecer prisioneiro dela;


e aceitar que ainda somos capazes de mudar.


A vida não é uma obra concluída.


Somos seres inacabados.


Cada experiência acrescenta uma camada.


Cada encontro desloca alguma perspectiva.


Cada perda modifica alguma medida de valor.


Cada descoberta reorganiza parte daquilo que acreditávamos saber.


Por isso, a autoanamnese não é uma resposta definitiva sobre quem somos.


É uma pergunta que aprendemos a fazer novamente.


De tempos em tempos, precisamos retornar ao silêncio e escutar aquilo que o ruído cotidiano impede de ouvir.


O que em mim é escolha?
O que é hábito?
O que é herança?
O que é medo?
O que é desejo?
E o que, finalmente, começa a ser liberdade?


Talvez a verdadeira autoanamnese seja esse retorno.


Não ao passado.


À consciência.


Entrar na própria floresta.


Reconhecer os rastros.


Perceber os movimentos.


E descobrir que, dentro de nós, existe uma natureza que não precisa ser temida nem negada, mas compreendida.


Porque conhecer a si mesmo não é encontrar uma identidade imóvel.


É perceber o próprio movimento.


É compreender de onde viemos sem nos aprisionarmos à origem.


É reconhecer aquilo que nos constitui sem permitir que isso determine tudo o que ainda podemos ser.


E talvez seja essa a grande lição da onça:


a força que realmente conhece a si mesma não precisa anunciar sua presença.


Ela simplesmente sabe quando observar.


Quando esperar.


Quando avançar.


E, sobretudo,


quando permanecer em silêncio.


Marco Arawak

A ONÇA DENTRO DE NÓS

Por: Marco Arawak

Há em cada ser humano uma região que não se revela inteiramente à própria consciência. É uma zona anterior às palavras, onde permanecem impressões que não sabemos quando adquirimos, medos que não lembramos ter aprendido, desejos cuja origem confundimos com liberdade e respostas que surgem em nós antes mesmo que tenhamos tempo de perguntar por quê.

Passamos a vida habitando esse território e, paradoxalmente, podemos permanecer estrangeiros dentro de nós mesmos.

Talvez uma das maiores ilusões humanas seja imaginar que nos conhecemos simplesmente porque carregamos conosco, desde sempre, o próprio nome, a própria história e a própria memória. Saber quem somos não é o mesmo que saber de onde vieram as forças que nos constituíram. Há uma diferença profunda entre ser e ter aprendido a ser. Entre aquilo que verdadeiramente escolhemos e aquilo que incorporamos para sobreviver, pertencer, agradar, proteger-nos ou simplesmente continuar caminhando.

A autoanamnese começa quando essa diferença deixa de ser uma abstração e transforma-se em pergunta.

Quem sou eu por trás daquilo que aprendi a ser?

Que parte das minhas convicções nasceu de uma escolha consciente e que parte delas foi herdada, absorvida, imposta ou construída como defesa? Quantas das minhas certezas resistiriam se eu tivesse coragem de investigar sua origem? E quantas das minhas reações pertencem realmente ao presente, quando talvez sejam apenas ecos de acontecimentos que o tempo levou, mas que a consciência ainda não elaborou?

É nesse ponto que entramos no território mais delicado da existência: o encontro entre aquilo que sentimos e aquilo que pensamos.

Antes de existir uma ideia, muitas vezes existe uma sensação. Antes de formularmos um julgamento, alguma coisa em nós já se aproximou ou recuou. O corpo percebe, a memória associa, o instinto responde. Só depois a razão chega, procurando compreender o acontecimento e, não raro, construir uma explicação para algo que já começou a nos mover.

O instinto possui uma inteligência própria. Ele não argumenta; reconhece. Não constrói teorias; responde a sinais. É a herança silenciosa de incontáveis experiências acumuladas no corpo e na memória, uma forma de percepção que frequentemente alcança o perigo, a oportunidade ou a mudança antes que a linguagem consiga traduzi-los.

É nesse sentido que a imagem da onça encontra sua força.

Ela não representa simplesmente a ferocidade que carregamos, tampouco uma natureza selvagem que precisaria ser vencida pela civilização. Representa uma dimensão primordial da existência: aquilo que percebe antes de explicar, que reage antes de justificar, que conhece determinados caminhos sem precisar transformá-los imediatamente em conceitos.

Mas justamente por possuir essa força, o instinto não pode ser confundido com verdade.

Aquilo que sentimos com intensidade não se torna verdadeiro apenas porque foi intenso. O medo pode ser um excelente guardião e, em determinadas circunstâncias, um péssimo intérprete. Uma experiência passada pode ensinar prudência, mas também pode deformar nossa percepção do presente. Uma ferida antiga pode continuar reagindo a acontecimentos que já não possuem a mesma natureza.

É nesse instante que a razão se torna necessária.

Não para destruir o instinto, mas para conversar com ele.

A verdadeira razão talvez não seja aquela que procura calar tudo aquilo que não consegue explicar, mas aquela que possui coragem suficiente para perguntar ao próprio impulso o que ele está tentando dizer. De onde veio esse medo? O que exatamente estou tentando proteger? Por que essa situação me ameaça tanto? Estou respondendo ao que está diante de mim ou ao que alguma experiência anterior me ensinou a esperar?

A pergunta inaugura uma distância.

E nessa distância começa a consciência.

Existe uma diferença decisiva entre sentir medo e ser governado pelo medo; entre sentir raiva e tornar-se instrumento dela; entre desejar alguma coisa e acreditar que todo desejo precisa transformar-se em ação. O impulso pode surgir sem nossa autorização. A escolha, porém, pode nascer justamente daquilo que fazemos depois de reconhecê-lo.

Talvez a liberdade humana resida nesse intervalo quase imperceptível entre o estímulo e a resposta.

É um espaço pequeno, mas nele cabe uma existência inteira.

Ali podemos interromper a automatização da própria vida. Podemos observar aquilo que se levanta dentro de nós sem imediatamente obedecer. Podemos reconhecer o impulso sem confundi-lo com destino. E, sobretudo, podemos descobrir que consciência não significa ausência de forças interiores, mas capacidade de estabelecer uma relação lúcida com elas.

Por isso, a maturidade não consiste em fazer com que a razão esteja sempre à frente do instinto. Seria uma pretensão impossível. Existem momentos em que o corpo saberá antes da mente; existem percepções que chegam sem pedir licença; existem respostas que pertencem a uma camada tão profunda da experiência que nenhum raciocínio poderia substituí-las inteiramente.

A maturidade está em aprender a voltar ao impulso.

Olhar novamente.

Interrogá-lo.

Compreendê-lo.

E então decidir.

A razão, quando verdadeiramente amadurece, deixa de ser uma tirana que pretende governar todos os movimentos interiores e passa a ser uma consciência de direção. Ela não elimina a espontaneidade; oferece-lhe contexto. Não destrói o desejo; investiga sua origem. Não nega o medo; procura distinguir proteção de aprisionamento.

Porque também a razão pode servir àquilo que deseja combater.

Podemos construir argumentos brilhantes para justificar escolhas que já havíamos decidido fazer. Podemos transformar orgulho em princípio, ressentimento em justiça, medo em prudência e conveniência em convicção. O pensamento, quando utilizado apenas para justificar aquilo que já queremos acreditar, deixa de ser instrumento de compreensão e torna-se advogado de nossas próprias ilusões.

Pensar muito não significa compreender profundamente.

Às vezes, pensar é apenas encontrar palavras sofisticadas para não olhar aquilo que nos incomoda.

A autoanamnese interrompe esse mecanismo porque nos obriga a retornar à origem. Ao revisitarmos nossa própria história, percebemos que quase nenhuma reação é absolutamente isolada. Há uma genealogia dos nossos medos, dos nossos desejos, das nossas recusas e até das nossas certezas. Aquilo que chamávamos simplesmente de personalidade pode conter antigas estratégias de proteção. Aquilo que interpretávamos como intuição pode carregar experiências mal elaboradas. Aquilo que acreditávamos ser uma escolha pode ter sido, em algum momento, apenas a alternativa que encontramos para continuar pertencendo.

Conhecer-se, então, não é acrescentar definições ao próprio nome.

É retirar camadas.

É distinguir a voz da experiência da voz do condicionamento. É reconhecer aquilo que herdamos sem necessariamente precisar perpetuá-lo. É compreender que algumas respostas foram úteis para quem fomos, mas talvez já não sejam necessárias para quem estamos nos tornando.

O passado não pode ser refeito.

Mas pode ser compreendido.

E existe uma diferença extraordinária entre essas duas coisas.

Compreender o passado não significa absolvê-lo de tudo nem transformar nossas escolhas anteriores em algo justificável. Significa devolvê-las ao contexto em que aconteceram. A pessoa que fomos possuía os conhecimentos, os medos, os recursos e as limitações daquele momento. Julgá-la exclusivamente com a consciência que adquirimos depois pode produzir culpa onde deveria existir aprendizado.

A memória, quando examinada com honestidade, deixa de ser apenas arquivo e transforma-se em matéria-prima para a consciência.

É assim que o instinto começa a mudar de estatuto dentro de nós.

Ele deixa de ser uma ordem.

Torna-se informação.

Essa talvez seja uma das maiores transformações produzidas pelo autoconhecimento. Não precisamos deixar de sentir; precisamos compreender o que sentimos. Não precisamos eliminar o impulso; precisamos impedir que ele permaneça invisível. Não precisamos expulsar a onça de dentro de nós; precisamos conhecê-la suficientemente para compreender quando sua força está protegendo nossa existência e quando está apenas repetindo uma ameaça que já não existe.

A razão, nesse encontro, não reina sobre o instinto como um soberano sobre um súdito. Ambos participam de uma realidade mais ampla.

O instinto nos ancora no presente imediato. A razão introduz distância. O instinto reconhece sinais; a razão compara possibilidades. O instinto percebe urgências; a razão considera consequências. Um nos aproxima da realidade concreta do momento; o outro nos permite imaginar aquilo que ainda não aconteceu.

Entre os dois nasce o discernimento.

E discernir talvez seja uma das formas mais elevadas de liberdade.

Nem todo medo merece obediência. Nem todo desejo exige satisfação. Nem toda provocação necessita de resposta. Nem toda oportunidade precisa ser perseguida. Nem toda certeza merece permanecer intacta.

A verdadeira força talvez não esteja em reagir com maior intensidade, mas em possuir liberdade suficiente para escolher quando reagir e quando não fazê-lo.

É por isso que dominar a si mesmo não deveria significar dominar a própria natureza. Uma natureza reprimida não se torna necessariamente uma natureza integrada; muitas vezes apenas aprende a esconder-se. Aquilo que negamos não desaparece. Pode mudar de forma, encontrar outras saídas, reaparecer em comportamentos que já não reconhecemos como seus.

A integração é mais difícil do que a repressão porque exige conhecimento.

Exige olhar para dentro sem transformar cada descoberta em condenação.

Exige reconhecer nossa agressividade sem glorificá-la; nossa fragilidade sem envergonhar-nos dela; nossos desejos sem transformá-los automaticamente em direitos; nossos medos sem permitir que eles decidam por nós.

Talvez seja esse o verdadeiro significado da onça dentro de nós.

Não um monstro a ser derrotado.

Não uma força a ser adorada.

Mas uma dimensão da própria natureza humana que precisa ser reconhecida, compreendida e integrada.

A onça não pergunta quem somos. Ela simplesmente existe.

Nós é que precisamos perguntar o que fazemos com aquilo que existe em nós.

E essa pergunta nos devolve à autoanamnese.

Porque investigar a própria história é perceber que somos feitos de camadas: memória e esquecimento, herança e ruptura, instinto e reflexão, necessidade e escolha. Somos consequência de acontecimentos que não escolhemos, mas também somos responsáveis pela maneira como continuamos a interpretá-los.

Não somos autores de tudo aquilo que nos aconteceu.

Mas podemos tornar-nos autores daquilo que fazemos com o que nos aconteceu.

Talvez essa seja a fronteira mais profunda entre condicionamento e liberdade.

Não escolhemos todos os impulsos que surgem.

Não escolhemos todas as marcas que recebemos.

Não escolhemos o primeiro movimento da consciência.

Mas podemos, pouco a pouco, aprender a escolher o segundo.

E talvez seja justamente nesse segundo movimento que comece a verdadeira autoria de uma vida.

Entre a sensação e o significado.

Entre o impulso e a decisão.

Entre aquilo que fomos ensinados a temer e aquilo que finalmente compreendemos.

Entre a onça que reage e o ser humano que observa sua própria reação.

É nesse intervalo que a existência deixa de ser apenas acontecimento e começa a tornar-se consciência.

Talvez conhecer a si mesmo nunca signifique chegar a uma resposta definitiva. Somos seres inacabados, atravessados continuamente por experiências que reorganizam nossa percepção, deslocam nossas certezas e revelam aspectos de nós que antes permaneciam ocultos. A identidade não é uma estátua concluída; é uma construção em movimento.

Por isso, a pergunta mais profunda talvez não seja apenas “quem sou?”, mas:

“O que, dentro de mim, está participando da construção de quem estou me tornando?”

Essa pergunta exige coragem porque retira de nós a comodidade de sermos apenas espectadores da própria história.

Ela nos devolve responsabilidade.

E, com a responsabilidade, a possibilidade de transformação.

A onça continuará dentro de nós. O instinto continuará surgindo antes de muitas explicações. A razão continuará tentando compreender aquilo que a experiência apresenta. O passado continuará deixando rastros. Nada disso precisa ser eliminado.

O que pode mudar é a relação que estabelecemos com tudo isso.

Quando aprendemos a reconhecer o impulso sem nos tornarmos seu instrumento, a memória sem sermos prisioneiros dela, a razão sem transformá-la em máscara e a própria natureza sem precisar negá-la, alguma coisa essencial se modifica.

Já não somos apenas aquilo que nos atravessou.

Começamos a participar conscientemente daquilo que nos tornamos.

E talvez seja essa a forma mais profunda de liberdade: não a liberdade de deixar de possuir uma natureza, mas a liberdade de conhecê-la; não a liberdade de nunca sentir medo, desejo ou raiva, mas a liberdade de não entregar automaticamente a eles o governo de nossa existência.

A onça permanece.

Mas agora sabemos que ela está dentro de nós.

E saber disso muda a maneira como caminhamos pela floresta.

Marco Arawak

Angústia


Há uma estranha beleza na noite ! Há uma estranha beleza !
Oh, a transcendente poesia
que verso algum traduz...

A via-láctea, inteiramente acesa
parece a fotografia
de um tufão de luz !

- Quem seria,
quem seria
que pregou lá no céu aquela imensa cruz?

Que infinita serenidade...
Que infinita serenidade misteriosa
nesse infinito azul dos céus e em tudo mais:
nos telhados, nas ruas, na cidade...

( Só os gatos gritam na noite silenciosa
sensualíssimos ais !)

Meu Deus, que noite calma... E aquela trepadeira
feminina e ligeira
veio abrir bem na minha janela
uma flor - como uma boca rubra e bela
que não terei...

- E ainda sinto nos lábios um travo nauseante
do amor que faz bem pouco, há apenas um instante,
paguei...

E o céu azul assim... E essa serenidade!
Silêncio- A noite, o luar ... Tão claro o luar lá fora...
Juraria que há alguém, não sei onde que chora...

Oh, a angústia invencível que me prostra
invade
e me devorar ...

Sinto uma vontade desesperadora de nadar até o fundo do mar. Há algo assustadoramente confortável nesse sentimento, e talvez seja isso o que mais dói em meu peito. Carrego um sentimento sem nome, sem direção, sem origem aparente. Não sei para onde apontar, por onde começar ou o que dizer. Só sei que estou cansada de lutar contra algo que nem consigo explicar.
É uma agonia enorme que sorri e me impede de continuar, mas eu sigo em frente, vivendo dessa forma monótona e consciente de que, muitas vezes, o arrependimento de não explorar esse mar é menor do que deixar-me afogar.

⁠Desabafo de um orelhão
Tudo começou quando fui criado e instalados nas ruas da cidade
Há foi muito lindo eu era útil e todos me procuravam, também eu era jovem e bonito e um excelente ouvinte.
Fui portador de notícias, diminui as distancias, espalhei a voz ao mundo.
Transmiti notícias boas e outras nem tão boas assim.
Foram, milhares de vezes “Mamãe nasceu, nós ganhamos, deu tudo certo e assim vai” porem teve também as notícias tristes nos quais chorei junto “sou muito sentimental”
Foi um tempo feliz e eu era alimentado por moedinhas que todos chamavam de fichas, e assim podiam conversar por três minutos e era sempre uma emoção.
Os tempos foram mudando e começaram a colocar papel ao invés de moedinhas, mas tudo ainda era maravilhoso, mas o tempo sempre cruel, continuou passando e eu fui ficando velho e obsoleto.
Hoje já quase não me encontram nas ruas, perdi meu glamour, perdi minha utilidade.
Meu tempo está acabando só tenho noventa segundos, queria muito me despedir de você,
Queria falar adeus e dizer o quanto eu... TU,TU,TU,TU,TU,TU,TU,TU...

Há uma estranha lealdade em morder a mão que te afaga e beijar os pés de quem te rasteja pelo chão

Há situações que iremos enfrentar em que não adianta apenas jejuar ou orar para que elas não aconteçam — elas fazem parte do propósito de Deus. José foi parar na prisão acusado injustamente, e Daniel foi lançado na cova dos leões justamente por orar. Mas em cada uma dessas situações, Deus foi glorificado, pois “sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28)

Se você foi boa companhia e conselhos enquanto recebeu apenas injuria, não há por que se magoar ou vingar, apenas se afastar e deixar sucumbir na própria ignorância deve ser mais que o suficientepois, é típico dos tolos considerar a voz do bom conselheiro como algo que lhes priva da liberdade.

⁠CORAÇÕES SELVAGENS FLAMEJANTES

Há um coração selvagem
no peito de quem enfrenta
um tanque de guerra,
apenas com uma flor...
Um coração de amor...
No peito do poeta e do navegador
Em quem sabe viver
e vive bonito?!
Em quem sabe sangrar
e sangra bonito?!
Em quem não desiste jamais
e não entrega a luta!
Há um coração de fogo
em quem sonha
e ousa ser quem é na essência!
Há um coração de fogo
em quem sonha um mundo melhor
Há um coração de fogo
em quem sonha de verdade
o seu sonho improvável...
Em quem ama o mundo
mas diz NÃO
a podridão do mundo
Esta podridão mesma que impede um poeta de acontecer-cantar!...
Há um coração de fogo
no peito de quem dança
e descobre
que A VIDA DANÇA!
Há um coração de fogo
no peito de quem samba-chora,
Ri e não se entrega!
“E faz da dor seu carnaval!”
..................................
Coração de Fogo
Celebrador!
Rasga o peito
Tambor da Vida!
Tambor do Tempo...
Renasce
Ama
Acima de tudo a TUA verdade!
Acima de tudo
...Tu és eterno!...
Coração da Terra...
Coração de Deus...
O Universo nasceu
de ti!
Trespassado
pela lança do soldado
Três vezes negado!
Coração Sagrado!
Imaculado Coração de Mulher
Mordido
por leões violentos
Sete Vezes
...Coração Sagrado!
Mil vezes
Coroado
Coração do Menino Deus!
Verso base:
Coração...
Teu segredo é conter TUDO
Dentro de ti
O mundo
O Paraíso!
 

Há relativismo também no prazer... Tem gente que gosta até de bater com a cabeça na parede.

A morte nos abala porque somos emotivos... Mas a vida é efêmera... e há nela algo bem maior que nossos laços afetivos... Conceber isso é difícil, mas há que ser considerado com maturidade, e a profundidade necessária.

Fascinante


No amor, há sempre uma saudade,
Estando perto ou muito distante,
Sempre transformando em prioridade,
Fazendo o improvável acontecer.

Quem realmente conhece o amor,
Não consegue se quer resistir,
Mesmo que quebre o encanto,
Não acredito que tente fugir.

Talvez não queira entender,
O frenético balé dos movimentos,
Sem respeitar passos e treinamentos,
Desenvolvidos por um sentimento.

Consegue burlar regras e normas,
Fazendo-as totalmente inexistentes,
Numa constante tentativa de vencer,
Na busca incessante do prazer.

Não há distância que possa impedir,
Não há ausência que consiga afastar,
Nada pode a sua imagem denegrir,
Nem um verdadeiro amor se desgastar.

O amor é mesmo assim,
Sempre com a saudade a caminhar,
Independente da distância a percorrer,
Consegue o nosso pensamento mudar,
Sem se quer nos entristecer.

Du’Art 18 / 06 / 2017

Flores são belas... Há Deus nelas...

"Onde Cristo habita, não há espaço para o rancor ou o ódio. Sua presença é manifesta por meio do amor, da paz e da alegria."