A ONÇA DENTRO DE NÓS Por: Marco Arawak... Marco A Moreira Cardoso...
A ONÇA DENTRO DE NÓS
Por: Marco Arawak
Há uma região em nós que não aparece nos espelhos.
É nela que permanecem as lembranças que o tempo não dissolveu, as perguntas que nunca terminamos de formular, os desejos que modificamos para caber nas expectativas alheias e os receios que, silenciosamente, participam de nossas escolhas.
Talvez conhecer essa região seja uma das tarefas mais difíceis da existência.
Porque olhar para dentro não significa simplesmente recordar. Significa interrogar a própria história.
Perguntar de onde vieram nossas certezas, quais experiências moldaram nossas convicções, por que determinadas situações despertam determinadas reações e até que ponto aquilo que chamamos de personalidade é, na verdade, uma construção feita de hábitos, circunstâncias e memórias.
É nesse território que encontramos a nossa autoanamnese.
Uma cartografia interior.
Um retorno às próprias origens para compreender os caminhos que nos trouxeram até aqui.
Quem fui antes de saber quem deveria ser?
O que escolhi por desejo e o que escolhi por necessidade?
Quais partes de mim nasceram de convicções e quais nasceram de adaptações?
Dentro de cada pessoa existe uma natureza que nem sempre se revela.
Há uma força silenciosa que observa antes de agir, percebe antes de responder e reconhece aquilo que muitas vezes tentamos ignorar.
É a onça dentro de nós.
Ela não precisa rugir para existir.
Move-se no silêncio das nossas percepções, atravessa nossas memórias e surge nos momentos em que algo essencial é ameaçado: nossa liberdade, nossos valores, nossos limites ou aquilo que profundamente reconhecemos como parte de nós.
Mas essa onça não representa apenas força.
Ela também representa consciência.
O instinto que observa.
A presença que não se precipita.
A capacidade de permanecer em silêncio antes de escolher um movimento.
Talvez por isso olhar para dentro exija coragem.
Porque podemos descobrir que aquilo que nos perturba nem sempre está no mundo exterior.
Às vezes, está naquilo que ainda não compreendemos em nós mesmos.
Há pensamentos que nos perseguem.
Há medos que condicionam escolhas.
Há padrões que se repetem porque jamais foram examinados.
E há partes de nossa própria história que permanecem à espera de serem reconhecidas.
Nem tudo aquilo que habita em nós precisa nos governar.
Pensar não significa necessariamente estar certo.
Sentir não significa necessariamente obedecer ao sentimento.
Ter medo não significa ser fraco.
E reconhecer uma parte difícil de nós não significa aceitá-la como destino.
A consciência começa justamente quando conseguimos observar aquilo que acontece dentro de nós sem sermos imediatamente dominados por isso.
Somos, ao mesmo tempo, experiência e observador.
Sentimos e podemos refletir sobre o que sentimos.
Pensamos e podemos questionar nossos próprios pensamentos.
Erramos e podemos compreender o erro.
É nessa distância entre o impulso e a escolha que surge uma das formas mais profundas de liberdade.
Também o passado precisa ser contemplado com honestidade.
Não para justificá-lo.
Não para condená-lo.
Mas para compreendê-lo.
A pessoa que fomos não possuía necessariamente os conhecimentos que possuímos hoje. Julgá-la apenas pelos olhos do presente pode transformar aprendizado em culpa.
O passado não pode ser refeito, mas pode ser compreendido.
E quando compreendemos aquilo que vivemos, nossa relação com a própria história começa a mudar.
A autoanamnese atravessa todas as dimensões da existência.
Está na família, onde recebemos histórias, valores e comportamentos que muitas vezes carregamos sem perceber.
Está nas amizades e nos afetos, onde descobrimos como confiamos, como estabelecemos limites e como nos relacionamos com o outro.
Está no conhecimento e no trabalho, onde nossas escolhas revelam aquilo que valorizamos e aquilo que desejamos construir.
Está nos erros, porque toda experiência pode se transformar em aprendizado.
Está nos sonhos, porque nem todo desejo que carregamos nasceu verdadeiramente em nós.
E está no futuro, porque nenhuma transformação consciente acontece sem alguma compreensão de quem somos hoje.
Por isso, talvez a pergunta mais profunda não seja simplesmente:
“Quem sou?”
Mas:
“O que está participando da construção de quem estou me tornando?”
Somos memória, mas não somos somente memória.
Somos consequência, mas também escolha.
Somos herança, mas também transformação.
Somos passado, mas ainda somos possibilidade.
A onça dentro de nós talvez seja essa parte primordial que nos lembra de permanecer atentos à própria existência.
Ela observa.
Espera.
Reconhece.
E nos ensina que força verdadeira nem sempre precisa fazer barulho.
Há momentos em que a maior demonstração de força é permanecer em silêncio.
Há momentos em que é preciso recuar.
Outros em que é necessário avançar.
E existem aqueles em que a verdadeira coragem consiste simplesmente em reconhecer o que acontece dentro de nós.
Conhecer-se não é domesticar a própria natureza.
É aprender a caminhar conscientemente com ela.
Talvez a maturidade seja justamente isso:
olhar para dentro sem medo de encontrar imperfeições;
compreender sem transformar compreensão em desculpa;
reconhecer nossas sombras sem permitir que elas ocupem todo o horizonte;
honrar nossa história sem permanecer prisioneiro dela;
e aceitar que ainda somos capazes de mudar.
A vida não é uma obra concluída.
Somos seres inacabados.
Cada experiência acrescenta uma camada.
Cada encontro desloca alguma perspectiva.
Cada perda modifica alguma medida de valor.
Cada descoberta reorganiza parte daquilo que acreditávamos saber.
Por isso, a autoanamnese não é uma resposta definitiva sobre quem somos.
É uma pergunta que aprendemos a fazer novamente.
De tempos em tempos, precisamos retornar ao silêncio e escutar aquilo que o ruído cotidiano impede de ouvir.
O que em mim é escolha?
O que é hábito?
O que é herança?
O que é medo?
O que é desejo?
E o que, finalmente, começa a ser liberdade?
Talvez a verdadeira autoanamnese seja esse retorno.
Não ao passado.
À consciência.
Entrar na própria floresta.
Reconhecer os rastros.
Perceber os movimentos.
E descobrir que, dentro de nós, existe uma natureza que não precisa ser temida nem negada, mas compreendida.
Porque conhecer a si mesmo não é encontrar uma identidade imóvel.
É perceber o próprio movimento.
É compreender de onde viemos sem nos aprisionarmos à origem.
É reconhecer aquilo que nos constitui sem permitir que isso determine tudo o que ainda podemos ser.
E talvez seja essa a grande lição da onça:
a força que realmente conhece a si mesma não precisa anunciar sua presença.
Ela simplesmente sabe quando observar.
Quando esperar.
Quando avançar.
E, sobretudo,
quando permanecer em silêncio.
Marco Arawak
