Estupidez
Alegar que estamos numa ditadura, enquanto manifestam contra a democracia, só equipara a estupidez dos manipuladores à dos manipuláveis.
Quando a justiça faz valer normas a uniformizar o comportamento do povo, ela ultrapassa os limites da estupidez.
Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, ás vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vomito para aliviar a vontade de vomitar.
Um dos meus passeios predilectos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas ruas fora, antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de frases que os grupos de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam cair, como esmolas da ironia, na escola invisível da minha meditação aberta.
E é sempre a mesma sucessão das mesmas frases... «E então ela disse...» e o tom diz da intriga dela. «Se não foi ele, foste tu...» e a voz que responde ergue-se no protesto que já não oiço. «Disseste, sim senhor, disseste...» e a voz da costureira afirma estridentemente «minha mãe diz que não quer...» «Eu?» e o pasmo do rapaz que traz o lanche embrulhado em papel-manteiga não me convence, nem deve convencer a loura suja. «Se calhar era...» e o riso de três das quatro raparigas cerca do meu ouvido a obscenidade que (...) «E então pus-me mesmo dia nte do gajo, e ali mesmo na cara dele — na cara dele, hem, ó Zé...» e o pobre diabo mente, pois o chefe do escritório — sei pela voz que o outro contendor era chefe do escritório que desconheço — não lhe recebeu na arena entre as secretárias o gesto de gladiador de palhinhas [?] «... E então eu fui fumar para a retrete...» ri o pequeno de fundilhos escuros.
Outros, que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não oiço, mas as vozes todas são-me claras por uma transparência intuitiva e rota. Não ouso dizer — não ouso dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo o cortasse — o que tenho visto nos olhares casuais, na sua direcção involuntária e baixa, nos seus atravessamentos sujos. Não ouso porque, quando se provoca o vómito, é preciso provocar um.
«O gajo estava tão grosso que nem via a escada.» Ergo a cabeça. Este rapazote, ao menos descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente, porque por descrever esquece-se de si. Passa-me a náusea. Vejo o gajo. Vejo-o fotograficamente. Até o calão inocente me anima. Bendito ar que me dá na fronte — o gajo tão grosso que nem via que era de degraus a escada — talvez a escada onde a humanidade sobe aos tombos, apalpando-se e atropelando-se na falsidade regrada do declive aquém do saguão.
A intriga a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da inimportância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desenhos, dos restos trincados das sensações.
Não se confunda o imbecil com o boçal. Imbecilidade é inteligência em proporção mínima, enquanto se pode ter pessoas tão inteligentes quanto boçais na mesma proporção. Boçalidade é quando o indivíduo exibe tão arrogante, estúpida e grosseiramente valores típicos de um imbecil que não deixa dúvidas de que os entende como a melhor de suas qualidades.
Os reativos, sanguíneos, só demonstram a sua falta de razão. Sem argumentos, rasos e irritados, GRITAM feito animais na nova selva, a petrificada, mostrando seus dentes tortos, olhos arregalados e dedos em riste.
Um dia pretendo tentar descobrir porque o pensamento individual é inteligente e o coletivo é estúpido, analisada individualmente toda pessoa parece ser de fato inteligente, porém, o que resulta das decisões coletivas geralmente são reflexos de um mar de estupidez.
Se há um direito natural incontestável e cujo exercício indiscriminado se amplia pari passu à chamada emancipação do homem moderno, é o direito de fazer coisas estúpidas.
"Sinto-me estúpido ao me próprio contrariar, pois não há como discutir com minha condenadora mente racional sem que me próprio comprometa, afinal, sou eu mesmo falando mal de mim mesmo; como poderei ofendê-la sem sair ofendido? É uma briga que é melhor esquecer e seguir o conselho dado por ela do que fazer algo ainda mais estúpido: Ofender a mim mesmo em troco de nada."
Ainda ouço longe o toque do amor. Os acordes harmoniosos da sua presença se contradizem com a estupidez da sua ausência. Toda ausência é burra, quando as atitudes não combinam com a vontade. Mas a gente continua buscando o tempo, falando com a solidão, maltratando o coração. E o violão quebra a corda, o piano desafina, a sinfonia perde o ritmo e o maestro se despede; fecham-se as cortinas. O som se cala e o amor chora. Nada mais ouço além do som da partida. Nada mais vejo além de palco vazio, de uma vida sem música.
Quando se é intelectualmente limitado, a única opção é atacar o que não tem capacidade de entender. Essa é o lema dos idiotocratas.
Quão mau são os homens. Breves viventes, efêmeros de sentimento, imprecisos no sintoma da existência e nas escolhas do que viver. Feitos de ideologias e princípios vãos, criados por sua estupidez, desilusões e frustrações que os faz achar de tudo um pouco saber. Indiferentes a si mesmos e ensimesmados, perambulam escravizados pela corrente do supor. Por extrema ignorância, aclamam a si mesmos como deveras libertados, mas para não serem julgados se igualam aos demais. Seus sorrisos hipócritas e amarelos de inocentes, já comportam opaca a clareza do reflexo que os oprimiram a serem tão decadentes. São todos iguais.
Às vezes fico boquiaberto e não sei donde fluem, à quantas andam certas ideias e loucuras que fazem moradas nas interconexões dos meus míseros neurônios desconhecidos. Para mim, espanto, para outros, estupidez!
Quando ouço palavras estúpidas saindo da boca de gente inteligente, me espanto, mas quando da boca de gente estúpida, saem tais palavras, fazer o quê? Estão apenas cumprindo sua missão e tarefa!
“ Até na bondade deve haver equilíbrio e limite na tolerância, sou boa, mas devo defender a verdade e não ser estupida e se usada por minha qualidade e quantidade de generosidade. Bondade sim, mas estupidez jamais! "
...agora me visto e saio, vou visitar o professor e troco com ele algumas frases amáveis, mais ou menos falsas, tudo isso contra a minha vontade, assim procede a maioria dos homens que vivem e negociam todos os dias, todas as horas, forçadamente e sem na realidade querê-lo; fazem visitas, mantêm conversações, sentam-se durante horas inteiras em seus escritórios e fábricas, tudo à força, mecanicamente, sem vontade; tudo poderia ser realizado com a mesma perfeição por máquinas ou não se realizar; e essa mecânica eternamente continuada é o que lhes impede, assim como a mim, de exercer a crítica à sua própria visa, reconhecer e sentir sua estupidez e superficialidade, sua desesperada tristeza e solidão. E têm razão, muitíssima razão, os homens que assim vivem, que se divertem com seus brinquedinhos, que correm atrás de seus assuntos, em vez de se oporem à mecânica aflitiva e olharem desesperados o vazio, como faço eu, homem marginalizado que sou.
(O Lobo da Estepe)
