Escolhi
A Água que Escolhi Dividir
Um dia me empurraram para o fundo de um poço.
Escuro. Frio. Silencioso.
Ali eu conheci a dor pelo nome,
a solidão pelo abraço,
e as lágrimas pelo sabor.
Quem me feriu foi embora,
acreditando que ali seria o meu fim.
Mas Deus desceu onde ninguém desceria.
Sentou-se ao meu lado no silêncio,
secou minhas lágrimas,
fortaleceu meus braços
e me ensinou a subir.
Cada pedra virou um degrau.
Cada cicatriz virou força.
Até que um dia eu alcancei a luz.
Lá de cima descobri algo precioso:
quem já conheceu a sede
aprende a encontrar água.
Passei a tirar água do poço
para matar a sede de quem chegava cansado,
ferido, sem esperança.
Então a vida me surpreendeu.
No caminho encontrei justamente quem havia me lançado naquele abismo.
Desta vez, porém, era ela quem estava fraca.
Era ela quem tinha sede.
Era ela quem estendia as mãos.
Eu poderia ter lembrado de tudo.
Poderia ter dito:
“Agora é a sua vez.”
Muitos esperavam isso de mim.
Mas havia algo maior dentro do meu coração.
Porque Deus nunca me deu água
para que eu escolhesse quem merece beber.
Ele me deu água
para que eu nunca esquecesse de onde Ele me tirou.
Então estendi minhas mãos.
Dividi a água que eu tinha.
Ajudei quem um dia me abandonou.
Não porque a dor não existiu.
Não porque esqueci as feridas.
Mas porque o amor de Deus foi maior do que elas.
O perdão não muda o passado.
Mas muda completamente quem escolhe perdoar.
No fim, compreendi que o maior milagre não foi sair do poço.
Foi não deixar que o poço permanecesse dentro de mim.
Cada um tem seus objetivos. Uns escolhem o conforto, outros escolhem o progresso.
Eu escolhi evoluir. E, se para isso eu precisar sacrificar alguns vícios bobos e prazeres momentâneos, que seja.
Porque o preço da disciplina sempre será menor do que o preço do arrependimento. O progresso exige escolhas, e eu já decidi as minhas.
Depois que eu escolhi abrir diversos portais do conhecimento tenho voado alto, tenho alcançado o que antes imaginaria levar vidas para viver.
Aos 31 — A Vida que Escolhi Viver
Trinta e um anos.
Talvez a vida não seja uma linha reta,
mas uma coleção de caminhos
que só fazem sentido quando olhamos para trás.
Nasci pequeno demais para entender o mundo,
e tive a sorte de encontrar, muito cedo,
um lar onde aprendi que família
é, acima de tudo, presença, cuidado e amor.
Meus pais me deram mais que um sobrenome,
me deram raízes.
Meus irmãos me deram histórias,
brigas, risadas, cumplicidades
e aquela bagunça bonita
que só existe onde existe pertencimento.
E foi ali, entre eles,
que comecei a descobrir quem eu poderia ser.
Depois a vida me levou para longe daquele começo.
Vieram responsabilidades,
trabalho, escolhas, erros, acertos,
dias em que fui forte
e outros em que apenas continuei.
Vieram amores.
Vieram despedidas.
Vieram recomeços.
E, no meio de tudo isso,
a vida me confiou o maior dos títulos:
pai.
Hoje existem dois pequenos corações
que fazem o futuro deixar de ser apenas meu.
Por eles, compreendi que crescer
não é simplesmente envelhecer.
É aprender a carregar responsabilidades
sem perder a capacidade de sonhar.
É descobrir que força
não está em nunca cair,
mas em levantar sabendo
que alguém pode estar olhando para nós
e aprendendo com a maneira como levantamos.
Aos 31,
não sou exatamente o homem
que imaginei que seria.
E talvez isso seja uma coisa boa.
Sou feito das pessoas que encontrei,
das que permaneceram,
das que partiram,
das escolhas que deram certo
e principalmente das que me obrigaram
a aprender.
Sou feito da terra onde cresci,
das estradas que percorri,
do trabalho que me ensinou disciplina,
das responsabilidades que me fizeram amadurecer
e dos sonhos que ainda insistem em existir.
Tenho cicatrizes que ninguém vê
e histórias que poucos conhecem.
Mas também tenho motivos para agradecer
que nenhum passado consegue apagar.
Tenho uma família que escolheu me amar
e que me ensinou que pertencimento
não depende de origem,
mas de presença.
Tenho irmãos com quem compartilho
uma parte da mesma história.
Tenho filhos que me mostram, todos os dias,
que o futuro merece ser construído.
E tenho diante de mim
uma estrada que ainda não terminou.
Por isso, aos 31,
não quero pedir que a vida seja perfeita.
Quero continuar tendo coragem
para atravessá-la quando não for.
Quero continuar aprendendo.
Quero continuar amando.
Quero ter força para proteger
aqueles que dependem de mim
e humildade para reconhecer
quando também preciso de alguém.
Quero olhar para trás aos 40
e reconhecer o homem que fui aos 31.
E aos 50,
lembrar do jovem de 31
com carinho,
sabendo que ele ainda tinha muito a descobrir.
Porque talvez envelhecer seja isso:
não perder quem fomos,
mas carregar cada versão de nós
para dentro da próxima.
Hoje completo 31 anos.
Não tenho todas as respostas.
Mas tenho uma história.
Tenho pessoas que amo.
Tenho pessoas que me amam.
Tenho dois pequenos motivos
para querer que o amanhã seja melhor que o ontem.
E tenho, acima de tudo,
a oportunidade de continuar escrevendo.
Que venham os próximos anos.
Com suas vitórias,
suas perdas,
suas surpresas,
seus recomeços.
Eu já aprendi que a vida
nem sempre pergunta se estamos preparados.
Ela simplesmente abre a porta.
E eu, aos 31,
entro.
Eu não escolhi ficar sozinha
O destino preferiu assim
para quando o grande dia chegar eu esteja preparada e limpa das minhas próprias vaidades
E assim ter o entendimento do seu real objetivo.
e
E mesmo assim,eu ainda serei uma aprendiz.
Por: Edilma Azevedo
Sinto-me amarrado a uma imobilidade que não escolhi, como se a vontade existisse sem poder agir. A vida passa diante de mim em silêncio, e nesse silêncio reconheço a sensação de uma existência que se esvai sem se cumprir. Não é a ausência de tempo que me pesa, mas a consciência de o estar a perder. Furucuto, 2026.
"Tive o privilégio de escolher, e, entre todas as possibilidades, escolhi aquela que me conduziu à infelicidade."
(FURUCUTO, P. D., 2026).
Escolhi a Mim
Eu tinha quinze, você dezesseis, e o amor parecia eterno de uma vez. Duas mãos, dois sonhos, um só coração, fazendo promessas sem saber a dimensão.
Crescemos juntos, lado a lado, a florir, acreditando que crescer era nunca partir. Mas o tempo mudou o que a gente sonhou, e o mesmo caminho, aos poucos, se afastou.
Você voltou dizendo: “Um dia vai dar.” Eu fiquei tentando esse dia encontrar. Você amava o instante; eu queria o amanhã. Você vivia o agora; eu sonhava o divã.
Enquanto eu construía, você deixava acontecer. Eu chamava de amor; você chamava de viver. E fui me perdendo em cada espera vazia, alimentando promessas que nunca tinham dia.
Até que perguntei, com a alma cansada: “Quanto de mim resta nessa estrada?” Eu tentei mil vezes, lutei sem recuar, mas amor sozinho não aprende a caminhar.
Sete dias antes dos meus dezenove chegarem, escrevi sem pedir que você fosse ficar. Não era despedida para te convencer; era a minha coragem voltando a nascer.
Você me chamou de egoísta, sem perceber que eu só queria parar de me esquecer. Eu não queria migalhas, nem dúvida, nem dor. Eu queria presença, certeza e amor.
Eu teria escolhido você outra vez. Teria recomeçado, como sempre, talvez. Mas ninguém sustenta um sonho por dois; quando um não escolhe, o outro vai depois.
Então fui embora, ainda sabendo amar, mas decidida demais para voltar. Porque perder você doeu, eu não nego, mas perder a mim seria um adeus cego.
Hoje entendo o presente que a vida me deu: o amor mais importante sempre foi o meu. Passei tanto tempo querendo ser escolhida…
Até descobrir que eu era a minha melhor escolha na vida.
O ódio é um vínculo, e eu escolhi ser livre. Se a sombra da sua maldade não conseguiu apagar a minha luz, é porque a minha essência é governada pelo que carrego no peito, e não pelo que recebo de suas mãos.
