A Água que Escolhi Dividir Um dia me... Raquel Sutel

A Água que Escolhi Dividir

Um dia me empurraram para o fundo de um poço.
Escuro. Frio. Silencioso.
Ali eu conheci a dor pelo nome,
a solidão pelo abraço,
e as lágrimas pelo sabor.

Quem me feriu foi embora,
acreditando que ali seria o meu fim.

Mas Deus desceu onde ninguém desceria.
Sentou-se ao meu lado no silêncio,
secou minhas lágrimas,
fortaleceu meus braços
e me ensinou a subir.

Cada pedra virou um degrau.
Cada cicatriz virou força.
Até que um dia eu alcancei a luz.

Lá de cima descobri algo precioso:
quem já conheceu a sede
aprende a encontrar água.

Passei a tirar água do poço
para matar a sede de quem chegava cansado,
ferido, sem esperança.

Então a vida me surpreendeu.

No caminho encontrei justamente quem havia me lançado naquele abismo.

Desta vez, porém, era ela quem estava fraca.
Era ela quem tinha sede.
Era ela quem estendia as mãos.

Eu poderia ter lembrado de tudo.
Poderia ter dito:
“Agora é a sua vez.”

Muitos esperavam isso de mim.

Mas havia algo maior dentro do meu coração.

Porque Deus nunca me deu água
para que eu escolhesse quem merece beber.

Ele me deu água
para que eu nunca esquecesse de onde Ele me tirou.

Então estendi minhas mãos.

Dividi a água que eu tinha.

Ajudei quem um dia me abandonou.

Não porque a dor não existiu.
Não porque esqueci as feridas.
Mas porque o amor de Deus foi maior do que elas.

O perdão não muda o passado.
Mas muda completamente quem escolhe perdoar.

No fim, compreendi que o maior milagre não foi sair do poço.

Foi não deixar que o poço permanecesse dentro de mim.