Deus fez Vc para Mim
Eu lembro de mim como quem lembra de uma versão antiga de um aplicativo que travava toda hora, mas eu insistia em usar porque tinha apego à interface bonita. Eu ali, regando lembrança morta como se fosse samambaia de vó, achando que bastava um pouquinho mais de atenção, um pouquinho mais de pensamento antes de dormir, que aquilo ia brotar de novo. E olha que interessante, eu sabia. Lá no fundo, naquele cantinho que a gente evita acender a luz, eu sabia que já não tinha vida. Mas mesmo assim, eu insistia. Porque aceitar o fim exige uma coragem que, às vezes, a gente só descobre depois de se cansar muito.
E eu me cansava. Me cansava de revisitar os mesmos diálogos como quem reassiste um filme esperando um final alternativo que nunca vem. Cada palavra dita virava material de estudo, quase uma tese emocional. Eu ampliava segundos como se fossem capítulos, transformava encontros curtos em histórias épicas, dignas de um diário que, coitado, carregava mais ficção do que realidade. E sim, as conversas existiram, os momentos aconteceram. Mas o que eu fiz com eles… ah, isso já era outra coisa. Eu peguei migalhas e montei um banquete imaginário.
E teve o dia do incêndio. Porque toda mulher intensa já teve um momento meio dramático de querer apagar a própria história como se fosse possível dar “delete” no que já foi sentido. Eu queimei aquele diário como quem faz um ritual de libertação, esperando que a fumaça levasse junto o que ainda pesava em mim. Não levou. Porque o problema nunca foi o papel, era o apego. Era a necessidade de continuar alimentando algo que já tinha acabado, mas que dentro de mim ainda encontrava espaço, palco, roteiro.
A dor, no fundo, era repetição. Não era nem sobre ele mais. Era sobre mim insistindo, revisitando, reabrindo uma porta que já estava fechada há muito tempo. Eu sofria não pela despedida em si, mas por não aceitar que ela já tinha acontecido. E é curioso como a mente é criativa quando o coração está resistente. Eu criava futuros inteiros com base em lembranças mínimas, como quem vê um trailer e já escreve o filme inteiro. Só que o filme nunca foi produzido.
Até que veio o ponto de ruptura. Não aquele bonito, cinematográfico, com trilha sonora e vento no cabelo. Foi um cansaço seco. Um basta silencioso. Eu escrevi. Mas dessa vez não foi para mim, não foi para o diário, não foi para alimentar a história. Foi para entregar. Para colocar um ponto final fora da minha cabeça. E quando eu fiz isso, algo mudou de lugar. Não foi imediato, não foi mágico, mas foi verdadeiro. Pela primeira vez, eu não estava mais segurando nada.
E aí veio a paz. Não aquela eufórica, não aquela de propaganda de margarina. Uma paz simples, quase tímida. De quem acorda e percebe que já não revisita mais o passado antes de escovar os dentes. De quem lembra sem doer. De quem entende que sentir não foi erro, mas permanecer presa naquilo teria sido.
Hoje eu olho para tudo isso com um respeito enorme por mim mesma. Porque não foi fácil sair desse ciclo quase poético e extremamente cruel. Mas eu saí. E sair não significou esquecer, significou parar de alimentar. Porque lembrança, quando não é regada, vira só memória. E memória não machuca, ela só existe.
E no fim, escrever foi a minha libertação. Não como fuga, mas como conclusão. Eu não escrevi para reviver, eu escrevi para encerrar. E quando eu finalmente parei de contar a mesma história, eu percebi que tinha espaço para viver outras.
Se você ainda está aí, regando o que já não cresce, talvez não seja falta de amor. Talvez seja só falta de coragem de aceitar o fim. Mas quando essa coragem chega, mesmo que cansada, ela muda tudo.
Escrever, para mim, deixou de ser um capricho bonito de quem gosta de palavras e virou uma necessidade quase fisiológica, tipo respirar depois de subir uma ladeira enorme no sol do meio-dia. Eu estava há tanto tempo inspirando o mesmo ar pesado, reciclado pelas minhas próprias memórias, que quando finalmente escrevi, foi como escancarar uma janela e descobrir que o mundo ainda tinha vento. E não aquele vento dramático de novela, não. Um vento simples, honesto, que não promete nada além de movimento. E, naquele momento, movimento já era tudo que eu precisava.
O curioso é que eu não escrevi esperando resposta. Nem dele, nem da vida, nem do universo conspirador que a gente gosta de culpar quando está carente. Eu escrevi para me ouvir. Porque até então, eu estava cheia de vozes dentro de mim, menos a minha. Era lembrança falando alto, era saudade fazendo discurso, era ilusão pedindo mais um capítulo. E eu, coitada, só anotando, achando que aquilo era verdade absoluta. Quando eu finalmente me escutei de verdade, sem maquiagem emocional, sem aquele filtro poético que transforma sofrimento em obra-prima… foi desconfortável. Mas também foi libertador. Porque ali não tinha mais para onde fugir. Era só eu comigo mesma, sem plateia, sem roteiro, sem desculpa.
E a tal da lucidez… ah, essa não bate na porta, não pede licença, não manda mensagem antes. Ela entra como quem já mora ali há anos e só estava esperando eu parar de fazer barulho para se manifestar. E quando ela chega, desmonta tudo. Derruba cenários, apaga luzes, desmonta personagens. Aquilo que antes parecia gigante, intenso, insubstituível… vira só o que sempre foi: um capítulo. Importante, sim. Mas não eterno.
E é aí que entra a parte que mais assusta e mais alivia ao mesmo tempo: esquecer não é apagar. Eu não virei uma versão fria, sem memória, sem história. Eu virei alguém que olha para trás sem sentir aquele aperto no peito que parecia um lembrete constante de que algo estava inacabado. Não estava. Nunca esteve. Eu só demorei para aceitar que já tinha acabado há muito tempo. A gente sofre mais tentando reescrever o passado do que vivendo o presente. Porque o passado, minha querida, não aceita edição. No máximo, interpretação.
E essa lembrança… a ceia na casa da avó. Olha que cena sutilmente dolorosa. Um convite que parecia simples, mas que carregava um mundo inteiro de significado. E eu recusando. Não por falta de vontade, mas por excesso de consciência. Eu sabia que não cabia ali. E olha a maturidade disfarçada de tristeza. Às vezes, crescer é exatamente isso: reconhecer onde a gente não pertence, mesmo quando o coração quer dar um jeitinho de se encaixar.
Aquele abraço final, as lágrimas sendo enxugadas com uma delicadeza quase contraditória… como se o gesto dissesse “eu me importo”, enquanto a realidade gritava “mas não o suficiente para ficar”. E tudo bem. Porque naquele momento, sem perceber totalmente, eu já estava me despedindo de verdade. Não só dele, mas da versão de mim que ainda insistia.
E a vida, com seu humor meio irônico, meio genial, seguiu. Quase dois anos depois, eu casei. Escrevi uma nova história. Mas dessa vez, não foi sozinha. Não foi baseada em suposições, nem alimentada por silêncios interpretados. Foi construída. Tijolo por tijolo, dia após dia, com alguém que estava ali de verdade, não só na minha imaginação.
E isso muda tudo.
Porque no fim, não foi sobre esquecer alguém. Foi sobre parar de sofrer por algo que já não existia e abrir espaço para o que podia existir. Eu não apaguei o passado. Eu só parei de morar nele.
E hoje, quando eu lembro, não dói. Não pesa. Não chama. Só existe. Como uma página virada de um livro que eu não preciso reler para saber que já entendi a história.
Se você ainda está respirando esse ar pesado, talvez esteja na hora de abrir sua própria janela.
SOBRE MIM... 22 DE JANEIRO DE 2026
Olá, tudo bem? Sou Alinny de Mello, gosto de escrever, produzo ebooks sobre desenvolvimento pessoal para o Kindle, e hoje trouxe essa reflexão para você, ouça até o final.
Eu não sou mais aquela garota de quase duas décadas atrás.
Aquela que ria por qualquer coisa. Aquela que encontrava beleza até no vento balançando as folhas das árvores. A menina que era chamada de garota risoneira porque carregava no rosto uma alegria que parecia inesgotável. Diziam que eu demoraria a envelhecer porque sorria demais. Talvez estivessem certos. O sorriso preserva muito mais do que a pele. Ele preserva a esperança.
Mas a vida ensina.
Eu não sou mais aquela garota ingênua que acreditava que amizades durariam para sempre. Não sou mais aquela menina que pensava que ninguém seria capaz de tomar aquilo que era seu. Não sou mais aquela jovem que acreditava em promessas apenas porque foram ditas com convicção.
A vida me mostrou que palavras são fáceis. Difícil é encontrar quem tenha coragem de sustentá-las.
Eu me abria com todos. Compartilhava sonhos, planos, alegrias, pensamentos. Entregava partes bonitas da minha alma acreditando que seriam acolhidas. Mas muitas vezes aquilo que saía do meu coração voltava como arma apontada para mim.
Foi assim que aprendi uma das lições mais dolorosas da maturidade: nem todo mundo merece acesso ao que existe dentro de nós.
Também não sou mais aquela garota que acreditava que amar uma única vez era suficiente para morrer de saudade para sempre. Hoje entendo que o amor verdadeiro não é uma explosão passageira. É construção. É presença. É permanência. O maior amor da nossa vida é aquele que caminha conosco através dos anos, mesmo quando tudo muda.
Hoje eu observo mais do que falo.
Aprendi a escutar os silêncios, a perceber expressões, a entender olhares. Descobri que muitas verdades não são ditas pela boca, mas reveladas pelos gestos.
E foi no silêncio que encontrei algo precioso: a paz.
Durante muito tempo tive medo da solidão. Hoje compreendo que existe uma diferença enorme entre estar sozinha e sentir-se abandonada. A solidão escolhida pode ser um refúgio. Um lugar onde ninguém invade sua mente, ninguém controla seus passos e ninguém decide quem você deve ser.
Também aprendi a me afastar do que me fazia mal. Pessoas tóxicas, memórias dolorosas e feridas antigas perderam o poder de governar minha vida.
Os traumas da infância já não definem quem eu sou.
Hoje não acordo mais assustada. Não vivo mais presa aos gritos do passado. Eu sobrevivi.
E mais do que sobreviver, eu floresci.
Aprendi que não perdi nada no passado. Ganhei experiência. Ganhei discernimento. Ganhei maturidade.
Não vivo presa ao ontem porque ele não pode voltar. Não vivo ansiosa pelo amanhã porque ele não chegou.
Eu vivo o agora.
Um dia de cada vez.
Com gratidão, com consciência e com a certeza de que Deus continua sustentando meus passos, mesmo quando eu não consigo enxergar o caminho inteiro.
A menina ingênua ficou para trás. Em seu lugar nasceu uma mulher mais forte, mais sábia, mais silenciosa e muito mais consciente do seu valor.
E você, será que ainda está tentando ser quem era no passado, ou já teve coragem de se tornar quem nasceu para ser?
Hoje eu escolho olhar para mim com carinho.
Hoje eu escolho acreditar em mim.
Hoje eu escolho continuar.
E, aconteça o que acontecer, eu nunca mais vou me abandonar.
Há um purgatório em mim,
mil poetas se debatem, gritam, choram
e eu escrevo...
há uma caverna com mil morcegos
e eu me penitencio...
Há um purgatório em mim
Mil poetas gritam,
Choram e se debatem
E eu escrevo...
Há uma caverna
Com milhares de morcegos
E eu me penitencio...
Mil poetas habitam em mim
Muitos deles vem das trevas
Podem ver não tenho estilo
Sou uma espécie de purgatório
Para os seus dias de juízo...
O que você quer de mim? O que quer saber? Não me pergunte, não seja deselegante. Apenas olhe sem me ofender com seu olhar; analise, tire conclusões. O que eu sou, quem eu sou ou o que eu fui vai estar escrito em meus braços. Mas não me critique, nem me olhe com os olhos físicos, e sim com os olhos do coração. Minhas marcas são minha história, com suas efêmeras alegrias e seus profundos oceanos de dor e lágrimas. Minhas cicatrizes são meus ferimentos de batalha, elas são a prova de que eu fui valente e venci... Venci o monstro dentro de mim mesmo, que me sugava e tentava me dilacerar. Todo o tempo, dia e noite; na solidão de dias ensolarados e na tristeza de noites sombrias e repletas de sombras rastejantes.
O dinheiro vem até mim, de diversas fontes e contínuas bases, em quantidades cada vez maiores, e comigo fica para a construção da minha riqueza.
A minha vida é tudo pra mim, e nem os erros que cometi até hoje conseguem deslustrar a imagem do homem sortudo que sou.
Quando tenho a certeza do que eu quero, os comentários dos outros são insignificantes para mim. Agora, quando não a tenho, qualquer comentário me balança.
Para mim o socialismo é uma fabrica de pessoas que não sabem o que fazer, para outros, é fábrica de parasitas
Escrevi seu nome na areia
O sangue que corre em mim sai da tua veia
Veja só você é a única que não me dá valor
Então por que será que este valor é o que eu ainda quero ter
Tenho tudo nas mãos, mas não tenho nada.
Então melhor ter nada e lutar pelo que eu quiser
Entre o abismo e o sopro
Perdi-me em mim, num silêncio que ninguém ouve, num vazio que devora por dentro, numa dor inexplicável que não encontra tradução. Era como se o mundo me chamasse para fora dele, como se uma voz sussurrasse: “deixa ir, solta, termina…”. E eu, sem forças, só queria calar aquela angústia, só queria pular da ponte para escapar da ponte que havia em mim. Mas não era escolha, não era vontade, era um medo escondido, um segredo escuro, uma batalha sem testemunhas. Até hoje carrego essa luta constante: não cair nas armadilhas da vida, não ceder ao convite da desistência, não desejar apagar a própria luz. E quando sorrio, ninguém vê que por trás do riso há uma alma cansada, travando guerras invisíveis. A cada amanhecer, sou sobrevivente de um combate silencioso, uma rosa vermelha perfumada, com espinhos que perfuraram a alma. E ainda que doa, escrevo, choro, respiro… porque a vida insiste em mim, mesmo quando eu não consigo insistir para viver.
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