Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado
A cobrança de ações assumidas com outros é constrangedora e frustrante, porque passa atestado de não comprometimento ou, no mínimo, de que não se previu etapas e possibilidades de se oferecer o resultado prometido. São coisas de que os envolvidos não podem se eximir com risco de revelar o despreparo que transforma qualquer empreitada em aventura. Antecipar-se à cobrança, antes de esperar por ela, é característica primeira dos que não negligenciam suas responsabilidades, nem falham com aqueles que dependem de suas ações.
Descobri um dia que a escolha por qualquer dogma - ou me afastando de todos - apenas me aproximava de um dos extremos da corda. Concluí, portanto, que todos eles, quanto tudo o que existe, tem um pouco do muito que preciso para me situar mais perto desse ponto de equilíbrio entre os dois lados, e a ciência da vida consiste em não perdê-lo de vista!
Não ter ídolos nem ideologias é tarefa nem sempre das mais fáceis, já que tanto o macro quanto o micro universo se apresentam em permanente mutação. Mas todas as vezes em que nos fixamos em uma única linha - seja ela de pensamento ou de caminho a ser seguido - seremos arrastados para um dos extremos sem que nos demos conta disso.
Ficar-se atento ao risco do imobilismo é a forma mais eficaz de proteção. A capacidade de sair do ponto onde estamos para olhá-lo à distância - por mais que pareça confortável e seguro aquele onde estamos agora - é a única maneira de percebê-lo de forma consistente e confiável, como também de constatar se não é hora de mudar para um ponto novo pois que, visto de fora, este já nos aproxima mais de uma das pontas do que do meio! Não ter receio de mudar sempre que piscar o alerta é trocar a imobilidade pelo equilíbrio que nos salva.
Não ter receio de buscar a mudança como o melhor critério de avaliação nos previne da ameaça de transformar vícios em algo trivial e rotineiro. Ter coragem para trocar caminhos todas as vezes que se fizer necessário, e ser um camaleão que empresta à própria alma as cores que o ambiente aponta como as mais confiáveis naquele momento, ainda que incompreensível para o observador externo, é a única forma de manter-se fiel a minha própria essência! O ótimo de agora pode ser o péssimo de amanhã, e você será parte dele se recusar-se a olhá-lo de outro ângulo, de modo a perceber se ele continua ou não harmonizado com o melhor que quer para si.
Se não nos permitirmos abandonar o "ismo" de nossas origens, se não reunirmos toda a coragem para romper os tirânicos grilhões das tradições, dos dogmas, das crenças moldadas por outrem, de modo a que não os cristalizemos no alto de um mastro que já não nos representa em toda a plenitude, nos coloca em sério risco de distanciarmo-nos de nós mesmos para entrar num labirinto de um não-ser sem volta!
Há que se estar atento à diferença entre louvar as tradições de nossas origens, respeitando os ancestrais que as forjaram, e manter-se atrelado a elas como leis para o nosso presente e caminho obrigatório para o futuro, este tão diverso e imprevisível que, por isso mesmo, mais precisa de trilhas do que de trilhos. As trilhas revelam heróis. Os trilhos, apenas fundamentalistas que combatem os que têm coragem de se renovar pois que, por comparação, lhes expõem a covardia.
Apegarmo-nos ao Status Quo é o mesmo que reter a água entre os dedos das mãos, contrariando sua natureza renovável. Não é sensato apegar-se à qualquer etapa de uma jornada, que cumpre seu papel num dado momento, para em seguida revelar outras que se sucedem indefinidamente, e sobre as quais não se possui qualquer controle. Cada uma dessas infinitas etapas tem suas próprias regras, e nenhum compromisso com as das anteriores. As mudanças que introduzem são a única coisa que nunca muda! E aí está você, acreditando ser possível contrariar essa lei que não foi ditada por qualquer senhor além do próprio universo! A igualdade será sempre um estágio. Acorda, portanto: a diferença é a regra onde, amanhã, nada será como antes.
Não é o igual, mas a novo que oferece sua diferença como acréscimo. A diferença é rica e a igualdade pobre, porque iguais não possuem a capacidade da mútua contribuição, mantendo-se estáticos como se descobriram, e alijados da evolução que o universo nos cobra como regra única e imutável! Tudo o que não muda, fenece! Assim, mesmo quando você não dá a mínima para a própria evolução, quando combate o diferente de si mesmo não sabe que está atentando contra sua própria sobrevivência. Desapareceremos todos – eu e você – enquanto insistirmos em rejeitar o diferente que fatalmente virá, na vã tentativa de transformar o igual em perene, tornar a mudança imutável, submeter às nossas microscópicas leis a lei maior do Macro Universo.
Fanatismo é como a peste: de altíssimo poder de contágio, sai matando tudo o que o indivíduo tem de melhor por dentro e por fora, via sentimentos e ações dos mais destrutivos. E mesmo após seus vetores se auto dizimarem, ela segue em seu processo de extermínio, vitimando outros pelo legado maldito das convicções equivocadas dos primeiros.
O pensamento expresso em prosa não tem compromisso com o lirismo – como num poema – podendo ser direto e preciso quando necessário, sem os aforismos da poesia. Não ficando atrelado aos arreios da forma, do estilo, da rima ou da métrica, segue livre para mexer com emoções e provocar reflexão no leitor pela identificação com algo que ele já sentia, e que apenas precisava ver traduzido em palavras para que se sentisse representado nele.
Fundamentados na crença de que o bom e o ótimo estão sempre do mesmo lado, muita gente não percebe que eles vivem em permanente conflito: tanto a obsessão pelo ótimo impede que você faça o seu melhor – que pode ser bom o bastante em relação ao que já se tem – quanto esse mesmo melhor pode ser péssimo, quando você se acomoda nele e desiste de ir além, já que o ótimo é a perfeição mantida à vista, mesmo que nunca seja atinjida. Não confunda, porém, excelência com preciosismo. Este último é aquela “perfeição” que ninguém precisa, e que não acrescenta absolutamente nada ao seu projeto! Então aprenda: Excelência é fazer o máximo naquilo que se revela essencial e pertinente! Preciosismo é se concentrar em uma “perfeição” que não faz qualquer diferença no resultado que as pessoas estarão esperando de você.
Podemos chamar a falta de compromisso de “assassinato crônico”, pois começa frustrando expectativas, em seguida abate o ânimo, depois subtrai a esperança, até que finalmente rouba a confiança na responsabilidade humana com as necessidades de seus semelhantes. Quem o pratica não alcança a dimensão de seu ato, pois que encontra razões triviais e corriqueiras – como falta de tempo, prioridades pontuais ou até esquecimento – para converter seu delito em quase nada, de modo a que não lhe produza nenhuma culpa... A sobrevivência alheia passa ao largo de suas corriqueiras tarefas. O que não consegue dimensionar é que, matando as esperanças de outrem, também lhes mata a alma. E quantos desistem da vida ao se descobrirem destituídos de seus sonhos.
Por mais que os dois extremos insistam em te arrastar para suas respectivas trincheiras, tu te mostras mais forte quando manténs tua cabeça acima delas, pois tua posição entre os dois territórios que se confrontam deve ser definida por cuidadosa análise dos fatos seguida da escolha ditada por tua consciência. E não te furtes de revisá-la de tempos em tempos por receio de que exibam tua evolução como prova de tua incoerência. Isso só se mostra verdadeiro quando a mudança não traz ganho algum. O pensar que se cristaliza é que resulta de ignorância, já que não acompanha as inovações obrigatórias – e indispensáveis – para se adequarem à realidade que se mostra em permanente mutação. Lembra, então, que a busca do teu greenwich entre os dois hemisférios sempre te posicionará acima dos que te acusam, seja porque escolheram isso ou porque não conseguem alcançar a grandeza de teus propósitos. O essencial é que não te permitas ser aquilo que desejam que tu sejas, mas tão somente aquilo em que acreditas!
Para que tua decência se mantenha intacta e – mais precisamente – se mostre LEGÍTIMA, ela não depende de religiões, de igrejas, de heróis nem de um deus que te aponte o caminho. Não abre mão, simplesmente, de teus PRINCÍPIOS! Eles, sim, é que te mostrarão a necessidade de reforço pela religião, de apoio da igreja, da inspiração através de algum herói ou da harmonização com tudo o que teu Deus espera de ti.
Basta de se tentar combater violência com ações extremistas! Por esse método não apenas se corrobora com ela quanto a agravamos, pois que violência gera mais violência. O que se precisa é atacar as origens para muda-las, não suas consequências, que são automáticas e se constituem muitas vezes na única forma percebida de sobrevivência.
Buscar o consenso para uma interpretação divergente é perfeitamente salutar, desejável, e sempre produzirá mútuo crescimento. Já discutir divergências estruturais – que implicam em diferenças consolidadas sobre valores e princípios inconciliáveis – não só se mostra absolutamente inócuo quanto desprovido da dosagem mínima de bom-senso; não se prestando, portanto, a contribuir com ninguém ou com o que quer que seja.
A confiança é, talvez, o maior capital que construímos junto às pessoas ao longo de nossa existência. Quando não lhe damos o devido valor de forma contínua e habitual, não há como esperar que esse capital não se esgote em algum momento, e sem garantias de que seja resgatado. As pessoas, numa primeira instância, podem ainda acreditar nele; na segunda experimentam oferecer um voto de confiança, mas a terceira dificilmente passa de um “pagar pra ver”, isso se todos já não estiverem convencidos de que o ponto da reversão foi ultrapassado, não tendo como culpá-los por isso! Essa é uma das coisas, portanto, onde o mais importante é o “durante” e não o depois, na construção de uma obra que jamais termina e é avaliada ao longo de todo o nosso tempo, e não no ato da entrega de um suposto “produto acabado”.
HUMANO é aquele que, ao chegar ao máximo de sua possibilidade, percebe que atingiu seu limite e pára, pois sabe o que acontece depois; HERÓI é aquele que, ao atingir o máximo de sua possibilidade, não o aceita como limite e continua, acreditando que pode mudar esse depois; SANTO é o que sabe ter atingido o máximo de sua possibilidade, não dá a mínima para o limite e vai em frente, ainda que saiba o depois. Mais do que a escolha, a diferença está na importância dada a um “depois” além do que ele consegue saber.
Não se confunda ignorância com estupidez. Ignorante é quem não teve acesso ao conhecimento – não raro por falta de oportunidade – e censurá-lo por isso não só se mostra injusto quanto preconceituoso. A estupidez, diferentemente, é própria de quem foi brindado com o conhecimento, mas não faz qualquer uso dele para analisar as situações com que se depara – por reles comodismo frente à lógica mais rasteira – o que se mostra profundamente irritante para quem pensa. Daí porque não é difícil encontrar ignorantes cujo instinto os tornou sábios, e letrados cujo descaso os tornou idiotas.
