Coleção pessoal de Poliana16
A introspecção doentia e a morbidez são erradas, na verdade são pecaminosas, e o cristão não tem o direito de ficar deprimido dessa maneira. A libertação virá quando você perceber o que o diabo está tentando lhe fazer, e que ele o cegou temporariamente para justificação somente pela fé. A justificação pela fé é sempre o lugar onde você pode se firmar. Toda vez que você ver que está escorregando para baixo na rampa da depressão, o lugar onde sempre você haverá de recuperar a estabilidade e de encontrar um ponto de apoio para os pés, é a justificação pela fé somente. Ela vence a maioria das ciladas do diabo. Portanto, estejamos seguros quanto a isto, pois é o remédio por excelência contra a morbidez e a introspecção doentia.
Por que o cristão, homem ou mulher, fica deprimido? É porque ele examinou a si mesmo desta maneira minuciosa - é sempre uma questão de pormenores, de pontos refinados, de tomar o pulso espiritual, de medir a temperatura espiritual. É levada a efeito toda investigação que se pode imaginar, e depois os resultados são reduzidos a uma sinopse. Eis aí, então, o registro; e é péssimo. A conclusão óbvia que se tira é: "Muito bem, será que sou cristão mesmo? Alguma vez fui realmente cristão? Será possível?"
O objetivo do diabo é conseguir que alimentemos esse sentimento. Se ele conseguir fazer que nos examinemos de tal maneira que isso não seja apenas uma introspecção, mas nos leve à conclusão de que nunca fomos cristãos, ele ficará mais que satisfeito. Estou procurando fazê-los lembrar-se de que a resposta fundamental ao diabo, é que, seja como for que nos sintamos, continuamos sendo cristãos. Contudo, como prová-lo a nós mesmos? Essa é a real necessidade nesse ponto. O modo de fazê-lo - e esta é a razão por que os reformadores protestantes viram que esse é o artigo fundamental de uma igreja para que se firme ou caia - é lembrar-nos da justificação só pela fé! O diabo diz: "Olhe a sua ficha, só há uma conclusão, você não é cristão, nunca foi." Responda ao diabo dizendo-lhe que o que torna um homem num cristão não é nada que se ache nele, e sim "o Sangue de Jesus e Sua Justiça". Graças a Deus por isso, pois se todos nós examinássemos verdadeiramente a nós mesmos e tentássemos decidir com base no registro da nossa própria vida se somos cristãos ou não, nunca existiria nem um único cristão!Há somente uma coisa que nos faz cristãos - a justiça de Cristo e nada mais.
Há o perigo de que, havendo começado no Espírito, retornemos à carne. Este é o grande tema da Epístola aos Gálatas, resumindo nas palavras, "Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?" (Gálatas 3:3) O apóstolo estava escrevendo a crentes autênticos, e é uma das "ciladas do diabo" com relação ao crente. É o perigo de que, tendo começado pela visão clara de que a justificação é somente pela fé, e de que tudo na vida cristã é pela fé, você pode, inconscientemente, começar a escorregar para trás, voltando a confiar nas suas obras, de uma forma ou de outra. É uma tentação muito sutil e astuta. Até Pedro chegou a sucombir sob ela como resultado do temor que teve dos irmãos que tinham vindo de Jerusalém e, em Antioquia, o apóstolo Paulo teve que lhe resistir "na cara", como ele no-lo recorda no capítulo dois, versículo 11 de Gálatas. É o perigo de retroceder de uma posição correta. Havendo visto, na ocasião da sua conversão, que a salvação vem inteiramente pela fé e confiança no Senhor, logo você começa a confiar em suas obras e atividades, naquilo que você é, em seu próprio entendimento; e nesse ponto você introduz estes aspectos fatais. Qualquer tipo de acréscimo é sempre e inevitavelmente um erro. No caso dos Gálatas foi a circuncisão, por causa do ensino dos judaizantes. Mas, surja como surgir a tentação para que retrocedamos, é essencial lembrar que não podemos aperfeiçoar a obra da graça ao nível da carne; tudo deve ser feito ao nível do Espírito, e sempre pela fé. Em última instância, tudo é pela fé e baseado na fé, e não devemos recuar dessa verdade fundamental.(...) Faça tudo que puder, obtenha todo o conhecimento que puder, trabalhe quanto puder, porém nunca ponha a sua confiança nessas coisas. Temos que confiar única e completamente em Cristo.
Se você tiver a visão correta da verdade, terá que senti-la. Se a não sentir, será porque não tem a visão certa. Você crê de fato que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que Ele entregou o Seu corpo para ser moído e o Seu sangue para ser derramado para que você fosse perdoado? Você afirma que esta é a sua crença, e que você aceita o conceito vicário, substituitivo, da expiação, e crê que o Filho de Deus o amou até esse extremo. Se você disser que não sentiu nada em decorrência dessa sua fé, eu lhe digo que você não crê nisso, que você não chegou a ter a visão da fé, pois "Tão maravilhoso, tão divino amor, requer a minha alma, a minha vida e todo o meu ser!"
O Novo Testamento sempre introduz os aspectos práticos com o vocábulo "portanto" ou seu equivalente. O que você faz na prática sempre deve ser uma dedução do que você crê; e se você inverter essa ordem, correrá perigo mortal. Se você não tiver um "portanto" em seu sistema, que decorra da sua doutrina, o que você terá é uma seita, e não o ensino do Novo Testamento, não o cristianismo.
Nenhuma seita gosta da doutrina do pecado; e isso pelo forte motivo de que você jamais ficará popular, se pregar a doutrina bíblica do pecado. No entanto, as seitas têm que ser populares, pois, do contrário, não poderão ter sucesso.
Uma das primeiras coisas que você deve aprender nesta vida cristã e nesta guerra, é que, se você estiver errado em sua doutrina, estará errado em todos os aspectos da sua vida.
O homem cheio de autoestima espera de forma natural grandes coisas de si mesmo, e se sente amargamente desanimado quando fracassa. O crente que tem autoestima tem os mais elevados ideais morais: chegará a ser o homem mais santo de sua igreja, se não o mais santo de sua geração. É possível que fale da depravação total, da graça e da fé, enquanto ao mesmo tempo inconscientemente está confiando em si mesmo, promovendo-se a si mesmo e vivendo para si mesmo. Como tem aspirações tão nobres, qualquer falha em alcançar seus ideais o enche de desânimo e desgosto. Vem, então, a dor da consciência, que ele erroneamente interpreta como evidência de humildade, mas que na realidade só é uma amarga negativa de perdoar-se a si mesmo por haver caído da alta opinião que tinha de sua própria pessoa.
O homem humilde aceita que se lhe diga a verdade. Ele crê que em sua natureza caída não habita bem nenhum. Reconhece que, separado de Deus, não é nada, não tem nada, não sabe nada, nem pode fazer nada. Mas esse conhecimento não o desanima, porque também sabe que, em Cristo, ele é alguém. Sabe que para Deus ele é mais precioso que a menina dos seus olhos, e que pode todas as coisas por meio de Cristo, que o fortalece; ou seja, pode fazer tudo o que está dentro da vontade de Deus que ele faça.
Tenho conhecido duas classes de crentes: os orgulhosos que se consideram humildes, e os humildes que têm medo de ser orgulhosos. Deveria haver outra classe: os desesperados de si mesmos que deixam todo o assunto nas mãos de Cristo, e se negam a gastar o tempo tentando fazer-se bons. Serão esses os que alcançarão o alvo, e bem antes que os demais.
O homem verdadeiramente humilde não espera encontrar virtude em si mesmo, e quando não a encontra, não se desanima. Ele sabe que qualquer boa obra que poderia fazer é resultado da obra de Deus nele, e se é obra própria sua sabe que não é boa, por melhor que pareça. Quando essa crença se torna parte desse homem, algo que opera como uma espécie de reflexo subconsciente, ele se vê liberto do peso de viver segundo a opinião que tem de si mesmo. Pode descansar e contar com o Espírito para que cumpra a lei moral em seu íntimo. Muda-se o centro de sua vida, do ego para Cristo, que é onde deveria ter estado desde o princípio, e assim se vê livre para servir a sua geração de acordo com a vontade de Deus, sem os milhares de empecilhos que antes tinha. Se um homem assim falha para com Deus de alguma forma, lamenta-o e se arrepende, mas não passa os dias castigando-se a si mesmo por seu fracasso. Dirá com o Irmão Lourenço: "Nunca poderei agir de outra forma se me deixas só; Tu és aquele que deve impedir minha queda e emendar o que é mau", e depois disso "não continuará se torturando pelo acontecido". Quando lemos sobre a vida e os escritos dos santos, é que a falsa humildade mais entra em ação. Lemos Agostinho e percebemos não ter sua inteligência; lemos Bernardo de Claraval e sentimos um calor em seu espírito, que não encontramos em nosso próprio em um grau que sequer se lhe assemelhe; lemos o diário de George Whitefield e temos de confessar que comparados com ele somos simples principiantes, noviços espirituais, e que apesar de nossas "vidas tão supostamente ocupadas" vemos muito pouco ou nada realizado. Lemos as cartas de Samuel Rutherford e sentimos que seu amor por Cristo ultrapassa tanto o nosso, que seria estupidez sequer mencioná-los ao mesmo tempo. É então que a pseudo-humildade começa a trabalhar em nome da autêntica humildade e nos leva até o pó numa confusão de autocompaixão e autocondenação. Nosso amor próprio se volta contra nós mesmos e com grande azedume nos joga em rosto nossa falta de piedade. Sejamos cuidadosos com isso. Aquilo que achamos ser penitência pode facilmente ser uma pervertida forma de inveja e nada mais. É possível que simplesmente estejamos invejando esses poderosos homens, e desanimemos de chegar a ser como eles, imaginando que somos muito santos porque nos sentimos humilhados e desanimados.
Ninguém nega corretamente a si mesmo, se não se entrega por completo ao Senhor e está disposto a confiar cada detalhe à boa vontade d'Ele. Se nos colocarmos nessa atitude de espírito, então, não importando o que nos aconteça, jamais nos sentiremos infelizes ou acusaremos a Deus por nossa situação.
O pecado interior é como um rio. Enquanto as fontes estiverem abertas e a água estiver continuamente correndo pelo seu leito, coloque um dique à sua frente e isso fará que a água suba e se avolume até o dique se romper ou a água passar por cima dele. Se essa água diminuir numa boa medida nas suas fontes, o remanescente poderá ser contido e restringido. No entanto, enquanto houver alguma água correndo, ela constantemente empurrará o que estiver à sua frente, de acordo com seu peso e sua força, porque é sua natureza agir desse modo. E, se de algum modo, ela abrir uma passagem, seguirá em frente. Assim acontece com o pecado interior. Enquanto as fontes estiverem abertas, será inútil a pessoa colocar diante dele um dique com suas convicções, resoluções, votos e promessas. Isso pode detê-lo por algum tempo, mas ele aumentará, ficará mais alto e furioso e, em algum momento, arruinará todas essas convicções e resoluções ou abrirá uma passagem subterrânea por meio de alguma concupiscência secreta que lhe dará vazão total. Mas, agora, suponha que suas fontes estejam muito fracas pela ação da graça regeneradora, as correntes ou ações estejam mistigadas pela santidade, mas, enquanto houver vestígios delas, elas estarão pressionando constantemente para conseguir passar, para se transformarem num pecado real, e essa é sua luta.
Nunca devemos imaginar que nosso trabalho de contender contra o pecado, mortificá-lo e subjugá-lo está perto do fim. O lugar de sua habitação é inescrutável e, quando podemos pensar que o vencemos completamente, ainda há algum remanescente que ainda não vimos, do qual não temos conhecimento. Muitos conquistadores foram arruinados por seu descuido depois de uma vitória e muitos foram espiritualmente feridos depois de grande sucesso contra esse inimigo. Foi o que aconteceu com Davi. Sua grande perplexidade com relação ao pecado aconteceu depois de uma longa carreira de fé, depois de múltiplas experiências com Deus e de uma longa vigilância contra sua própria iniquidade. É, em parte, por esse motivo que a carreira de fé de muitas pessoas declina em sua idade avançada. Essas pessoas param de mortificar o pecado antes que sua obra esteja no fim. Não há como perseguir o pecado em sua habitação inescrutável a não ser que nossa perseguição não tenha fim.
Quanto mais as pessoas manifestam e produzem o fruto de sua concupiscência, mais ela se enfurece e aumenta neles - ela autoalimenta, engole seu próprio veneno e cresce. Quanto mais as pessoas pecam, mais elas se inclinam para o pecado.
Meu trabalho é grande, meu coração é vil, o diabo fica vigiando e o mundo gostaria de dizer alegremente, Aha, aha, é assim que queremos! Quanto a mim, preservar-me não posso, confiar em mim, não ouso; se Deus não me ajudar, estou certo de que não vai demorar muito para que meu coração me engane, e o mundo tome vantagem sobre mim.
Somente pessoas que entenderam a verdade, desejam obedecê-la. A tragédia das outras é que nunca a entenderam realmente.
O tipo mais confortável de religião é sempre uma religião vaga, nebulosa e incerta, cheia de fórmulas e rituais. Não me surpreende que o catolicismo romano atraia certas pessoas. Quanto mais vaga e indefinida a sua religião, mais confortável ela será.
