Coleção pessoal de pensador
A preta que sou
Me olhei no espelho
e me vi preta!
Não era a primeira vez
mas nunca antes desta cor
Me olhei no espelho
me vi negra!
Do jeito que não cresci
Com o cabelo que nasci
Me olhei no espelho
e me descobri
Com um padrão novo
De uma imagem ancestral
Me olhei no espelho
e sorri
Minha beleza é de Ouro
Negro é meu tesouro
Me olhei no espelho
Nunca mais igual
Minha carne é de luta
Não de carnaval
Me olhei no espelho
e a princesa era eu…
Não loira, não lisa, não magra
Nem branca, nem santa, nem fada
Todas as cores de preta
[...]
Gritaram! Gritei!
Briguei! Calaram.
Não me calaram.
Não calarão.
Não apagarão
O negro em preto e branco
Sou preta
Sou negra de todas as cores.
De todos os tons
Sou todas as cores.
Sou todas as pretas.
Ditadura branca
no Brasil, a ditadura
nunca se extinguiu
para gente de pele escura:
a antilei
o falso indício
o sumiço
a tortura.
Genocida
a polícia sabe onde atirar
não é no alvo...
a mira é um ponto preto
colado na própria retina.
condição: imigrante
1.
desde que cheguei
um cão me segue
&
mesmo que haja quilômetros
mesmo que haja obstáculos
entre nós
sinto seu hálito quente
no meu pescoço.
desde que cheguei
um cão me segue
&
não me deixa
frequentar os lugares badalados
não me deixa
usar um dialeto diferente do que há aqui
guardei minhas gírias no fundo da mala
ele rosna.
desde que cheguei
um cão me segue
&
esse cão, eu apelidei de
imigração.
2.
um país que te rosna
uma cidade que te rosna
ruas que te rosnam:
como um cão selvagem
esqueça aquela ideia
infantil aquela lembrança
infantil
de sua mão afagando um cão
de sua mão afagando
seu próprio cão
ficou em outro país
ironicamente, porque a raiva lá
não é controlada
aqui, tampouco:
um país que te rosna
uma cidade que te rosna
ruas que te rosnam:
como um cão
: selvagem.
não foi um cruzeiro
meu nome e
minha língua
meus documentos e
minha direção
meu turbante e
minhas rezas
minha memória de
comidas e tambores
esqueci no navio
que me cruzou
o Atlântico.
ser mulher é
ser loira, olhos claros, nunca descabelar-se
é ter sangue escorrendo entre as pernas & não
[deixar que percebam mesmo que
você corra
você nade
você dance
[...]
eu descobri agora que
não sou mulher
sou negra, sou apenas uma negra.
[...]
meu corpo é
meu lugar
de fala
e eu falo
com meus cabelos e
meus olhos e
meu nariz
meu corpo é
meu lugar
de fala
e eu falo
com minha raça
ela mesma, a poesia
é despertar é despertar e enxergar além de o ou a
visão audição olfato tato paladar.
entregar-se para o sentir e perceber.
a Poesia é aprofundar-se
e procurar em si palavras
e substituí-las substituí-las substituí-las
perdê-las e insistir em
re e construir até que
perfeitamente.
e cuspir sem silêncio o que
a Poesia.
cuspir sem silêncio
e não implorar ouvintes
mas quando
seduzir e penetrar e abusar
porque a Poesia é
acariciar todo o sofrimento em
não esquecer a obrigação de
unir versos.
Você se esforça para dar um sentido, uma forma, uma ordem à sua vida, e no fim das contas a vida faz o que bem entende com você.
PORQUÊ
Por que é que as acácias de repente
floriram flores de sangue?
Por que é que as noites já não são calmas e doces,
por que são agora carregadas de electricidade
e longas, longas?
Ah, por que é que os negros já não gemem,
noite fora,
Por que é que os negros gritam,
gritam à luz do dia?
