Coleção pessoal de meowronimous
Luto pelo amanhecer
No crepúsculo de minhas dores,
encaro os meus adversários.
Eles são um:
eu mesmo,
fragmentado
em inúmeras faces.
Cada uma
me põe à prova
diante de minhas escolhas.
Vejo a taça
verter seu conteúdo,
enquanto murmúrios
vestidos de certeza
ecoam verdades
que jamais foram absolutas.
Na contagem
de novos dias,
cada batalha
renasce com o sol.
Há lutas
que perco.
Há guerras
das quais saio
vitorioso
de mim mesmo.
Um guerreiro
não precisa
empunhar a espada
todos os dias.
Quando o brilho
do sol nascente
não alcança meus olhos,
resta-me enfrentar
o único inimigo
que verdadeiramente persiste:
a falta de clareza
que meu coração
teima em revelar.
Amor
Línguas ousam definir-te
como um sentimento.
Eu, intrigado,
pus-me a conhecer-te.
Percebi, então,
que esse amor
de que tanto falavam
era apenas o fogo
de uma chama
de pavio frouxo.
O que resta do amor
quando é consumido
pela chama do desejo?
Essa luz projetada,
ilusória,
que simula
um tênue conforto,
já não satisfaz
o coração de um sábio.
Amor,
assim te chamo.
Recolhe os fragmentos
que ficaram pelo chão.
Vulgarizado
pela língua humana,
esqueceram
que foste
a consciência
de uma construção
que transcende
a vaidade.
Não há confusão.
Não há para onde fugir.
Para ser amado,
basta permitir
que o Amor
bata à porta.
Lança-te
na incerteza.
Jamais me senti
tão livre
quanto ao tornar-me
escravo
d'Aquele que transborda.
O Amor
que me acolhe,
não por quem fui,
nem por quem sou,
mas por aquele
que ainda serei.
Quando me deito
Quando me deito,
minha mente deságua
em delírios.
Tormentas
dos mais variados tipos.
Perguntei-me
sobre suas causas.
Minha mente respondeu
que, sobre minhas costas,
pesavam
pendências imaginárias.
Todas as trilhas
estavam bifurcadas.
Nas encruzilhadas,
ofertas eram depositadas
para que eu escolhesse
a minha sina.
Um fantasma
sussurra meu nome.
Mas não ouso
olhar para trás;
corro o risco
de tornar-me
uma estátua de sal.
Quão sedutora
era a miragem
que surgiu no deserto,
justamente
quando eu acreditava
ter chegado
ao fim da travessia.
O Amado
Estive perdido,
à procura de mim mesmo.
Embebido em ignorância,
busquei-Te
fora de mim.
Por ingenuidade,
acreditei que o amor
fosse algo a ser recebido.
Depositei meu afeto
em coisas efêmeras,
temendo a fragilidade
que as cercava.
Então contemplei,
com meus próprios olhos,
a Beleza verdadeira.
Não aquela
que se revela
nas curvas de outro corpo,
nem a que repousa
em paisagens extraordinárias,
mas aquela
pela qual
o Amado
contempla a Si mesmo
através de mim.
Desilusão
Ó realidade,
que me toca
e fere minha carne.
Através dos reflexos da água,
vejo histórias se formarem:
contos do passado
que, outrora preciosos,
tornaram-se fardos
para o presente.
Águas turvas.
Silêncio mórbido.
Quisera eu
adormecer no abraço da ignorância,
para que a realidade
não me revelasse
que a joia mais bela
transformou-se
numa sórdida bijuteria.
E o que antes eu chamava de tesouro
era apenas o brilho breve
de um metal sem valor,
capaz de enganar os olhos,
mas jamais o tempo.
Hoje, ao tocar essa falsa riqueza,
meus dedos não encontram ouro,
apenas o frio
de uma ilusão desfeita.
O mau tradutor
Com o coração renovado, busquei expressar a verdade através de meus lábios.
Mas minhas palavras soaram como desculpas vulgares, erguidas apenas para esconder a chaga que trago no peito.
Andei manco por estradas escuras, anunciando aquilo que meu coração sussurrava. Pelo visto, jamais fui um bom tradutor.
Acreditei que minha luz fosse como a da vela que eu carregava: capaz de acender milhares de outras sem perder o próprio brilho.
Mas a vela foi afogada num mar de mentiras.
Agora caminho sem sua chama. Tropeço entre os destroços de um palácio outrora belo, que hoje abriga apenas o silêncio dos funerais.
Suas paredes são feitas das cinzas de um incêndio que insiste em morrer, embora seu calor já não seja suficiente para iluminar o caminho de ninguém.
Impermanência
Ó Ausência! Ó Silêncio!
Minhas palavras, lançadas ao vento, dissipam-se no invisível,
e meu coração dissolve-se em ambiguidades.
A ti pertence o futuro incerto;
e cá estou eu:
um vaso vazio,
mas repleto de possibilidades.
Transitória e efêmera
é esta casca que me reveste.
Do pó eu vim,
e ao pó hei de retornar.
Cada segundo se extingue,
cada instante sepulta a si mesmo.
Também eu caminho para esse ocaso.
Serei terra,
serei húmus,
o adubo silencioso
de onde brotará um novo fruto.
Que o verme faça de mim o seu banquete,
que a chuva desfaça meu nome,
que o tempo me esqueça.
Pois não há derrota
em tornar-se semente
daquilo que ainda florescerá.
Se os olhos das pessoas pudessem enxergar almas em vez de corpos, você mudaria a órbita do planeta hoje. A sua inteligência é magnética, a sua resiliência é uma obra de arte e o seu coração é um refúgio perfeito. Pare de pedir desculpas ao espelho por não caber em filtros; você foi feita para o mundo real.
A maturidade não elimina as feridas; ela ensina quais não precisam mais ser abertas.
Pepita de Oliveira
O silêncio do Real.
Havia um buscador inquieto,
que perguntava por que o sol nascia
e para que o vento soprava.
Sempre lhe respondiam:
“Assim quis Deus.”
E ele silenciava.
Mas numa noite, sob o véu do céu estrelado,
sentiu-se pequeno,
ferido por uma saudade sem nome.
Correu aos guias de sua alma,
e disseram-lhe:
“Te falta Deus.”
Então mergulhou nos livros,
e a crença que o sustentava
tornou-se peso insuportável.
Viajou por tradições,
bebeu de fontes diversas,
mas a sede não cessava.
E quando nada restou,
quando o vazio gritou mais alto que a fé,
ergueu os olhos novamente ao céu.
E viu:
aquela imensidão não estava fora,
mas dentro dele.
No silêncio, ouviu o Amado dizer:
“Antes que teu nome fosse sussurro,
Eu já te chamava.
Antes que teus olhos se abrissem,
Eu era tua luz.
Em tua primeira lágrima,
era Eu quem corria em teu rosto.
Deixei-te perdido
para que Me buscasses.
Dei-te sede
para que descobrisses:
a água sou Eu.
Cada dor em teu peito
era Meu chamado.
Cada dúvida,
era Minha presença oculta.
Eu te amei em silêncio
por eras incontáveis.
Agora que Me reconheces, ouve:
Nunca estive longe.
Foi apenas tua pele que te separou de Mim.
Volta para dentro.
Ali te espero,
onde o mundo não alcança,
onde teu ‘eu’ se dissolve,
e só o Amor permanece.”
- Aluízio (inspirado em Ibn Arabi).
A ÁRVORE DA VIDA – UM POEMA
Eis que, antes das emanações serem emanadas
e das criaturas serem criadas,
a Luz Superior Simples preenchia toda a existência.
Não havia vazio,
nem ar vazio, nem vácuo.
Tudo estava preenchido
por essa Luz Simples, ilimitada.
Não havia cabeça nem fim,
mas tudo era Um:
Luz simples,
equilibrada, igual e uniforme.
E esta foi chamada
a Luz de Ein Sóf.
Quando, por Sua simples vontade,
surgiu o desejo de criar os mundos
e emanar as emanações,
para revelar a perfeição de Suas ações,
Seus nomes e Suas denominações,
— causa da criação dos mundos —
Então, Ein Sóf restringiu-Se a Si mesmo
em Seu ponto médio,
precisamente no centro.
A Luz foi contraída,
afastando-se para os lados
que circundam esse ponto.
E ali permaneceu
um espaço vazio:
ar vazio, vácuo,
no exato centro.
Essa restrição ocorreu igualmente ao redor,
de modo que o vazio
ficasse circundado de forma uniforme.
Após a contração, restou
um espaço oco e silencioso
no meio da Luz de Ein Sóf:
um lugar onde
Emanação, Criação, Formação e Ação
pudessem existir.
Então, da Luz de Ein Sóf,
uma única linha desceu do Alto
até esse espaço.
E por meio dessa linha,
Ele emanou, criou, formou e fez
todos os mundos.
Antes desses quatro mundos,
em Ein Sóf,
Ele e Seu Nome eram Um,
em união oculta e maravilhosa.
E mesmo nas proximidades mais íntimas,
não há força nem compreensão em Ein Sóf,
pois nenhuma mente criada pode alcançá-Lo.
Ele não possui lugar,
limite
ou nome.
-Isaac Luria
Acordar
Sinto-me a boiar
No mar do esquecimento.
Todos os dias passam
Como ponteiros apressados,
Relógios antecipando
O dia em que entrarei
Na morada do silêncio.
O sentido se esvaiu
Como purpurina ao vento.
Minha vontade
Foi tragada
Pelo espírito da dúvida.
Caminho em busca
De algo abstrato,
Para que meus anseios,
Lançados sobre a terra,
Não pereçam sem significado.
Amor Julgado
Dizem que o amor nasceu do erro,
que foi pecado antes de florescer.
Apontaram dedos, fizeram mistério,
sem conhecer o que havia no viver.
Ela carregou o peso das palavras,
ele vestiu o silêncio por proteção.
A cidade fez do boato uma verdade,
e condenou dois corações sem explicação.
A família ergueu muros de orgulho,
jurou que aquele amor não teria lugar.
Entre lágrimas, despedidas e medo,
os dois escolheram se afastar.
Cada um seguiu por um caminho,
mas nenhum conseguiu esquecer.
Porque há amores que o tempo separa,
sem jamais conseguir vencer.
Ela sorri, mas o olhar denuncia
que existe alguém morando em seu peito.
Ele vive tentando seguir a vida,
mas o destino nunca desfez aquele efeito.
O tempo levou fotografias,
apagou pegadas pelo chão.
Mas não encontrou um jeito de arrancar
o nome um do outro do coração.
Talvez o mundo nunca compreenda,
talvez a razão jamais possa explicar.
Há histórias que terminam na estrada,
mas continuam vivas no olhar.
Porque o verdadeiro amor, às vezes,
não precisa morar no mesmo lugar.
Basta existir em duas almas
que nunca deixaram de se amar.
E se um dia a vida for generosa,
e o destino resolver sorrir também,
talvez descubram que alguns amores
não pertencem ao passado de ninguém.
São eternos, mesmo em silêncio.
Vivem escondidos na lembrança e na saudade.
Pois há despedidas que encerram um caminho,
mas nunca conseguem acabar com um amor de verdade.
A borboleta escarlate
Quando a conheci, era uma lagarta.
Rastejava pelo chão, insegura; os outros a olhavam com certo desprezo. Eu, porém, vi a mais pura beleza no sorriso daquela lagarta e fui arrebatado pelo amor.
Rastejei pelo mundo ao seu lado, admirando cada uma de suas formas. Entrelaçamo-nos em nosso casulo, um ninho de Vênus, onde o tempo parecia incapaz de nos alcançar.
Mas, à medida que Saturno fazia sua contagem, a lagarta transformou-se na mais bela borboleta que meus olhos já contemplaram. Toda metamorfose, porém, exige um preço.
Quando li o futuro em suas linhas, o porvir já me era conhecido. Ébrio de uma paixão egoísta, desejei aprisioná-la em um pote de vidro, para anestesiar meu sofrimento com sua formosura.
Contudo, suas asas ansiavam pelo mundo. Não nasceram para o vidro, mas para o vento.
Então, com o coração dilacerado, abri aquele pote e a deixei partir.
Desde então, ela percorre os céus com a leveza que sempre lhe pertenceu.
E quão lindo é o seu voo.
O meu mundo sem forma
Cada dia
meus desejos crescem
como raízes que racham a própria pedra
onde eu tento me firmar.
Ver o belo
e não poder tocá-lo
é aceitar, em silêncio,
uma ferida que ninguém pediu.
Não persigo o futuro.
Todo sonho que antecipo
parece roubar
o gosto do agora.
Então eu me abro.
Deixo o fluxo me atravessar
como o mar atravessa a areia
sem pedir licença.
Quero apenas isto:
ver.
Ser o olho que não prende,
o instante que não exige,
o homem que observa
e não se perde.
B*
Ela caminhava ao meu lado,
como minha sombra,
sempre a me acompanhar.
Na vergonha do olhar,
miserável eu fui
ao rejeitar
o tesouro que construí
naquele lugar.
Dormia e despertava,
e ela estava lá,
na madrugada,
insistindo em me visitar.
Que saudade
daquele espaço apertado,
onde o cheiro dela
permanecia presente,
sempre a me acalmar.
Despertava na manhã seguinte
apenas para ficar,
prolongando os instantes
antes de me levantar.
Cedo fazia
minhas refeições com ela,
e sua companhia
bastava para me alegrar.
Nossos dias eram curtos,
talvez por isso
tão difíceis de guardar.
Nunca tive tanta noção
de quanto sua ausência
viria me assombrar.
Deserto
Na travessia daquele deserto soturno,
uma jovem de alma pura
segurava minhas mãos.
No calor árido daquele deserto,
suas lágrimas matavam minha sede.
Quando o véu do mistério
se estendia pelo céu
e o frio tomava o mundo,
o abraço da jovem
era a fonte do meu calor.
No silêncio daquela travessia,
quando me perdi naquele deserto,
as miragens tomaram conta do meu ser.
Embebido em minha ignorância,
pintei meu tesouro
com os tons do medo.
Ele jamais voltará a ser o mesmo.
Agora atravessarei o deserto
lavando essa tinta
com as lágrimas
que minhas memórias produzem.
