Aluízio Melo
Deserto
Na travessia daquele deserto soturno,
uma jovem de alma pura
segurava minhas mãos.
No calor árido daquele deserto,
suas lágrimas matavam minha sede.
Quando o véu do mistério
se estendia pelo céu
e o frio tomava o mundo,
o abraço da jovem
era a fonte do meu calor.
No silêncio daquela travessia,
quando me perdi naquele deserto,
as miragens tomaram conta do meu ser.
Embebido em minha ignorância,
pintei meu tesouro
com os tons do medo.
Ele jamais voltará a ser o mesmo.
Agora atravessarei o deserto
lavando essa tinta
com as lágrimas
que minhas memórias produzem.
B*
Ela caminhava ao meu lado,
como minha sombra,
sempre a me acompanhar.
Na vergonha do olhar,
miserável eu fui
ao rejeitar
o tesouro que construí
naquele lugar.
Dormia e despertava,
e ela estava lá,
na madrugada,
insistindo em me visitar.
Que saudade
daquele espaço apertado,
onde o cheiro dela
permanecia presente,
sempre a me acalmar.
Despertava na manhã seguinte
apenas para ficar,
prolongando os instantes
antes de me levantar.
Cedo fazia
minhas refeições com ela,
e sua companhia
bastava para me alegrar.
Nossos dias eram curtos,
talvez por isso
tão difíceis de guardar.
Nunca tive tanta noção
de quanto sua ausência
viria me assombrar.
O meu mundo sem forma
Cada dia
meus desejos crescem
como raízes que racham a própria pedra
onde eu tento me firmar.
Ver o belo
e não poder tocá-lo
é aceitar, em silêncio,
uma ferida que ninguém pediu.
Não persigo o futuro.
Todo sonho que antecipo
parece roubar
o gosto do agora.
Então eu me abro.
Deixo o fluxo me atravessar
como o mar atravessa a areia
sem pedir licença.
Quero apenas isto:
ver.
Ser o olho que não prende,
o instante que não exige,
o homem que observa
e não se perde.
