O silêncio do Real. Havia um buscador... Aluízio Melo

O silêncio do Real.


Havia um buscador inquieto,
que perguntava por que o sol nascia
e para que o vento soprava.
Sempre lhe respondiam:
“Assim quis Deus.”
E ele silenciava.


Mas numa noite, sob o véu do céu estrelado,
sentiu-se pequeno,
ferido por uma saudade sem nome.
Correu aos guias de sua alma,
e disseram-lhe:
“Te falta Deus.”


Então mergulhou nos livros,
e a crença que o sustentava
tornou-se peso insuportável.
Viajou por tradições,
bebeu de fontes diversas,
mas a sede não cessava.


E quando nada restou,
quando o vazio gritou mais alto que a fé,
ergueu os olhos novamente ao céu.
E viu:
aquela imensidão não estava fora,
mas dentro dele.


No silêncio, ouviu o Amado dizer:


“Antes que teu nome fosse sussurro,
Eu já te chamava.
Antes que teus olhos se abrissem,
Eu era tua luz.


Em tua primeira lágrima,
era Eu quem corria em teu rosto.
Deixei-te perdido
para que Me buscasses.
Dei-te sede
para que descobrisses:
a água sou Eu.


Cada dor em teu peito
era Meu chamado.
Cada dúvida,
era Minha presença oculta.


Eu te amei em silêncio
por eras incontáveis.


Agora que Me reconheces, ouve:
Nunca estive longe.
Foi apenas tua pele que te separou de Mim.


Volta para dentro.
Ali te espero,
onde o mundo não alcança,
onde teu ‘eu’ se dissolve,
e só o Amor permanece.”


- Aluízio (inspirado em Ibn Arabi).