Coleção pessoal de luccisantz

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Ela tocava baixo,
como quem conversa com a própria dor
sem querer acordar o mundo.


Enquanto a casa ria atrás dela,
Tentava afinar o peito
na mesma frequência do violão velho.


Porque existem noites
em que a gente não quer companhia,
não quer respostas,
não quer promessas.
Só quer sobreviver
mais algumas horas
sem desabar por dentro.


E talvez fosse exatamente isso
que aquela música fazia:
segurava sua alma
no lugar
enquanto o resto dela
ainda aprendia a ficar.






Livro: La Vereda por Lucci Santz

Às vezes não existe “o que aconteceu”.
Existe só alguém que escolheu ir embora sem conseguir sustentar conversa adulta de encerramento.

Você não precisa reexplicar o inferno pra ter direito de falar dele.

"Nós Braços da Luz"


Deus me escuta no silêncio da manhã,
quando a alma cansada tenta ficar sã.
Entre medos guardados no fundo do peito,
Ele ajeita meu mundo de um jeito perfeito.
Quando a noite derrama tristeza no chão,
Sua luz faz morada no meu coração.
E mesmo que a vida machuque outra vez,
Sua paz me abraça com calma e lucidez.
Há dias em que tudo parece partir,
mas Deus sopra esperança e me ensina a seguir.
Como vento suave tocando a janela,
Sua voz me alcança serena e tão bela.
Ele vê minhas lágrimas sem eu contar,
conhece o silêncio que insiste em ficar.
E transforma o vazio, aos poucos, em flor,
cobrindo minhas dores com fé e amor.
Se o caminho escurece no meio da estrada,
Sua mão permanece comigo, entrelaçada.
E eu sigo mais forte, mesmo devagar,
porque quem anda com Deus nunca deixa de amar.
Então descanso a alma, sem medo, sem pressa,
pois até nas tormentas Sua bondade começa.
E no abraço invisível da fé que conduz,
meu coração adormece nos braços de luz.


__ Lucci Santz

“Tem dias que a alma fala baixo,
mas o coração grita o suficiente pra gente continuar.”

Tem coisa que era pra passar e vira residência fixa.
Uma ausência.
Uma frase atravessada.
Uma culpa antiga.
Um “e se” repetido tantas vezes que começa a parecer verdade.

A amizade .. Ela existe pra sustentar o que o amor não aguenta sozinho. Amigo de verdade é quem te encara no caos sem te transformar em projeto de reforma. É presença sem contrato emocional. Às vezes é só silêncio confortável, outras vezes é alguém te puxando de volta pra realidade quando tua cabeça resolve fazer teatro.

Há algumas portas que não abrem, trancadas como quem não tem volta,
E no meu peito,
Ah no meu peito… um cadeado e uma saudade escondida.

"Todo mundo quer ser escolhido com gentileza."

Talvez hoje eu não tenha “um mundo” pra entregar. Mas talvez o problema nunca tenha sido faltar mundo. Talvez tenha sido carregar o universo inteiro nas costas tentando ser indispensável pra alguém.

"As vezes a pessoa não faz falta pelo que ela era. Faz falta pelo que a gente era perto dela."

Café Frio e Silêncio


A ex chegou sem avisar,
a atual ficou no sofá,
uma perguntando quem era a outra,
e a outra sem nem respirar.
O café esfriando na mesa,
o clima pegando fogo no ar,
três mulheres e mil problemas
dentro do mesmo lugar.
Uma saiu batendo a porta,
jurando nunca voltar,
a outra saiu no silêncio
que faz qualquer peito afundar.
E no meio daquela fumaça
de ciúme, tensão e azar,
ela percebeu que amor confuso
só serve pra atormentar.
Porque quem cobra mas também esconde,
quem ama mas vive a duvidar,
transforma beijo em labirinto
e cansa qualquer olhar.
Então pegou o celular cansada,
pensou: “ninguém vai me endoidar”,
deletou as duas da cabeça
e voltou pro Tinder sem pensar.
Porque às vezes é mais tranquilo
tatuar dragão, cobra e punhal,
do que tentar entender
relacionamento emocional.


— Lucci Santz

O menino dos limões


Eu estava voltando pra casa de bicicleta
carregando cansaço, dívidas emocionais
e uma vontade silenciosa de desaparecer do mundo por algumas horas.
Então ele me chamou.
“Tia… você tem alguma moeda?
Eu tô com fome.”
Era só um menino.
Magrinho.
Pele morena.
Olhos verdes que ainda não tinham desistido da vida.
Um pitózinho torto no cabelo
e uma dignidade dolorosa na voz.
Dei as moedas e fui embora.
Mas alguma coisa me atravessou no meio do caminho.
Quando voltei
ele estava em cima de um muro
tentando pegar limão pra comer.
E naquele instante
o mundo inteiro ficou pequeno.
Pequeno feito gente egoísta.
Pequeno feito orgulho.
Pequeno feito discussão inútil.
Pequeno feito pessoas que machucam outras por vaidade
enquanto uma criança tenta enganar a fome com fruta azeda.
Levei ele na padaria.
E o que mais me destruiu
não foi a fome dele.
Foi o cuidado.
“Se ficar caro, tia…
pode deixar o refrigerante.”
Criança nenhuma deveria saber o peso de um refrigerante no bolso dos outros.
Mas ele sabia.
E eu ali
sem dinheiro
sem rumo
emocionalmente quebrada
percebendo que talvez eu tenha gastado demais tentando salvar adultos
quando poderia ter alimentado mais crianças.
Ele foi embora sem saber meu nome.
E eu fiquei ali
vendo um pedaço da humanidade indo embora a pé
com pão nas mãos
e fome no mundo.


Ass: Lucci Santz

TDAH ... É viver
com a mente parecendo cidade grande em horário de pico.


78 abas abertas.
Uma música aleatória tocando no fundo.
Memórias entrando sem bater.
Pensamentos tropeçando uns nos outros
feito gente desesperada correndo atrás de si mesma.


E no meio desse caos
você ainda tenta amar, ajudar, sobreviver, lembrar.


Mas sempre aparece alguém
transformando esquecimento em defeito de caráter,
como se tua mente cansada fosse ofensa pessoal.


Não entendem que existe diferença
entre não lembrar
e não se importar.


Aí vêm os gritos,
o esculacho,
a humilhação embrulhada em “sinceridade”.


Curioso como tanta gente exige compreensão
enquanto distribui crueldade com naturalidade.


Nossa espécie realmente acorda cedo
pra competir por medalha
de desgaste emocional.


E ainda assim,
mesmo perdida entre ruídos,
você continua tentando ser abrigo
pra quem nunca aprendeu
a não virar tempestade.

Amizade não é audiência disciplinar toda vez que você erra alguma coisa pequena.

Aprendi tarde que existem pessoas que confundem bondade com recurso infinito. Não virei fria por começar a dizer “não”. Só cansei de alimentar o mundo inteiro enquanto eu mesma passava fome por dentro.

Sorri.
Conversei.
Fingi normalidade.


Enquanto por dentro,
as paredes desabavam devagar.


Tem gente que acha
que a morte sempre faz barulho.
Mas às vezes ela chega mansa,
senta no peito
e apaga a pessoa aos poucos,
como luz de casa atrasada.


E o pior?
Você continua vivo depois dela.


Carregando os restos.
Aprendendo a respirar
com os pulmões cheios de ausência.


Mas existe uma coisa irritantemente nossa, humana..
sobre sobreviver:
mesmo quebrada,
a alma insiste.


Insiste em escrever.
Em sentir.
Em levantar da cama
mesmo sem acreditar muito no amanhã.


Talvez porque,
lá no fundo,
até as ruínas sonham
em virar lar outra vez.

Você viu distância.

Eu via ruínas
tentando ficar de pé
dentro de mim.

Há silêncios
que não nascem da falta de amor.

Nascem do excesso
de dor.

Você chamou de ausência.

Mas ninguém percebe
quando a pessoa
está desaparecendo
por dentro.