Coleção pessoal de luccisantz
Hoje o vento trouxe o cheiro do tempo
e bateu no rosto sem aviso.
Tinha gosto de estrada,
de coisa vivida,
de lembrança que não vira saudade,
mas pede atenção.
Ela é pequena e brava.
Às vezes parece que dendê corre nas veias.
Em outras, é leve e doce feito mel.
Mel da cor dos olhos que dei sem perceber.
Índia pequena.
Moça maluca.
Imprevisível, difícil de decifrar.
Em outra época, eu te daria o mar e o mundo. 🌊
Hoje não.
Hoje aprendi a fazer algo mais raro:
ficar.
Observar.
Sem posse.
Sem pressa.
Sem promessa.
"O símbolo que não fecha"
O infinito não promete.
Ele insiste.
Não tem começo, não aceita fim,
só dobra o caminho pra continuar existindo.
É o amor que não coube no tempo,
a dor que aprendeu a respirar sozinha,
o retorno eterno de quem vai
mas nunca some de verdade.
Infinito é laço, não linha reta.
É cair e voltar diferente,
errar com memória,
seguir mesmo cansada.
Não é pra sempre.
É apesar de tudo.
Acontece.
E a vida não pede permissão.
Só segue.
Quem sente aprende a andar diferente.
Quem foge repete.
Acontece.
As pessoas mudam.
Os afetos se transformam.
Algumas promessas não sobrevivem ao tempo.
E mesmo assim, certas histórias não se apagam.
Só aprendem a existir de outro jeito.
Um dia vou te encontrar de novo. Não por acaso. Por destino atrasado.
Já não serei a mesma pessoa.
Nossas vidas estarão diferentes.
Outros caminhos, outras versões, outras cicatrizes.
Mas algo em mim ainda vai reconhecer você.
Quando você começa a gostar de estar só, algo muda de eixo.
As pessoas deixam de ser abrigo e passam a ser escolha.
E isso, goste ou não, é um tipo silencioso de liberdade.
Escolher suas lutas te torna
menos reativa
e mais consciente.
Te tira do impulso
e te coloca no comando.
Nem toda batalha merece teu sangue,
nem toda provocação merece tua voz.
Escolher é maturidade.
É saber que vencer, às vezes,
é simplesmente não entrar.
Há propósito em tudo,
até nas pequenas ações.
No ato de respirar fundo
quando algo aborrece tanto
que puxar o ar te realinha,
te devolve ao eixo,
e impede que o erro escape
pela boca.
Respirar, às vezes,
é escolher não ferir.
Nem o outro.
Nem a si mesma.
Tornar possibilidades viáveis
é parar de esperar certeza.
É agir mesmo com medo,
mesmo incompleto,
mesmo cansada.
Não é sobre sonhar mais.
É sobre sustentar o que ainda fica de pé.
Dar corpo ao possível.
Dar passo ao que ainda treme.
O viável não brilha.
Mas anda.
Hoje o dia esteve diferente, não leve, mas com menos pesar.
Respirei sem pedir licença.
Andei sem fugir dos pensamentos.
Alguns vieram, outros cansaram de bater.
Aprendi que nem todo silêncio é vazio.
Às vezes é só descanso.
Não foi um dia bom.
Foi um dia possível.
E, honestamente, isso já é avanço.
Não romantizo a dor,
eu a reconheço.
O que ficou não é vazio,
é resto em estado ativo,
pulso discreto,
vida em continuação.
Eu não preciso entender agora.
Preciso apenas atravessar.
O arrependimento?
Algumas pessoas olham pra trás e sentem peso. Outras transformam tudo em narrativa conveniente pra dormir em paz. Não porque sejam monstros, mas porque encarar o próprio impacto dá trabalho emocional, e muita gente foge desse serviço como foge de imposto.
Você pode virar “uma história” na boca de uma pessoa. Pode virar silêncio. Pode virar culpa. Nada disso está sob seu controle. O que está é isto: você sabe o que viveu. E isso não pode ser reescrito por terceiros, nem diminuído por versões mal contadas.
Nada fica no pico o tempo todo.
Emoção não sustenta intensidade máxima por muito tempo. O corpo cansa, a mente cede. Isso não é fraqueza, é fisiologia.
