Coleção pessoal de luccisantz
“Desmontar-se não é se perder, é silenciar o impulso para compreender o que realmente merece ser reconstruído.”
Às vezes, somos a obra do que não queríamos ser.
Feitos de escolhas que não planejamos,
de feridas que não pedimos,
de perdas que nos mudaram
e de versões nossas que nasceram apenas para sobreviver.
Nem toda transformação é bonita enquanto acontece.
Algumas deixam marcas.
Outras mudam nossa forma de amar, de confiar, de permanecer.
E, ainda assim, seguimos.
Talvez amadurecer também seja olhar para essa obra inacabada que nos tornamos e entender que, mesmo sem ter escolhido o processo, ainda podemos escolher o que fazer com aquilo que restou.
Eu poderia continuar batendo à sua porta, mas aprendi que até o amor precisa saber quando transformar saudade em despedida e partir.
SEM ROMANTIZAR
Não vou chamar de amor o que me deixa esperando,
nem chamar de escolha o que vive me descartando.
Não vou pintar de destino aquilo que me feriu,
nem dizer que foi bonito só porque um dia existiu.
Amor não é disputar atenção com um vício,
nem aceitar migalhas chamando isso de compromisso.
Não é estar ao lado e ainda se sentir sozinha,
nem pedir presença de quem já escolheu outra companhia.
Eu não vou romantizar o abandono,
nem transformar silêncio em trono.
Quem ama também precisa permanecer,
não apenas voltar quando decide querer.
E se a despedida vier sem explicação,
eu não vou implorar por uma confirmação.
Há palavras que encerram antes do adeus,
e há portas que se fecham quando alguém diz: “procure outro alguém”.
Dói.
E eu não vou fingir que não.
Mas dor não é prova de amor,
assim como permanência não é prova de valor.
Às vezes, amar também é compreender
que ninguém pode ser salvo à força,
nem escolhido por quem não consegue escolher.
Então eu sigo sem transformar ferida em poesia bonita.
Porque algumas histórias não precisam de fantasia.
Precisam apenas da verdade:
eu quis ficar,
mas não vou me perder
tentando permanecer.
Falar de saudade do que nunca se teve é, de certa forma, querer viver aquilo que nunca esteve ao nosso alcance.
Mas o que eu guardo?
Guardo o sonho interrompido.
A vontade de ser mais de quem eu sempre fui para alguém.
Guardo os dias de trilhas e pores do sol que não tive a oportunidade de viver.
Guardo as conversas que ficaram pelo caminho, os planos que não chegaram a nascer e tudo aquilo que existiu primeiro dentro de mim.
E, principalmente, guardo a necessidade de ser tudo, mas não para qualquer pessoa.
Agora eu quero ser tudo para quem não vai transformar meu coração em abrigo.
Porque até os abrigos são temporários.
Eu quero ser morada.
Morada para quem chega e escolhe ficar.
Para quem não procura apenas proteção, mas pertencimento.
Para quem entende que um coração não foi feito para ser passagem.
Talvez seja essa a saudade que eu sinto.
Não de alguém.
Mas da vida que eu ainda não vivi com alguém que saiba ficar.
Eu me reinvento todos os dias para não me entregar.
Às vezes, certas mudanças são necessárias para preservar aquilo que ainda resta de quem você era antes do caos se instalar.
Não é deixar de ser quem somos.
É aprender a proteger o que sobreviveu.
Às vezes, tudo o que a alma deseja é um pequeno recanto onde possa tirar os sapatos da pressa, abandonar as armaduras e respirar.
Sem precisar ser forte.
Sem precisar explicar.
Apenas ser.
Talvez seja essa a verdadeira saudade de casa:
sentir falta de quem éramos quando ainda sabíamos onde nossa alma descansava.
“Algumas amizades não terminam quando o afeto acaba. Terminam quando a reciprocidade é colocada à prova.”
