Coleção pessoal de luccisantz

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Algumas pessoas não são feitas para ficar. São feitas para atravessar a nossa história, deixar alguma coisa em nós e seguir. E talvez aceitar isso seja uma das formas mais difíceis de entender que nem toda partida significa que o que vivemos foi menos verdadeiro.

Um recomeço nem sempre chega acompanhado de uma grande descoberta.
Às vezes, começa com uma decisão simples:
Hoje eu começo.
E desta vez,
o passado não precisa autorizar nada.

Talvez recomeçar
seja acordar um dia
e perceber que você ainda se deve uma vida.

Dor não grita sempre.

Às vezes,
fica quieta,
muda hábitos,
encurta abraços,
apaga vontades.

Depois, chamam isso de superação.

Não é.

É adaptação.

“Quem fica quando você cai não é necessariamente quem mais dizia amar você.”

Eu sempre soube ficar.


Pelos outros.
Pela família.
Pelos amigos.
Pelas pessoas que estavam quebradas.
Pelas pessoas que não sabiam pedir ajuda.
Pelas pessoas que precisavam de alguém.


Mas ninguém me ensinou o que fazer quando sou eu quem está quebrada.
Talvez seja essa a grande descoberta:


Algumas pessoas gostam de você.
Algumas precisam de você.
Algumas dizem que amam você.
Mas poucas sabem permanecer quando você deixa de conseguir carregar o mundo nas costas.

“Às vezes, partir é a única forma de voltar a ser quem você era.”

Talvez ninguém entenda o tamanho de um “não”
quando ele encontra alguém
que já cansou de pedir,
mas ainda tinha esperança
de ser acolhida por uma mão.


Porque nem toda lágrima nasce da ausência.
Às vezes ela vem do excesso:
de tudo que a gente engole,
de tudo que suporta,
de tudo que cala
para não parecer fraca.


Há dias em que não queremos respostas.
Queremos presença.


Não precisamos que alguém conserte o mundo.
Basta que fique.


“Deixa.
Eu fico aqui.”


Mas algumas pessoas vão embora
justamente quando descobrem
que, desta vez,
você também precisava de alguém.


E dói.


Dói porque quem sempre segura
também pode cair.
Quem sempre encontra saída
também pode se perder.
Quem vive dizendo “eu dou um jeito”
um dia pode simplesmente
não ter mais jeito para dar.


E talvez ninguém veja
o tamanho dessa queda.


Ainda assim,
há uma coisa que permanece:


a palavra.


Quando não há colo,
há página.


Quando não há abrigo,
há poesia.


E quando a dor não encontra lugar para ficar,
eu a transformo em verso
até ela aprender
a não me destruir.


Não escrevo para que tenham pena.


Escrevo para não deixar que a dor
seja a última coisa que diga quem eu sou.


Se a vida me tira o chão,
eu escrevo.


Se o mundo me fecha uma porta,
eu escrevo.


Se ninguém fica,
eu ainda tenho palavras.


E talvez seja essa a minha forma
mais silenciosa de permanecer:


transformar o que me feriu
naquilo que ninguém poderá
arrancar de mim.










Lucci Santz

Ainda sinto saudade daquela criança.

Da pureza de acreditar que ser bom bastava.
De vestir uma capa imaginária
e sair pelo mundo acreditando
que ninguém deveria ficar sozinho.

Hoje eu sei que heróis também cansam.

E talvez eu não queira mais salvar ninguém.

Talvez eu só queira, pela primeira vez,
que alguém olhe para mim
e diga:

“Agora deixa.

Dessa vez,
eu salvo você.”

A dor de um braço quebrando não termina no instante em que o osso cede.

Existe o estalo.

Existe a carne tentando entender o que aconteceu.

Existe o corpo inteiro procurando uma posição onde a dor diminua, mesmo sabendo que nenhuma posição resolve.

Mas existe uma outra dor.

Aquela que ninguém vê no raio-X.

Aquela que fica quando você percebe que alguém foi capaz de olhar para você e escolher a violência.

E então não é mais só o braço.

Quebra alguma coisa por dentro.

Quebra a sensação de segurança.
Quebra a confiança.
Quebra aquela parte ingênua que ainda acreditava que certas pessoas simplesmente não seriam capazes de atravessar determinados limites.

E existe a humilhação.

Aquela sensação miserável de estar ali, machucada, vulnerável, tentando juntar os pedaços enquanto quem fez aquilo talvez siga respirando como se tivesse apenas atravessado mais uma esquina.

Você se sente pequena.

Sozinha.

Às vezes, até suja de uma culpa que não é sua.

Como se o corpo violentado carregasse também a vergonha da violência.

Mas não.

A vergonha não é minha.

Nunca foi.

O lixo não sou eu.

Lixo é quem precisa destruir o corpo de outra pessoa para se sentir grande.

Lixo é quem transforma força em covardia.

Lixo é quem levanta a mão porque não possui argumento, caráter ou humanidade suficientes para permanecer de pé diante de alguém.

Eu estava sozinha quando a dor chegou.

E talvez essa tenha sido uma das partes mais cruéis.

Porque há momentos em que a gente gostaria de ter alguém segurando nossa mão, dizendo que vai passar, dizendo que aquilo não aconteceu porque merecíamos.

Mas ninguém deveria precisar de uma testemunha para provar a própria dor.

Eu sei o que senti.

Eu sei o que ouvi.

Eu sei o que meu corpo suportou.

Eu sei o que quebrou.

E sei também que existem ossos que médicos conseguem colocar no lugar, mesmo que demore.

A alma é mais complicada.

Ela não recebe gesso.

Não existe cirurgia para devolver imediatamente a confiança.

Não existe remédio capaz de apagar a imagem da covardia.

Então eu vou ter que reconstruir.

Devagar.

Com raiva, talvez.

Com lágrimas também.

Com dias em que vou me sentir forte e outros em que vou me sentir um lixo por uma violência que nunca foi minha.

Mas vou reconstruir.

Porque aquele homem conseguiu quebrar meu braço.

Não conseguiu decidir quem eu sou.

E talvez essa seja a primeira coisa que eu precise aprender novamente:

eu não sou o que fizeram comigo.

Eu sou a mulher que sobreviveu ao que fizeram comigo.

E isso muda tudo.

Se o preço para pertencer é deixar de ser quem sou...


Prefiro continuar rara.

CONTO: A Última Batalha dos Heróis


Na cidade de Aurória, ninguém sabia quando os heróis haviam surgido.


Sabiam apenas que, sempre que o medo encontrava um endereço, eles apareciam.


Aurion dominava a luz.


Tempest, os ventos.


Titã possuía a força de uma montanha.


Lince atravessava sombras como quem atravessa uma cortina.


Durante décadas, venceram guerras, monstros e catástrofes.


Até que surgiu um inimigo diferente.


Ele não trazia armas.


Nem exércitos.


Chamava-se Esquecimento.


Por onde passava, as pessoas deixavam de acreditar nos heróis.


Não era magia.


Era indiferença.


Os jornais pararam de escrever.


As crianças deixaram de sonhar.


Os adultos passaram a dizer que heróis nunca existiram.


E, quanto menos eram lembrados, mais fracos se tornavam.


Aurion foi o primeiro a cair.


Sua luz tornou-se apenas um reflexo.


Depois Tempest já não conseguia mover uma folha.


Titã mal conseguia levantar a própria espada.


Restava apenas Lince.


Ela caminhou até o centro da cidade e encontrou uma menina desenhando com giz na calçada.


No desenho havia quatro figuras usando capas.


Lince sorriu.


Perguntou:


— Quem são eles?


A menina respondeu sem levantar a cabeça:


— São os heróis.


Minha avó disse que eles protegem quem ainda acredita.


Naquele instante, uma centelha percorreu o céu.


Aurion voltou a brilhar.


Os ventos obedeceram outra vez a Tempest.


Titã ergueu a espada como se nunca tivesse caído.


O Esquecimento percebeu tarde demais que jamais enfrentava músculos ou poderes.


Enfrentava a memória.


E memória nenhuma pode ser apagada enquanto existir alguém disposto a contá-la.


Quando tudo terminou, os heróis desapareceram novamente.


Mas, desde então, sempre que uma criança desenha uma capa, uma máscara ou um símbolo em uma folha de papel...


Aurória sorri.


Porque sabe que, em algum lugar, um herói acaba de nascer.




Lucci Santz

"Minha tristeza aprendeu a dobrar roupas. Ficou doméstica."

"Há pessoas que vão embora levando apenas as malas. Outras esquecem um inverno inteiro pendurado no cabide da sala."

Quando o Silêncio Aprendeu Meu Nome


A casa continuava inteira.
Era eu quem faltava nos cômodos.
Meu corpo atravessava o corredor, mas a alma insistia em permanecer na maçaneta da última porta que nunca tive coragem de abrir.
Descobri tarde que o silêncio não nasce da ausência de vozes.
Ele nasce quando nenhuma palavra aceita morar na boca.
Há dias em que converso com as janelas.
Elas entendem o idioma das pessoas que olham para longe porque perto demais também machuca.
Não espero mais respostas.
Coleciono perguntas como quem guarda sementes sem saber se ainda existe primavera.
E, curiosamente,
foi depois de perder quase tudo
que descobri
que algumas ruínas também sabem florescer.




_Lucci Santz

“Quando o Pensamento Precisa Caber em Caracteres”


É uma discussão antiga, aliás. A tecnologia nunca é só uma ferramenta neutra; ela muda hábitos. A imprensa mudou a leitura, a televisão mudou a narrativa, as redes sociais mudaram a atenção. Agora temos plataformas onde uma reflexão precisa disputar espaço com uma piada de três palavras e um anúncio de produto milagroso, porque aparentemente até o caos ganhou algoritmo.

Ainda penso nela, mas não com a mesma dor.

O vazio continua aqui. Não desapareceu. Apenas deixou de ser um quarto sem janelas.

Entre as frestas que o tempo abriu, o ar finalmente entrou. E, pela primeira vez em muito tempo, eu consegui respirar sem que cada lembrança parecesse um afogamento.

Ela ainda existe em mim. Só já não ocupa todo o espaço. O silêncio continua, mas deixou de ser um castigo e passou a ser apenas silêncio.

Talvez seja isso que chamam de seguir em frente. Não esquecer alguém. Apenas aprender que até o vazio pode deixar passar um pouco de luz.

Há encontros que não aproximam ninguém de si.


São apenas dois vazios reconhecendo o mesmo endereço.


Quando uma pessoa diz ser o reflexo da outra, talvez não esteja falando de amizade, mas daquilo que ambas deixaram crescer sem perceber. O espelho não cria o rosto; apenas devolve o que encontra diante dele.


E há reflexos que não mostram quem somos. Mostram apenas aquilo que, por tempo demais, permitimos ocupar o nosso lugar.


Lucci Santz

Há pessoas que passam pela nossa vida como o vento. Outras ficam como raízes. A sabedoria está em não insistir no que foi levado, mas em cuidar daquilo que escolheu permanecer.

Hay noches en las que la distancia parece más grande de lo que realmente es.
El reloj avanza lentamente, los pensamientos crean historias y el corazón intenta llenar los espacios vacíos.


Pero amar no es sostener a alguien de la mano todo el tiempo.
Es saber que algunas alas necesitan libertad para elegir el camino de regreso.


Porque aquello que es verdadero no necesita prisión, necesita presencia.