Coleção pessoal de bodstein
Se sente que precisa defender um lado, defenda o certo. Se acha necessário escolher um, escolha o de fora.
Aprendi há tempos que um parâmetro infalível para avaliação de qualquer tese é muito mais simples do que se pensa: basta colocar toda reserva do mundo quando apresentada por um dos defensores do verde ou por qualquer combatente do vermelho e vice-versa.
Tomam-se ideologias de esquerda ou direita como guardiões dos ideais mais nobres da humanidade, quando na verdade passam por ali atores de todo tipo que não só esquecem rapidamente do que os levou até elas como desmentem com seu exemplo as ideias que supostamente os teriam inspirado. A única escolha que jamais nos decepcionará será sempre a bandeira da honra e da licitude em lugar das flutuantes e voláteis ideologias dos fanáticos, pois que não fica sujeita às correntes de ar que as jogam a todo momento de um lado para outro.
Queres testar os limites de minha tolerância? Basta subestimar-me a inteligência pelo tratamento dado a um débil mental. E se a ideia é saber a intensidade de minha ira, será o bastante impor-me algum tipo de controle ou a supressão do meu direito de escolha. Em ambos os casos poderás conhecer a dimensão de uma rebeldia assumida como indomável!
Buscas ser visto como justo por Deus? Pois que o sejas combatendo os que se acreditam “mais iguais” do que outros, uma vez que a justiça não dispõe os homens em diferentes degraus, e estarás sendo tão justo e amoroso quanto o deus que trouxeres em ti.
Consideras-te justo? Mas o que o que seria “um justo” em conformidade com os livros sagrados? Aquele que dedicou sua vida a cuidar do espírito e salvar a si mesmo do inferno? Eu diria que não se encontrará justiça entre os egoístas e os acovardados. Estarias te mostrando mais justo se te dedicasses a combater as desigualdades impostas aos mais fracos em vez de te ocupares em ser mais benevolente com seus algozes.
Equivocam-se aqueles que lamentam a perda de agentes malévolos em nome de uma suposta nobreza de alma, pois contribuem com o mal quando esquecem que este só acaba pela extinção da fonte. Mesmo que nossa essência não se alegre com o fim do agente, não é errado sentir-se bem com o término da nascente contaminada que polui o rio e faz a degradação chegar ao mar. Estender a caridade a demônios – que jamais se purificam – mostra apenas que não temos compaixão por suas vítimas. Se tal padrão fosse a melhor escolha Deus não teria colocado espadas nas mãos dos Arcanjos.
Toda unanimidade não é apenas burra: quem a integra acredita disfarçar sua burrice pelo uso de uma suposta verdade coletiva que geralmente nada tem de inteligente! A rigor, é provável que todas as peças que compõem o todo, se somadas, não alcancem a inteligência de um único jumento!
A partir da conectividade mundial instantânea e de fácil acesso, uma grande parcela da humanidade – acreditando ter-se tornado mais autêntica – perdeu a noção do limite entre público e privado, expondo pelas mídias suas pústulas, mazelas e infortúnios como se a todos precisassem ser reportados. Ainda que andar nu seja natural e salutar, a sociedade não vê com bons olhos que o façamos livremente. Da mesma forma há que se ter preservada a linha divisória entre nossos rostos – que pertence ao público – e a intimidade, que só a cada um diz respeito.
Se precisas de uma cartilha para definir teu rumo, melhor escreve-la tu mesmo, e ainda fazê-lo a lápis tendo uma borracha na outra mão. O cenário de transformação torna obsoleto qualquer caminho permanente. Daí porque somente trilhas – em vez de trilhos – podem reduzir riscos por permitir uma eventual mudança de rumo ou se tomar atalhos quantas vezes for necessário para não se perder a corrida para a história.
De que se valem os déspotas para obtenção e manutenção do poder? Simplesmente aproveitar-se da ignorância que lhes facilite a livre manipulação da vontade alheia, impondo a outrem decisões que não passem pelo senso crítico de pretensos apoiadores de modo a respaldar decisões partidas da única cabeça pensante na obtenção de objetivos espúrios.
Conceitualmente lógica e inteligência se tratam de coisas distintas. Mas também fica evidente que o cérebro que não coloca a lógica à frente de suas escolhas não se mostra tão provido de Inteligência quanto ele próprio acredita.
O combate implacável ao "efeito manada" – que cerceia o livre exercício do pensamento – é o caminho mais seguro para se fugir à manipulação usada como forma de garantir o poder. Todo indivíduo deveria ter as próprias convicções como seu bem mais sagrado e inviolável, recusando-se a delegar tudo que não se mostre em estreita sintonia com elas e preservar a autonomia enquanto senhor absoluto de suas escolhas. A lógica deveria ser a única coisa colocada à frente das escolhas pessoais.
A partir de determinada idade o mundo nos dá uma espécie de “carta de alforria“ com grau progressivo de liberdade em relação ao que sempre quisemos, mas não tínhamos permissão para colocar em prática, e a sensação é a de se estar sendo abonado por tantos anos cumpridos de “detenção social”.
Há aquele tipo de pessoa que se torna nociva à sociedade pelas maldades que leva diretamente a milhares e, por vezes, a milhões de pessoas. Mas há outras que não o fazem de forma tão explícita: elas vão aos poucos despertando em doses homeopáticas todos os demônios que o ser humano traz adormecido dentro de si para disseminar, sem controle, a maldade da fonte em cada indivíduo do qual vão se apossando, dia após dia. Enquanto que, nas do primeiro tipo, o mal costuma ser extinto com sua morte, nas do segundo a ação é transformada num legado maldito que continua reproduzindo o mal e fazendo vítimas ao longo de muitas gerações, e que as deixa tão malignas e potencialmente tão destrutivas quanto o espírito que as gerou.
Direita, centro ou esquerda são pontos alinhados e equidistantes que mostram lados conflitantes de um mesmo todo, aprisionados em uma caixa que, por sua vez, tem dois outros lados: um é o de dentro – onde os primeiros se encontram – e o outro é o de fora, único que garante mantermos intacta a nossa autonomia.
O dia em que todo indivíduo recusar-se a abrir mão de sua autonomia enquanto sujeito de escolhas, estará declarada a extinção definitiva e irreversível de toda tirania, despotismo e liderança focada num tipo de poder cujo objetivo não vai além de ampliar ao máximo o número de seus servidores.
O efeito-manada é um dos males que mais assolam a humanidade, e pelo qual tantas ignomínias são praticadas. Os vultos que mudaram o curso da história surgiram por conta de ideias solitárias transformadas em gigantescas alavancas em vez de bandeiras, e é isso que difere um gênio autêntico do mero fabricante de ideias atrás de prestígio e dinheiro, antes de um legado à posteridade.
O que mais quero para mim? Seguir até o último dia de vida sem ninguém me ditando o que devo vestir, comer, e se devo ir ou não à qualquer lugar; se “o melhor para mim” é sopa de legumes ou hambúrguer, a que horas vou dormir ou de que lado da cama deitar. Tem coisa melhor no mundo para um libertário do que permanecer senhor absoluto do próprio destino enquanto estiver vivo?
