Coleção pessoal de bodstein
Sempre que abrimos mão da comparação para nos deixarmos conduzir por uma única fonte, corremos o sério risco de levantar a bandeira do absurdo surgido na cabeça de mentes doentes. A lógica jamais dispensará o cuidadoso trabalho de reunir dados dos mais diversos e compará-los até a exaustão, antes de concluir pela verdade que se esconde por trás de todos eles.
Demonstrar respeito aos outros não é uma escolha, mas obrigação devida a todo indivíduo enquanto pessoa. Ninguém pode estar sujeito àquela falta de respeito que o exponha ou inferiorize, isso é fato. Mas há um outro tipo de respeito que nos brota na essência, queiramos ou não, e não se consegue oferecer gratuitamente quando o outro revela não dá-lo a si mesmo. Resta-nos, nesse caso, dedicar o obrigatório a todos, porquanto seres humanos, mas não desperdiçar aquele de caráter íntimo com quem inequivocamente não dá qualquer importância ao ato DE SE FAZER respeitar.
Conhecem a “síndrome da auto-reversão”, que costuma acometer os complexados? Sempre que presenciam um elogio feito a alguém, de imediato reagirão de forma agressiva como se uma ofensa tivesse sido dirigida a eles. A completa ausência de auto-estima de que são possuidores os induz a raciocinar por exclusão. Dessa forma, uma referência à inteligência de alguém, por exemplo, é o mesmo que dizer que todos os demais – incluindo ele – são burros.
O bom senso nos diz que o ceticismo tem um limite, e este vai até o ponto em que a lógica não o contradiga. A negação pura e simples, a partir desse ponto, se contrapõe não apenas à lógica, mas às fronteiras aceitáveis da inteligência.
A negação do imponderável, apenas por desconhecê-lo, é própria de quem se retira da platéia aos cinco minutos do início do filme e propaga aos que estão comprando o ingresso que não o viu porque ele não presta.
Em se tratando do incerto e do inusitado, a dúvida se apresenta como única alternativa inteligente. Reduzir-se toda a existência à microscópica dimensão cognitiva de nossa ciência não revela apenas excesso de pretensão: passa atestado de ignorância travestida de sapiência.
Diante da parte imensurável que não se conhece, o inexplorado pode ser no máximo improvável - algo do que meramente ainda não se obteve as provas - o que não é a mesma coisa que "inexistente".
O universo é tão infinito em sua complexidade que se torna extremamente simplório limitá-lo aos referenciais conhecidos ou restringi-lo ao palpável e visível, como tudo o que se afasta disso devesse ser relegado à área do impossível e do irreal;
Existe uma tendência para se confundir idade com grau de consciência, ignorando-se o fato de que tanto há jovens irresponsáveis ou concientes quando idosos responsáveis ou inconsequentes no pleno uso de suas faculdades. O que não se pode é tratar todo jovem como sujeito de deveres e todo idoso como passível apenas de direitos, quando ambos sabem o que estão fazendo e devam assumir as consequências na mesma proporção, isso sem contar o agravante da experiência.
O direito chama de “inimputáveis” aquelas pessoas que perdem a capacidade de fazer escolhas. Mas entende que quando se mostrarem lúcidas o bastante para fazê-las, devam ser igualmente responsáveis pelos resultados delas e tratadas em condição de igualdade com qualquer indivíduo no pleno exercício de seus direitos e deveres. Não lhes cabe, portanto, reclamar os bônus e se eximirem dos ônus por suas inconsequências.
Um dos maiores enigmas do comportamento humano é entender porque muitos permanecem carentes e inseguros ainda que rodeados por pessoas e mergulhados nas muitas coisas que acumulam sem cessar. A resposta é que vêm desde sempre de uma solidão coletiva e das tantas posses sem significado, permanecendo em busca de cura para o incurável e suprimento que universo algum poderá suprir, já que o vazio se faz por dentro e não por fora.
Só se pode saber o quanto a solitude pode ser rica e plena após experimentar o convívio com os que têm muito menos do que o tanto mantido em nosso intimo para ser saboreado.
O que pode nos acontecer de pior não é morrer antes de chegar aos 100 anos. O pior mesmo é atravessar um século inteiro e não aprender nada com isso.
O grande equívoco da humanidade diante do que desconhece é permanecer esperando pela resposta quando, em vez disso, deveria estar concentrada em se fazer a próxima pergunta.
Nada mais libertador do que ser protagonista da própria série, em vez de coadjuvante de tragicomédias de temporada permanente. Há que se saber a hora de abandonar os palcos mambembes, os enredos trágicos de sorrisos forçados onde personagens congelados encenam dramas que se repetem em moto-contínuo. A vida real só atinge sua plenitude quando descemos do palco.
Qual a melhor parte de não esperar que os outros façam nada por você? É que os seus dois lados – o que faz e o que recebe – estarão sempre buscando o mínimo que não sacrifique o outro: seu lado servidor só irá fazê-lo até o ponto em que o consiga, e o lado servido sabe que precisa respeitar esse limite para continuar recebendo. Com isso o todo encontra harmonia automática entre o que se quer e o que se pode, mantendo-se imune a frustrações ou sentimentos de culpa e sem cobrar nada além do necessário para sentir-se satisfeito e feliz. Nossas relações conseguiriam o mesmo se exigíssemos dos outros o mesmo que cobramos de nós mesmos.
