Coleção pessoal de Amontesfnunes
MEU PÁSSARO
Canta oh, meu pássaro
que a noite longa vem
a qual eu passo sonhando
com os braços do meu bem.
Voa, voa meu pássaro
pelo espaço do tempo
diga meu amor que me acho
perdido em pensamentos.
Meu pássaro leve p'ra mim
um recado há minha flor
diga que o meu jardim
já murchou sem seu amor.
Se suas asas no espaço
embaralhar sob pressão
não me deixe aqui, meu pássaro
arrastando o coração.
Antonio Montes
MEU SANTO
Valei-me, teime meu santo
com o fulgor d'essa quermessa
me valha aqui no meu canto
enquanto eu faço a promessa.
Não me deixe partir a míngua
eu não quero tomar na testa
dei canseira com minha vinga
no vingar que a mim não presta.
Valei-me teime, meu santo... Com
quebranto que alguém me deu,
estou vivendo em desencanto
com encanto que nunca foi meu.
Valei-me teime meu santo!
Com os santos todos impedido
o planeta aqui, é um canto
que se dá bem, quem é bandido.
Vou partir do jeito que vim
voar para onde não há nada
pois nesse mundo por aqui
tudo é um conto de fada.
Antonio montes
SEU CORPO
Seu corpo é asas que vagueia
e voa abanando o meu querer
expele no tempo e me tonteia
a ginga e o feromonio de você.
Ao bailar sobre a calçada
em passadas e seu balançar
meu peito se queima em brasa
com a vontade de te amar.
Você se vai, se manda, some
deixa-me solto em meu pensar
noite em sonho, sou um homem
falecido, por esse seu vagar.
O sol rasga o tenso escuro
iluminando, alegre amanhecer
e eu acordo, sonhando no mundo
sonhos que me arrastam a você.
Antonio Montes
A sabedoria...
Crescia enquanto,
não sabia de nada,
Morria quando achava...
Que sabia de tudo.
Antonio Montes
O DEDO
Sou dedo, que quando me dédo
me enleio nos enleios dos escanteios
das macegas que enxerga as cegas...
Que me leva sem relar, me leva em
sua leveza, me leva na trela,
desse seu levar.
Sou dedo, que quando me aponta...
Sua ponta me atonta, me entrega,
sob, bordoada com sua apronta,
e desafronta em bronca, sem ponta,
e que sem ponta aponta em minha
direção, essa sua viciosa carranca.
Sou dedo bronco, e como tal...
Eu me desaponto com seu confronto,
assim todo tonto... Me amedronto,
com sua ponta a qual, toda vez
que me mira com sua mira...
Me atonta.
Dedo, duro impuro, porque não!
O dedo que dedou os horrores do cão...
Dedo que furou o bolo
arrumou rebolo
e tremendas confusão...
O dedo que não tem boca, não tem fala mas,
maltrata o coração...
O dedo que todavia tem parte
com a arte do velho escariote
e que mesmo sem falar,
as vezes diz sim!
as vezes diz não!
Antonio Montes
TÃO, TÃO
Esse olhar radiante,
tão seu... Tão meu
Tão belo, na rua
Tão bela, na sua
N'essa lua, nesse ar
assim, toda crua
compenetrada, sei lá,
tão seu esse deixar...
Tão meu esse amar.
Antonio Montes
POÇO DA PAIXÃO
Se o meu chorar não fosse lágrimas
talvez... Talvez eu aguentasse
Mas, como lágrima é água,
quando os sentimentos me apavoram...
Me banho em lágrimas! Por isso...
Quanto mais eu choro...
o meu amor desfalece e se degrada.
Mas veja... Com o tempo
o poço da paixão secou,
e quando me dei conta...
Eu tinha chorado todas as lágrimas...
D'aquele nosso louco amor.
ALAGARTIXAR DE AMOR
O que importa o amanhã
se o rascunho d'essa noite será
para nos alagartixar sob o abscuro
dos nossos desejos!
Vamos transformar o nosso segredo
em oceano de prazer, e mergulhar nas
profundezas do nosso querer.
Vamos nos embolar pela praia das nossas
volúpias e desfalecer sobre a espuma
da nossa paixão.
Perder-nos-emos sobre o triangulo
d'essa anciã, e quando há noite passar...
saldaremos a profundeza da nossa entrega
e juntos aplaudiremos os delírios dos nossos
corpos, e para o sol, demonstraremos
o quanto é bom ser louco! E para o amor,
toda loucura e cura, e ser louco é pouco.
Antonio montes
PORTA DO TEMPO
Tranque a porta, tranque a porta
... A pancada do coração a horta
quando passar pelo tempo...
tranque em ti os sentimentos
e a porta com seus momentos.
Não deixe as rugas passarem
nem o cansaço desse corpo
não deixe os olhos embaçar
por causa dos sentimentos locos.
Tranque a porta, tranque a porta
P´ra que deixá-la aberta...
Somente para atrapalhar!
Não vê que não se tem hora certa
quando a velha morte chegar.
Tranque a porta, tranque a porta
quando aportar as saudades
assim quando o passado passar
ainda deixará felicidade.
Antonio Montes
ESSE CLIMA
Seu moço... E esse frio...
Deixando todos roxos!
Frio, que mais parece rio,
congelando osso
tremendo pescoço.
Frio, frio que nem fio de navalha...
sepando o couro da cara
com esse vento insosso,
ah seu moço!
Poderia em vez de frio, calor...
Clima de colosso.
Um clima que todos
possam ir a praia
entrar na gandaia
nadar na água
e com pedaços de pedras
brincar atirando-a ao tempo
como se fosse piaba
saltando aos ventos.
Antonio Montes
LAMBUZO DA PAIXÃO
Com pentagrama eu rascunhei
as notas envolventes da nossa paixão
e sob passos do meu peito
eu marquei os contra passos
do nosso amor,
e, induzido pelo seu calor
e dancei sob passos entrelaçados,
e laçados pelas notas do coração.
Uma vez no salão da sedução...
Enquanto o frenesi, elevava meu ego,
eu, rodopiei em seu chamego...
desfalecendo sobre seu corpo
e lambuzando-me sobre sua volúpia...
Eu pincelei amores que deixavam loco.
Antonio Montes
ESSE PRAZO
Eu preciso de tempo,
antes que me acabo, me de prazo,
para que eu possa, me ajuizar
nesse juízo de mandatos
que sem ouvidos, me arrastam
pelos meus gritos e castigos
pelos trilhos que estavam contigo
e pela leis desses proscritos.
Vida sem prazo, não é nada
... Enforcamento de tempo
afogamento d'água
me vejo molhado, sem asas,
em angustia, que arrasa,
mesmo sem lado, sou de casa,
n'essa brasa, que me aça
no estrangulo nesse fado
me sucumbo nesse enfado.
Meu prazo longo...
meu tempo passa,
vida me abraça, com essa brasa
ébrio me acha...
E eu, fico assim, n'essa cachaça
... Na incisão de prestação
de uma nação sem coração
quanta paixão!!!
Quantas bombas, nesse torrão.
Antonio montes
LAÇOS DA FORTALEZA
Presa em seus laços
a princesa em volta da realeza...
Revolta com a sua fortaleza...
Maldiçoa a riqueza!
mas nunca foi acalentada,
pelos braços da pobreza!
Antonio Montes
SAIA
Se a casa vai cair, saia...
Saia de calça ou de saia,
saia sem roupa, ou de cambraia
... Saia de mim, saia por ai...
Pelas ruas pelas praças,
saia de saia, em sua saia!
Saia d'aquela forma que ensaia
... Saia, pela praia.
Se a casa vai cair, saia...
Pode ir, não atrapalha!
Saia de óculos de sombrinha,
de binóculo ou de guarda-chuva
... Saia no sol, saia na chuva,
se todos agora estão de saia!
Saia da curva e das uvas
Saia com esses olhos de dormir...
Saia, saia já dai! Saia d'aqui!
Saia se tiver por onde ir...
Antonio Montes
GRUNHIR DE PAIXÃO
Se você me amasse com classe..
Não teríamos embate, muito menos
impasse... Mas, o seu amor...
É como pétalas de rosa e passe.
... Ah secar nas sombras com,
embace, ou como tabaque...
Pulsando o coração, com baques...
Arrastando-me por esses escapes,
mesmo assim! Me faz tinir por essa
paixão... Urrando como lobo, ou...
Grunhindo como se fosse, um cão.
Antonio Montes
ORDINAL
Estava pelo meio, quando você veio
e, interveio o meu querer, tão logo,
me carimbou com seu rascunho...
Marcou a minha paixão, moendo-me
como se fosse, muinho ou ciclone
de redemoinho.
Eu era um rabisco, de um mundo vago
um pássaro sem céu,
um cisne sem lago...
Nunca estive cheio! Perecia de sorriso,
esbanjava tristeza, e a solidão permeava
a minha realeza.
Então você veio, apareceu e interveio,
jogando tudo para escanteio!
Passei a fazer parte do seu entrevero
mesmo sabendo que no seu mundo...
Eu nunca fui o primeiro!
Antonio Montes
OCEANOS EM VIGOR
Sempre existirá oceanos
sucumbindo os pássaros, sem
sair do lugar...
Enquanto longe de mim,
a sua felicidade floresce os jardins
dos seus dias... Há meu lado,
A solidão, sacia seus momentos
emanando os entrevero dos seus
vil sentimentos.
Antonio Montes
O MEDO FRÁGIL
O trato que tu fizeste...
Com seu íntimo amigo caco
destrinchado em confete...
Saiu do seu reles comodato,
e confessou, quebrou o pacto.
O frágil quando se mete,
em sua pose todo garbo...
Expele sebo dos pedaços,
treme chão com seu mormaço
e desequilibra em seu voar.
Desfaz do seu pesado fardo
... Dança fado sem as asas,
junta lágrimas p'ra chorar
tilinta a taça do seu medo
e bota o sebo p'ra coçar.
PIK PEK, PEK PIK
Piui, piui, pik pek, pek pik
piui, piui...
Lá vai o trem, lá vai, lá vai
... Vai saindo da cidade
passando pelas casinha
deixando e lavando saudade
de manhã, de tardezinha.
As mãos segue-o abanado
dando adeus pelos quintais
vuco, vuco, vai saldando
sentimentos vão atrás.
Piui, piui, pik pek, pek pik
piui, piui...
Lá vai o trem lá vai, lá vai
... Pelos estios, pelos rios
pelas pontes e horizonte
pelas lamas pelo estio
pelas flores lá dos montes.
Vai levando o seu osso
p'ra enterrar n'outro lugar
p'a satisfazer o colosso
d'aqueles do lado de cá.
Leva o homem,
leva a cabra
leva a dona
e o camarada,
a fumaça da cabana
o cantar da passarada.
Na mala leva os frutos
da arvore posta ao imposto
desvio de uma colheita
tratada com muito gosto.
Leva a ética da nação
pra lavar em outras redes
e deixa o gosto amargo do cão
no copo seco da cede.
Piui, piui, pik pek, pek, pik
piui, piui...
Lá vai o trem, lá vai, lá vai
... Leva o alto escalão
pelo desvio do tico
asila em outro torrão
p'ra ficar livre do fisco.
Lá vem o trem,
lá vem, lá vem....
Pik pek, pek pik
apitando o seu chegar
pelos ferros d'essa vida
trazendo do lado de lá
os ares da mulher querida
a vida que esta amargar.
Vem trazendo os terceiros
para governar sem cara
louros de um País inteiro
agora entrou em outra farra.
Lá vem o trem,
lá vem o trem
com a bancada toda íngreme
aonde ninguém é ninguém
os grandes ali se esgrima
e a lei deles, não os detém.
Vem enterrado a saúde
confiscando a segurança
educação esta nos acude
das barras d'essa pujança.
Lá vem o trem
lá vem o trem
com vapor quente e preciso
meu amor trouxe um sorriso
hoje eu sou, todo aquilo
que não conto ah ninguém.
Trouxe, haste com uma flor
em cor linda de grená
o cheiro d'aquele amor
o qual nasci para amar.
De uma outra cidade
trouxe o tom do seu batom
o poder da novidade
e o toque do novo som.
Lá vem o trem
lá vem o trem
com, seus vagões vagando
entre manos e xerem
ele vem como ninguém
com todos olhos olhando.
Traz o arroz do pilão
a corda para pular
traz o canto da solidão
e o sentimentos p'ra voar.
O trem vem de uma missão
trazendo ali missionário
para impor dizimo ao coração
com pagamento de salário.
Vem o trem e as boas novas
impondo as novas metas
o gosto sabor da engorda
com as torturas das retas.
O trem vem com vuco, vuco
pik pek, pik, pek
vagões cheio de caduco
e vírus p'ra nova peste.
Antonio Montes
