Coleção pessoal de acessorialpoeta

241 - 260 do total de 322 pensamentos na coleção de acessorialpoeta

NOITE MORTA

Nesta noite angustiante que aqui estou,
Lembro-me todas as coisas ditas por ela
Naquela voz fina, naquela voz bela...
Todos aqueles instantes em mim ficou.

Amo-te tanto porque tanto me amou...
Naquela noite fria de uma luz tão singela,
Que era o clarão da lua ao entrar a janela
Iluminando aquele instante, que parou...

Ao tempo, minha bela, de voz alta...
Todos aqueles momentos, que me falta
Quero gritar ao mundo o que era meu!

Mas como estrangular contentamento
Se não tenho o seu amor, neste momento
O sonho daquela noite em mim morreu!

OLHAR ATEU

Tão lindos eram aqueles olhos, meu Deus!
Eram estrelas cintilando luzes de pecado...
Tão trêmulos ficavam ao mirar os meus...
Que desviavam, do meu olhar aparelhado.

Tão linda era aquela face de olhares ateus!
Tinha a fronte desenhada, e lábio acetinado.
Tinha à boca o mel, na voz não tinha adeus...
Era canção viva, pura, de som edenizado!

O corpo era escultura de curvas desenhadas...
Os seios eram montes, das pombas embaladas.
Um anjo, uma donzela, a vagar a luz do dia!

Que eu a venha mirar nos olhos novamente...
Se for pra me perder, far-me-ei de contente...
Já que amá-la, meu Deus, é a minha fantasia!

NO CAMINHO DE UM AMOR

Aqui tu passaste numa hora viva do amor,
Invocando os meus profundos sentimentos...
Aqui tu passaste sem trevas e sem dor,
Aprofundando, em mim, os teus momentos.

Aqui tu passaste e deixaste o teu furor...
Tão quente, tão vivo, nos meus pensamentos...
Aqui tu passaste tão viva no teu esplendor,
Que não pude conter os teus movimentos!

Tão ledo, fraco, confuso nos teus encantos...
Minha alma, por te amar, esquece os prantos,
Esquece a noite, ao véu do dia, pra te envolver.

E se minhas noites por ti não tem cansaços...
Sim, quero envolver-te sobre os meus braços
Pra cantar a vida, na hora viva do teu querer!

NOS TEUS ANSEIOS

Eu quero tuas horas tristes e sozinhas
Tão pedinte de amor e noites quentes,
De orgias marcadas, beijos ardentes...
A saciar as infantes vontades minhas...

Eu quero aqueles desejos que tinhas...
Nos meus iguais momentos eloquentes
Onde pregava as insônias dormentes
Na manhã rara do dia que nos vinha...

Tantos instantes perdidos e largados...
Tantas indiferenças, amores amarrados
Pelos enganos que o coração fantasia!

Mas eu hei de ter as tuas horas puras...
E ser dos anseios todos que procuras
O verdadeiro amor a juntar-te um dia!

DESEJOS RAROS

Por sonhar-te, nos teus dias belos, querida,
Ando assim, tão ansioso, por teu querer...
Quanto amor, quanto desejo há no teu ser,
Quanta cobiça louca de paixão ensandecida!

Jamais vi um amor assim numa outra vida:
Orgias escondidas, desejos raros de prazer,
E nos afetos ocultos sob o além d’um viver,
O vil despertar d’uma ambição tão perdida!

Eu quero me embriagar no teu amor tanto...
E sobre os teus anseios sair do meu acalanto,
Da dor que me fere, sob iguais cobiças tuas!

Sonhar-te-ei, por os teus rastros encontrar...
Mesmo que me seja abstruso poder te amar,
Quero gritar-te em versos loucos, pelas ruas!

SOB TUA INSPIRAÇÃO
− A dama rubra

Pensastes em mim por desconhecido...
Em tua forma, no encanto da poesia,
Descobristes o amor qual tem nascido
Entre as brasas da paixão e da magia!

Viestes em cobiça plena à luz do dia...
No teu pensar ingênuo, não percebido,
Descrevestes em memória a euforia
D’um coração impudico e destemido!

Na loucura do teu amor sob verdades,
Criastes em ti palavras às lealdades...
A não cometer teu coração confundir!

E a confiar teu amar cabal pertencente,
Viestes no sentir revelar entre a gente
As idolatrias que, em nós, há de existir!

AMA-ME...

Não me queiras tarde; seja breve, meu bem!
O dia se finda e a noite vem chegando...
Ambiciona-me à luz; não me deixa esperando,
Porque ao crepúsculo já não serei ninguém!

Nas sombras dos dias eu estarei te amando,
Nas trevas, minh’alma vagueia ao além...
Os meus sonhos são sombrios e a desdém
Sobre o meu leito branco me verás voando!

De todos os dias, há um fim pra se esperar...
E das rosas há apenas uma pra te entregar
A mais forte, de cor plena, a da minha paixão!

Seja breve, oh, meu bem; não me queiras tarde,
Dentro de mim há um sangue quente que arde
No fogo extenso, da noite avara d’um coração!

O VERBO POETA

Nasceu, conjugou-se, amor
Em tudo que há de perfeito infinito
Na voz, n’alma; n’um só grito
Criou-se d’estrela esplendor...

Mas por nuvens escuras chorou
Triste, desdenhado, restrito:
Poeta de amor aos versos bonito
Que ao cantar, sorriu e amou...

Mas antes que não fosse o chorar,
Quais luas que veria profundo?
Se n’alma que não fosse o sofrer,

O que seria o cantar neste mundo?
De qual verbo seria o amar
Se o amor é cantar, e chorar, e viver...

ANTES DO SOL SE PÔR

Hoje, eu venho aqui por lhe dizer
O que sente o meu coração,
Mas amor, não tentes entender
A minha louca e vultosa paixão...

“Assim como é o sol o seu clarão,
Assim como é a lua o seu luzir,
Tu és o meu amor em existir,
Tu és o meu amor à devassidão...

Pregado à cruz do meu caminho,
Tu és a minha plena felicidade...
E como é o lírio entre os espinhos,

Tu és em mim, à densa claridade...
E dentre as trevas é o meu ninho,
Assim como é dos céus a eternidade.”

O SONHADOR D’ESTRELAS

Vagueando ao mundo de amor,
Amou... o triste sonhador d’estrelas...
Ao espaço do jardim sem cor,
Sorriu... a flor que pintou por elas...

Sonhou... por, vagueando encontrar
Delírios... orgias... e paixão...
E, sorrindo às luas, o amar,
O teve de imenso o feliz coração...

Sonhando... ao amor, sonhando...
Aos teus braços em pureza perfeita,
A tristeza o viu desprezando,
E feliz ao teu colo era a flor-eleita.

Amou... sorriu... e, aos astros do mundo
Dormiu e sonhou o Poeta profundo...

AMOR INSANO

Por tudo agora eu sei... eu vou
Viver do espanto à realidade,
Vou viver agora, a nossa verdade,
A intensidade do nosso amor...

Por tudo agora eu sei, meu bem,
Vou ser pra você, vou ser em mim
Ao seu prazer intenso assim
Como é pra mim você também...

Vou ser de insano à nossa paixão,
Como é insana ao seu primor,
Como é de estrelas a imensidão...

Eu serei o ardor por ti queimar!...
Pois, se oculto for, de amor,
Por qual paixão haverá de amar?

ALMA SUBMISSA

Ah, se eu pudesse ter o teu frescor,
Se eu pudesse ter-te do meu lado,
Alma de puro afeto e de bom grado...
Dona dos desejos, e de tão vivo fulgor...

Desejos de vida sem trevas nem dor,
Anseios que invocam o ser amado,
Para que seja de caricias todo o teu fado...
Pois tudo em ti é cobiça - tudo é amor!

Quem dera poder ter tudo em mim
A tua ambição, plena e sem fim...
Tão mudo e sisudo não estaria a pensar...

Por que razão te desejar tanto assim,
Se não exprimo harmonia nem digo sim
Aos afetos e juras na hora de amar?

SONETO DO DESEJO

Ao tempo em que me viu amor
Depois de tão sentido passar
Em fremente paixão com tão primor
Esquece ao mundo por encontrar...

Não tem mais sentimento nem ardor
Qual este cumprido a inflamar
Com tão sorriso e com tão fulgor
Em outro corpo por ti provar...

Deste colo quente com tão desejo
Que o viveu momento igual ao meu
Em conforto será por um só beijo

Se ao seu corpo por tão profundo
O sentir igual ao mesmo seu
Tremente aos lábios por um segundo.

A MINHA CASA

Amo-te, escuro-silêncio, dos amados,
Quais na tua solidão se alimentam!
Aos seus amores não inventam
Olhos caídos de sentidos conjurados.

Amo-te, escuro-silêncio, dos pecados,
Quais nos teus ardores amam!
Nas tuas entranhas cantam
Aos espíritos que te vagam desolados...

Das almas que a tua casa é conforto,
Sou de igual mendigo-absorto
No desejo ao teu perfume, em flor...

Amo-te, escuro-silêncio, das sepulturas,
Dos quais te morrem às amarguras
Por renascer dentre as verdades o amor.

O CAMINHO

Eu vou andando assim, sem rumo...
Procurando-me se manter na vida...
Não vejo elevação, apenas vejo descida
Neste caminho tortuoso e sem prumo...

Mas a fumaça do cigarro que fumo...
Deixa pra trás os rastros da estrada cedida,
Mostrando-me que não haverá subida
Se matar em mim a fé que não assumo!

Um caminho é traçado a cada ser vivente!
Seja árduo, simples ou que seja figurado,
Não cabe, a mim, ser um tanto coerente...

Eu só quero agora um tabaco desfilado
Para voltar pela estrada entre tanta gente,
Quem sabe vejo, o caminho a ser traçado...

O MEU ÓDIO

A minha vida é d’uma saudade imensa...
Daquele que em mim pouco sente,
Num profundo notar, de toda a gente,
Daquele que vagueia e nada pensa...

Ando a desventura do que me intensa...
Ao meu falsado, sem que a frente
Eu consiga enxergar o que há contente
Nesta altiva agonia que me extensa...

Olhando por este mundo toda desgraça,
Do sentir que eu sinto, só por graça,
É o viver deste anseio dentro de mim...

E por este sentimento, por esta vida,
Do amor é o meu ódio, é a lida,
Que de saudade eu vivo sem ter um fim...

LOUCO

Deste acaso imprecado sem razão,
Em que eu vivo a desventura,
Tudo é pálido, é morto, tudo é vão
Dentre a minh’alma intensa e dura!

Não me há sentimento de ilusão
Neste transbordar de tortura...
Que já inventivo à solidão
Transpõe os meus olhos e perdura...

Eu já tanto sinto esse compasso,
Que já me é amor, que já é laço,
Que já me é tormento de conforto!

E deste blasfemo que vence a morte,
Que sorrio pela vida, desta sorte,
Já me sou de afeto intenso e absorto...

A MINHA DESGRAÇA

O mais alto entre os abutres! Vão
De amor e ódio, descontente...
Sem luz, sem nada... ao sol poente
Flamejando em mágoas o coração...

O mais alto! Um fantasma ao chão
Rastejando em labirintos, dolente
Ao seu orgulho, e, unicamente
Qual um blasfemado sem paixão...

Um mar morto, uma estrela caída...
O mais vil, de aflição, sem lida,
No vozear de mais um são-pecador!

Sem vigor, e desgraçado, e triste...
D’olhos fechados, que à dor persiste,
No amar sem vida o próprio amor!

AMOR-FÁTUO
(A donzela dos sapatos)

Por te amar tão mais... que se exceder
De infinita loucura, eu te proclamo...
E por mais que amar seja sofrer,
Com tão mais constância eu te amo!

Te amo ao tamanho de enlouquecer!
Te amo aos sonhos, na voz que clamo...
Nas noites frias que se põem perder...
Nas ilusões, que ao sussurrar te chamo...

Te amo às trevas, sem mesmo sorrir...
Te amo ao sol, à lua, ao teu elixir,
Aos desejos insanos de intensa virtude...

Te amo ao fogo de tão alto esplendor,
Desalentado, na solidão, te amo na dor,
Por te amar com tão mais plenitude...

SONETO DA RAZÃO

Nesta vida de pressentimento altivo,
Elevado e ardente como a chama,
Que aos desejos incendeia e ama,
É por teu prazer que o amor cativo...

E neste sentimento insano, explosivo,
Que de ardor te deseja insana,
Endoidecida, a minha voz que clama,
É por tua espera que sonho e vivo...

Que bem, de paixão tanta, fosse à lua...
Mas, amor, que vivo pr’alma tua,
Que é de mim toda razão nesta vida!...

E, por antes, que não fosse à loucura...
Pois, que te vivo a desventura...
Mas, seja o amor como for, é a lida!