Coleção pessoal de acessorialpoeta
O ENCANTO D’ELA
Depois, que ao amor, amo você,
Minha tristeza se vai de mim...
Mas quando o amor nos chega ao fim
Na solidão volto a sofrer...
Em melancolia, tristeza tanta...
Não me há beleza, não me há estrelas;
O amor em mim só se levanta
Quando ao seu amor estou de vê-las...
Não há por quem esse sentimento
Qual de você eu sinto tanto,
Nem paixão, nem movimento
Com tão amor, com tão espanto
Qual de você num só momento
Hão de fazer em mim, sofrer-de-encanto.
TORTURA FRIA
Vivo assim, um tanto desesperado.
Busco a sombra do sol na noite fria...
Por queimar-me a pele a luz do dia
Onde me pus o coração desprezado!
Vivo, assim, sob o mantéu enfeitado.
A devorar a minha vultosa nostalgia...
Vê-me a lua: sou a estrela fugidia
Que o deste o clarão tetro sufocado!
Sim, eu sou o Poeta que te enfeitas,
Que não quer no mundo a tua dor.
Sou quem tu vês, no leito que deitas!
Sim, que seja em mim o teu langor...
Por devorar-te a noite que rejeitas,
Por queimar-me a pele o teu amor!
CANÇÃO PERDIDA
Quem sabe, talvez, o mundo não me quer.
Serei eu resto dum naufrágio incompleto?
Talvez seja resto de uma madeira qualquer
Sem ter a marca ou penhor d’um dialeto...
Ou, quem sabe, talvez, seja chaga sem poder,
Seja ferida que ninguém vê por completo...
Uma estranha voz, uma canção d’um querer,
Talvez seja eu, um enigma, um ser indireto!
Eu sei que a minha sorte não é neste mundo...
Talvez, pela explosão, d’um céu moribundo
Sou quem anseia estrelas no reflexo do mar!
Eu sei que, nesta esfera, sou um ser perdido
Que busca encontrar neste mundo ferido
Uma melodia, talvez, que seja pra cantar!
ANSIEDADE
Nada que te fiz foi por querer.
Só quis me afastar desta loucura,
Que é te amar sem vos deter,
Oh, bela donzela e louca criatura...
Não há quem não possa exceder...
Por ser-te tão doce, serena e pura.
Sendo um normal, não pode ser
Pelas inquietações de tua ternura.
Tão forte, mas quase fiquei louco.
Apenas afastar-se de ti é pouco...
Bem que eu tome cuidado agora.
Amar-te já não pode ser disposto.
Não jure amar ninguém por gosto,
Porque o teu amor não tem hora...
A MINHA VIRGEM
Ela me olhava... tão insana me olhava
Com os teus olhos negros enfeitiçados...
Em prazer ensandecido navegava
Ao meu corpo teus desejos maculados...
Ela me olhava... e tão demente cobiçava
Os meus sentimentos endoidados...
Em paixão constante sussurrava
Aos meus ouvidos teus dizeres segredados...
Tão louca, embevecida, minha virgem,
Minha pomba, minha deusa da vertigem,
É dos meus olhos teu real engano...
Que inculta à insanidade ela me via...
Ao meu olhar, que de ambição ensandecia
Sem eu mesmo a ver de corpo humano...
“IN SENTIMENTOS”
(...)
“Não são apenas desejos!
Nem orgias!
Não são apenas cobiças
que me inflamam a amar.
Dos meus sentimentos
saem as esplêndidas formas
de um querer,
querer mais que tudo,
mais que existe
entre os amores fúnebres
de uma paixão.”
METAMORFOSE
Saber dizer,
Desprezar sofrer,
Loucuras puras,
Amor tanto;
Compreender é vida...
Voz erguida,
Paixão encanto,
Lua alvura,
Desejo amar;
Sem ser vão, viver...
Qual sol amor;
Cantar fulgor
E, (igual), enternecer...
SONETO DO AMOR INFINITO
Eu te amo como o céu ama as estrelas!
Eu te amo como a lua ama as paixões...
Te amo como o clarão de todas elas
Ama... amor, por palpitar os corações...
Eu te amo como a noite ama as trevas!
Eu te amo como o calor dos turbilhões...
Te amo como o fulgor que são das eras
Desde o princípio de todas as gerações...
Por teu amor ao céu elevo minhas mãos
A te livrar de toda a inveja dos pagãos
Quando vir, versar a ti, todo o meu grito...
Por teu amor é unicamente que escrevo...
Tanto te amo, que a ti, somente devo
Dizer, amor, que eu te amo pro infinito!
PÓS-DIA
Por que se tem nesse mundo o segredo
Se que vivem por os deuses implorar
Vida sem noite e amor com luar
Na estrada em que seguem sem medo?
Olhem a morte que lá vem cedo!
Por anjos falam os que vêm encontrar
Paixão sem tempo e tempo sem ar
No fogo intenso sobre lança sem credo...
Seria o saber do que não se sabia, seria?
Forjar fortunas sem ação de morrer
E viver sem viver o que nunca se sente...
Por que rara cobra ao sol deveria
Atentar o despeito sem que fosse o temer
Do futuro em se exceder o presente?
INCÓGNITA
Porque te disse: amor! Contudo, demente
Por teus beijos de fogo, alucinado...
E nem ainda a senti a boca; simplesmente
Por teu corpo de ouro – fonte de pecado!
Porque te disse ainda: ventura tanta!
E nem o teu calor senti tão perto...
Por tua voz que aos meus ouvidos canta,
E que’u nem sei donde vem ao certo!
Eu só quero o teu amor, desconhecido...
Eu só quero a tua paixão, seu amor perdido
Que canta aos meus ouvidos teus desejos...
Eu só quero m’enroscar na tu’alma louca...
Ao meu vigor intenso, dar-te a boca
O que de amor fosse a ti, primeiros beijos...
TESTEMUNHO
Vida! Caminho deserto onde ando;
Agreste de sentimento amargo...
Vales e ondas, inútil, vai vagando,
Aos pés de mim o amor que trago!
Existência! Não sei eu até quando...
Advirá em águas o grande lago;
Baldadas lágrimas, rio dum afago;
Estrada infinita que vou rogando...
Balbucio demência, já a tanta dor...
Voz oculta em meio à sombra fria,
Já não me vale o temor dum grito.
Brado que não mais ouve o amor
Sob as rochas quietas à luz do dia,
Dentre à luz do sol, que já é mito!
AMOR INTENSO
Sei lá, amor, sei lá o que pode acontecer!
Quero-te assim, bela, quente, e sem dor...
Quero-te sobre as chamas do teu esplendor
Tão viva, intensa, inebriando o meu ser...
Não sei, amor, e nem quero entender...
Dos prantos o luar, que brilhe o nosso amor!
Que vivemos tão quentes, que core a flor...
Que penetre em mim o teu bem querer!
Quero a tua paixão! Viva! Completamente...
Se vivermos da vontade, fazemos de contente,
Dos males as pragas que se põem a falar...
Quero de a tua alma, ver em mim lealdade
Que falem que seja d’uma grande amizade...
Mas que viva entre a gente o que está a amar!
DA PAIXÃO AO FOGO
Enlevado afeto que ao profano sente
O beijo em fogo no queimar a pele,
Que no fulgir paixão em corpo vele
O desejo arder no cumprir da gente!
E findar ardor que não for contente
No aventurar de luz, e, por aquele,
Se desdenhe em sede ao ardil mobele
No enlevar em flor o beijar ardente!
Que do suposto, aventura se vigore!
No acender a chama em mais primor,
De eloquente a cobardia se devore!
E no exaltar tão mais profundo ardor,
Que em disfarce gentil, implore
No emular mais alto, (o vosso amor!)
NA PAIXÃO DO DESEJO
Tão distante a humano, torturado
Nas indecências da paixão, profano!
E meu amor de apego fino e sagrado
Se desventura em aceitável engano.
Meu coração já que de tanto amado,
Pulsa elevado às tentações, soberano!
E meu desejo de tremor abalado,
Em teus afetos se desventura insano.
Pois desta paixão eu já amar me vejo
Em tentações de calor e desejo,
E já não anseio d’outro amor provar!
E se distante de humano eu torturo,
É que aos céus inverdades não juro
Para em desventura o amor enganar!
A MUSA DOS SONHOS
Ah, a tua paixão, imensa, cravina,
Desmesurada em prazer real,
Ardente assim eu nunca vi igual,
Puramente a lua, linda... divina.
E a minha loucura intensa e fina
No teu corpo quente, escultural,
Não há como ser em mim normal,
Ah, não me há quem a desatina...
Oh, bela, os teus desejos loucos,
Por mim, nem que fossem poucos,
Feliz ao mundo eu estaria a rir...
Se em meus olhos deixaste ilusão,
Não há quem não vê em ti paixão!
Que bem, o Poeta, tu fazes sorrir...
