Cinema
Àquilo que lembramos falta o traço duro do fato. Para nos ajudarmos, criamos pequenas ficções, cenários altamente sutis e individuais que possam esclarecer e moldar nossa vivência. O acontecimento recordado torna-se ficção, uma estrutura feita para acomodar certos sentimentos. A mim, isso se torna evidente. Não fora por essas estruturas, a arte seria pessoal demais para que o artista a criasse, mais ainda para que a plateia a compreendesse. Até o cinema, a mais literal de todas as artes, é editado.
"Não há nada que me dê mais prazer ao assistir um filme, que a frase: 'BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL'. Soa aos meus ouvidos como: 'SENTA E PRESTA ATENÇÃO, VAMOS PASSEAR NO TEMPO.' A angústia só vem quando me dou conta de que não posso mudar a história..."
Alguns dias, minha infância parece muito distante. E outros, eu quase consigo vê-la. A terra mágica da minha juventude. Como um lindo sonho em que o mundo inteiro parecia uma promessa...
CLICHÊS vs TRAGÉDIAS
Sou shakesperiano assumido,
prefiro as tragédias aos clichês.
Gosto de entender que há realidade
em tudo que é belo,
e que há aprendizado
em tudo que é feio.
Sou romântico progressista assumido,
prefiro a devoção ao autocuidado.
Gosto de fazer existir histórias
onde só havia ilusão,
gosto de ver luz
no meio da escuridão.
Deveria eu assumir as tragédias
e então reproduzí-las?
Ou inspirar-me em clichês do cinema,
em histórias não vividas?
Prefiro viver uma história de cada vez,
um sentimento de cada vez,
para que quando a hora enfim chegar
haja tanta realidade que já não se sabe
se é uma tragédia ou um clichê.
Com acesso exclusivo a especialistas, políticos, monarcas e cidadãos comuns, esta é a história definitiva do ano mais histórico de todos.
Poema bom
Hoje eu tropecei por ai nesse poema que eu já conheço há tanto tempo, mas hoje olhei para ele de uma forma diferente ou foi ele que olhou para mim, não sei. Segundo Quintana bom é o poema com o qual nos identificamos. E isso que ele disse, eu acredito que não sirva só para a poesia, mas para a música, o teatro, cinema, a literatura, as artes em geral. Mas nos identificarmos com algo será que é suficiente para classificá-lo como bom ou ruim? Nós só conseguimos enxergar o que já têm dentro nós e muitos de nós têm o mundo interno bastante reduzido. Não porque sejamos piores, mas porque a vida não nos deu as mesmas oportunidades que deu a outros. Logo, dizer que algo é bom ou ruim só porque nos identificamos é no mínimo superficial e simplista. Claro que nos identificarmos com algo nos dá aquela sensação gostosa de acolhimento, de conforto e prazer e, essa sensação que nos leva a adjetivar o que nos proporcionou esse sentimento é a mesma que usamos para classificar algo como bom ou ruim e, ao meu ver insuficiente.
Federico Fellini, na sublime altivez de sua genialidade, muitas vezes utilizava pessoas comuns em cenas de seus filmes. Acho que foram exatamente essas pessoas comuns que inventaram o Federico Fellini. E a fantasia de seus filmes é mais realista do que a própria realidade. Todo o absurdo de Fellini era fidedigno. E o mar é, sim, feito de papel celofane.
As fadas são mágicas demais para o olho humano. Então, quando olhamos para elas, elas assumam a forma de um sino.
A vida é como um filme
que não pode se pausar,
se perdeu alguma parte,
não dá pra rebobinar;
de comédia ou de amor,
tem atriz e tem ator
e um Oscar pra ganhar.
