“A Versão de Mim Que Mora nos Olhos... Silasoliveira13

“A Versão de Mim Que Mora nos Olhos de Quem Me Ama”

Existe uma versão de nós que talvez nunca consigamos conhecer completamente.

Ela não mora no espelho.
Não aparece quando nos examinamos em silêncio.
Não se revela nas noites em que contamos nossos erros, nossas perdas e tudo aquilo que ainda não conseguimos ser.

Essa versão mora nos olhos de quem nos ama.

É curioso: passamos a vida inteira dentro de nós mesmos e, ainda assim, talvez sejamos as pessoas menos imparciais para dizer quem somos.

Conhecemos demais as nossas fraquezas.

Sabemos onde escondemos nossos medos, lembramos das palavras que gostaríamos de retirar, das oportunidades que desperdiçamos, das promessas que fizemos a nós mesmos e não cumprimos.

Carregamos os bastidores da própria existência.

Os outros, porém, muitas vezes enxergam o palco.

Enquanto eu me lembro das vezes em que quase desisti, alguém se lembra de que continuei.

Enquanto eu me condeno por ter sentido medo, alguém me considera corajoso justamente porque me viu caminhar apesar dele.

Enquanto eu penso que fiz tão pouco, talvez exista alguém guardando na memória uma palavra minha que chegou exatamente quando precisava.

E talvez seja essa uma das maiores ironias da existência:

somos capazes de transformar a vida de alguém sem perceber que fizemos isso.

Há pessoas que carregam uma versão nossa muito mais bonita do que aquela que carregamos dentro de nós.

Não porque estejam cegas.

O amor verdadeiro não é cegueira.

Talvez seja justamente o contrário.

Amar alguém é enxergar suas imperfeições e, ainda assim, não reduzir essa pessoa a elas.

Nós fazemos isso conosco o tempo inteiro: pegamos um erro e transformamos em identidade.

“Eu fracassei” lentamente se transforma em “eu sou um fracasso”.

“Eu tive medo” transforma-se em “eu sou covarde”.

“Eu não consegui” transforma-se em “eu não sou capaz”.

É assim que a consciência, quando ferida, falsifica nossa própria biografia.

Esquecemos todas as páginas e ficamos relendo justamente aquela em que caímos.

Mas quem nos ama talvez esteja lendo o livro inteiro.

Lembra-se das vezes em que fomos generosos quando ninguém estava olhando.

Das vezes em que permanecemos quando seria mais fácil partir.

Das pequenas bondades que nós mesmos esquecemos.

Das batalhas que vencemos sem comemorar.

Dos dias em que achávamos que estávamos apenas sobrevivendo, mas alguém, olhando de fora, enxergava coragem.

Talvez por isso existam momentos em que precisamos cometer um pequeno ato de humildade:

emprestar os olhos de alguém.

Quando nossa visão estiver turva, quando a tristeza diminuir aquilo que somos, quando a culpa exagerar aquilo que fizemos, talvez seja necessário perguntar silenciosamente:

Como me enxergaria alguém que verdadeiramente me ama?

Não para alimentar o ego.

Não para fugir das nossas responsabilidades.

Mas para recuperar a proporção das coisas.

Porque humildade não significa pensar menos de si.

Significa também não se condenar injustamente.

Às vezes acreditamos que conhecer a nós mesmos significa conhecer nossas sombras.

Mas conhecer-se verdadeiramente é ter coragem de reconhecer também a própria luz.

E essa talvez seja a parte mais difícil.

Aceitamos facilmente quando alguém aponta nossos defeitos, mas desconfiamos quando alguém reconhece nossa beleza.

Talvez porque exista dentro de nós um juiz muito antigo, acostumado a recolher provas contra nós mesmos.

Por isso, quando alguém disser:

“Você é mais forte do que imagina.”

Talvez não seja necessário responder imediatamente:

“Você não me conhece.”

Talvez conheça.

Talvez conheça uma parte sua que você perdeu de vista.

Talvez tenha testemunhado sua coragem justamente nos momentos em que você acreditava estar apenas tentando sobreviver.

Talvez tenha encontrado generosidade em gestos que para você pareciam pequenos.

Talvez enxergue possibilidades onde você só consegue enxergar limites.

Existe uma versão de você vivendo na memória das pessoas que você tocou.

Uma versão feita das palavras que ficaram depois que você foi embora, dos abraços que chegaram na hora certa, das conversas que impediram alguém de desistir, das risadas que tornaram determinado dia suportável.

Você talvez nunca conheça completamente essa pessoa.

Mas ela existe.

E haverá dias em que o espelho não será suficiente.

Dias em que a nossa própria consciência estará coberta pela neblina das decepções, do cansaço ou das culpas.

Nesses dias, talvez não seja fraqueza pedir emprestado o olhar daqueles que nos amam.

Às vezes precisamos enxergar a nós mesmos através de outros olhos até que os nossos voltem a reconhecer quem somos.

Porque talvez exista uma verdade muito simples escondida nisso tudo:

há pessoas que acreditam em nós não porque desconhecem nossas fraquezas, mas porque conheceram algo em nós que nossas fraquezas jamais conseguiram destruir.

E, algumas vezes, acreditar no amor de alguém também significa acreditar que aquilo que essa pessoa enxerga em nós pode ser verdade.