Sidney Silveira
"A feiúra é uma evidência metafísica identificável no espasmo de repugnância instintiva que gera em quem a contempla".
"O declínio terminal de uma civilização só é percebido pelos pouquíssimos que, nela, se mantêm espiritualmente fiéis aos princípios sobre os quais foi erguida. Os demais, enceguecidos pela vertigem da queda, não enxergam um palmo à frente do nariz. Entre estes encontram-se os mais operosos em opinar com paixão sobre o curso dos acontecimentos, de que só vislumbram certas causas materiais próximas.
Suas diagnoses a respeito do horror imperante são, no melhor dos casos, parciais, e portanto errôneas no que diz respeito às causas formais da decadência, de alcance incomparavelmente mais amplo.
Não podia ser de outra maneira: só percebe o tamanho da desordem e do caos quem contempla (com sabedoria, moderação e coragem) a fonte da ordem e da harmonia.
'Beati mundo corde quoniam ipsi Deum videbunt'".
"Quem deseja o impossível acaba doido; quem espera o impossível acaba mau.
Neste último caso, trata-se de um desespero travestido de esperança, e ninguém chega a isso sem malícia".
"De ordinário, pessoas enganadas recusam-se a admitir que foram feitas de idiotas; preferem negar a realidade a mostrar as chagas abertas do seu orgulho ferido. Pessoas que enganam muito menos admitirão suas fraudes, por razões óbvias. Há, pois, um pacto tácito entre o enganador e boa parte dos indivíduos enganados por ele: todos – por diferentes motivos – preferem esconder os delitos de que participaram como criminoso e vítimas, respectivamente.
O problema é quando as vítimas, levadas a um estado de pânico, não apenas são convencidas pelo embusteiro a agir desta ou daquela maneira, como também tentam convencer outras pessoas a caírem no mesmo engano.
Neste caso, deixam de ser apenas vítimas para tornarem-se vítimas e cúmplices, a um só tempo".
"Induzir jovens a entrar em contendas intelectuais é matar as suas inteligências e, por via de conseqüência, atrofiar a vida moral deles. Fazer isso é inviabilizá-los, torná-los – a médio e longo prazos – incapazes de perceber as verdades mais sutis e decisivas, tanto no âmbito da razão prática, como no da especulativa.
Em suma, oferecer narcóticos utopistas a discípulos inexperientes é condená-los à imaturidade e à esterilidade. Portanto, o professor que enche de caraminholas quixotescas a cabeça dos seus jovens alunos é réu de crime de lesa-inteligência. Platão – o pagão Platão! – dizia que a boa formação consistia em estimular os mais capazes a adquirir, a partir dos 20 anos, uma visão de conjunto (σύνοψις = sýnopsis) da ordem do ser; a fazer, a partir dos 30, o trânsito do sensível ao inteligível; e a contemplar, a partir dos 50, a Idéia de Bem, modelo das discussões dialéticas e das decisões de Estado.
Cabe, sim, matizar e fazer algumas correções a esta doutrina, mas o espírito prudencial que a conforma é acertado.
Górgias e seus companheiros de travessuras sofísticas, que deram de ombros a esta lição, desencaminharam – e continuam a desencaminhar, no decorrer dos séculos – inúmeros incautos, às vezes em nome de Deus."
"Cedo ou tarde, a bondade precisa passar pela prova do heroísmo, sem a qual não chega a ser mais que veleidade".
