Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira

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Os desmaios constantes de mim
São do procrastinar seguir pensando.
A minha alma da dor acorda pró jantar
Não sabendo a fúria que vai dando,
Porque de tanto sentir pensar
Vou de novo desmaiando.

São cossas pouco minhas
Tal-qual são cossas nossas,
Porque se eu assim não fosse,
Não seguisse minha vida andando,
Tu não tinhas mesa posta,
Nem eu por ti ia desmaiando.
Agora sigo minha vida em pranto,
Sinal não há mais de ti,
Aquele sinal que eu senti em mim
E que tu foste negando.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Com a minha mão agarro um punhado de areia,
Nessa areia vejo pedaços degradados do mundo
Que me escorrem agora entre os dedos,
Sinto homens que escondem verdades e medos.
A granulometria desta areia movediça
É a mais fina razão do raciocínio
Que o homem pensa ter no julgar da sua justiça!

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Crepitar

A pedra que arremesso,
Pró instante da vida,
Deixou a minha vida varada.
De tanto ser distante.
Foi-me a mim arremessada.

Agora não sou crível,
Nem o credo vi na estrada.
A dor de andar sozinho...
À noite o meu caminho...
Enquanto o luar me acompanhava,
A dor da pedra arremessava.

Gravilha brilha no escuro,
Companheira da minha passada.
Se paro, não escuto nada.
Se olho à volta vejo escuro.
Se fico atento ouço tudo.

Se continuo o caminho
Deixo de seguir sozinho.
A gravilha, segue comigo,
É o meu único passo amigo.
O pinhal escuro amotina-se,
Crepitar segue o meu ouvido.

Não importa se acredito,
Ou se é só da minha imaginação,
Ou proverbio da máxima expressão,
Nem tão pouco vou julgar,
Aquilo que vi no escuro,
Só coração pôde acreditar.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Submundo

A silhueta de um homem morto
Num dia torto de Outono
Assombra o meu viver,
Fá-lo enquanto aqui estou.
Presencio a sua apoteose
Como se de um obrigação se tratasse,
Sinto todo o seu fulgor,
Sinto o seu bafo quente,
Sinto seu extinguir se emudecer,
Sinto desaparecer de mim o amor.

Perante o seu próprio horror
Admiro seu sádico orgulho.
Sinto as suas unhas sujas
Arranhar-me o pensamento
Que agora se afoga num mar de entulho.
Inefável juramento
Diz-me em silêncio: - "É só barulho!"

É hora de ouvir sangue
Das minhas veias esvair.
É hora de ouvir ossos
No meu corpo quebrar.
Minha resistência desiste.
Minha resiliência não vence o procrastinar.
Deixa-te ir nobre soldado...
Talvez essa descida te livre do pecado!

Sem delongas no submundo,
No interlúdio deste segundo
Digo estar a declarar.
Assumo dor atroz
Que no berço da desgraça
Está só mesmo a começar.
Ouvir sulco de osso partir
É dor que jamais alguma mulher há-de parir.

Homem morto tem piedade!
Tu que sabes mais que mera verdade,
Trouxeras-me pra este lado
Pra que sentisse piedade
De toda a tua atrocidade?

Meu pulso estável...
Meu peso suspenso...
Meu corpo imóvel...
Meu carácter corrompido...
Almas rodam e redopiam
Meu circuito...
Dizem-me coisas ao ouvido.
Sussurram desespero,
Declaram-se ao meu estado de medo.

Lampejam seus obscurantismo
Sem pleito pela moral.
Sinto que de mim mais nada resta,
Não governo mais este segundo,
Absorvo tudo o que não presta
Como se fosse o salvador do mundo.

Pois tudo nada mais é que catarse,
Apoteose dos sentidos recalcada
Através da força sentida nesta dura teclada.
Fracção de segundo que soprada aos ouvidos,
É não saber morrer no mundo dos vivos!...

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Guerra
na
Lua
Luta
Infiel


No espelho dorme
Minha ilusão.
No mar
Se afoga o sonho.
A dialéctica perpétua.
Contradição.

Quando não se acha a razão a viola dá uma esmola
Solidária com a saudade, acalma nossa adição!

Foges...
Pró fundo.
Encobres o sonho,
Inculcas a briga.
Pelas cordas.
Por mim,
Sobes ao azul do mundo.

Sátiras escritas no jornal, alimento pró sonhador,
Que só lê sobre crime passional e amor sentimental!

Voas...
Avião fantasia
Na minha
Esperança vazia.
Consciências tortas.
Presentes prá a gente que sente,
Inconsistências mortas.

Meninas embriagadas de sorriso molhado consolam o passado
Piadas e risadas, solidões assolam o medo de não saber quem eu sou!

Sobe!
Sobe!
Pelo trilho da vida.
Disparo ato inusitado,
Atinge leve e certeiro
Em mim, ser limitado,
Bala acerta o peito,
Sua trajectória sem roteiro.


Certeira a voz,
Bombardeiro que explode em nós.
Matreiro o cupido
Que abre a dialéctica perpétua,
Entre dor e o amor,
Que entra caquéctica,
Pela dor de ouvido.

Agora que desbravo o Ser que sou, não sei onde estou, perco duas vidas nas
Mãos de um tiro certeiro e rio... rio do que resta pois sou concupiscente que não presta.

Ouço longe o paladar enxaguar,
Lágrimas que desaguam na foz,
Mesmo à beirinha do mar.
Moça, eu e o teu gemido,
Pele que roça no meu sentido,
Distante olhar...
Penetra, devora atrevido.
Por ti passo o passo,
Embriagado o caminhar.

Fumaça que não passa despercebida na memória,
Escrevo um faz de conta, aconteça o que acontecer na minha história.

Na sebenta desenho você,
Sedento de trazer
O passo a passo.
A bala perdida
Preserva o buraco,
Pra entrar sopro fraco,
Meço pulso e a tenção,
Refaço o meu coração.

Validar a fantasia.
Voar para a esperança vazia.
Avião de papel,
Milagre que apelida
De paixão,
Escrita de cordel,
Fala na luta,
Que no futuro,
Se travará na lua,
So para ter a tua atenção!

E não cessa a sequela da chama que arde na cama
O Tempo queima a nossa história que o avião de papel
Levou prá lua uma escrita confidencial sobre ser infiel.
Uma minha,
Outra tua!...
E a luta continua!...

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

No silencio da noite
Acordo o dragão
Afago-lhe a chama
Com minha solidão
Nunca me deito na cama
Sem viver esta intensidade
À qual eu chamo...
...Amor de verdade

À noite quando a luz se apaga e eu me encontro junto da chama do dragão que afago todos os dias, dou por mim fechando os olhos e a mergulhar num mar de jardim, na fofa camada das folhas de Outono acabadas de cair onde tudo é a preto branco. Neste tão vasto Eden onde eu sou o actor principal de uma peça musical, neste tão vasto manto que cobre as roseiras despidas agora de todos os seus preconceitos e danço uma gincana mortal, salto sobre os ramos cobertos de espinhos onde outrora floriu este tão vasto roseiral. Aqui sei que sou audaz, sei de tudo o que este velhinho é capaz, redopio sobre o trilho deste infindável caminho até encontrar florindo o último botão de rosa que para ti eu colho sem dó nem espinho. Na esperança de te poder reencontrar vou dançando de braços abertos, rodopiando cada vez mais e mais, fazendo da minha expressão um delicioso sorriso de encantar. Tudo é igual, tudo é a branco e cinzento, tudo é um grande manto de folhas caídas deste tão vasto roseiral. O trilho que sigo é uma recta sem fim que se parece tanto comigo. Ao fundo, lá no horizonte coberto de espinhos, eu miro um pequeno pontinho que parece dançar na minha companhia. E vou dançando veloz na esperança de te encontrar no fim do caminho, de te ter nos meus braços, de te poder beijar profundo e de te entregar exultante este botão sem espinhos na esperança que me de devolvas todos os meus intentos, todos os meus carinhos. Cada vez mais veloz, cada vez mais perto de desvendar quem és, aguço a minha visão estereoscópica. Traço tua silhueta e imagino-te tão feliz quanto eu, tão radiosa e exultante quanto eu... O meu coração acelera como se eu voltasse a ser menino, explorador do mundo até perceber o quanto te assemelhas a mim e mais perto do fim o meu olhar dá lugar a uma espécie de duvidar. Começo-me a interrogar ao mesmo tempo que me aproximo do fim, um pouco antes de te poder tocar dou por mim mais uma vez mergulhado neste caminho que agora dá lugar à desilusão e a certeza da subtileza que é cair em si próprio. Pois afinal não era um caminho sem fim, era só um lugar inóspito rodeado de um muro que não percebi, até que em mim mesmo caí. O horizonte era só um grande espelho, o maior que houvera visto, o pontinho nada mais era que a distancia daquilo que eu sou de mim próprio. Agora sim, agora posso olhar para a minha pessoa, projectar o caos que habita no meu ser e perceber que cada espinho deste tão vasto roseiral são lembranças da minha vida, cada um deles fez um dia em mim uma pequena ferida. E são tantos que me sinto sem saída, sinto que este roseiral foi o que sobrou daquilo outrora fui. Agora só me resta sentar na berma deste caminho e esperar sozinho pelo fim do Inverno, atravessar este inferno só para ver de novo o meu roseiral florir e da lapela eu tiro o botão que para ti houvera guardado e tudo à minha volta se transforma no lugar onde agora eu sonho acordado! Voltam a sair chamas da minha boca, de forma louca que não mais consigo apagar.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Obstinado Amor Próprio

Amor obstinado e infortúnio
Pelo qual fui consagrado
Sem zelo, nem te-lo, nem sabe-lo
Ter zelado do calunio
A que fui abnegado.

Este amor trajado de prazer
Que a minha amena incúria
Na neblina quis esconder
No deleite da luxúria
Onde não ha lição nem saber.

Quão distante estive de mim?
Tão distante que o verdadeiro eu
Podia-me ver lá ao fim.
Fiquei para trás solitário
Aluindo outras tertúlias
do verdadeiro itinerário.

Amor próprio, que tanto falam por aí!
A mim tudo me parece impróprio.
Doutrinas que os meus pensamentos não calam.
Foi nas trompa de falópio
Que o meu há muito se perdeu
No sonhar fruto do ópio.

Cingido aos prazeres da carne,
Perdido nas encruzilhadas das vida,
Meu coração esculpido na mármore
Que só amou o seu cinzel,
Percebe agora que nem tudo é fel
E que na verdade amor próprio
Não vive só à flor da pele!...

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Pena Branca

Ponte do vai de volta
Volta que a vida varreu,
Armadura de concreto
Opção que Deus me deu.

Trajecto confinado ao largo da conversa aberta,
Papel de rebuçado troca cara pela moeda certa,
Ruas de trilhos secretos onde atracam os medos
Anima doce confusão, embebe da vista os segredos,
Daqueles que eu não abro mão.

Rua no campo da cidade vira dó obstinado.
Alegre solidão pensamento conformado.
Conta pedras da calçada para chegar a nenhuma lado.
Vista boa prá cidade de onde miro o meu passado,
Pé molhado da maldade em dias de... pouca sorte

Oh morte!...

Quando o tempo vira, nuvem roda para onde eu não queria.
Consciência alma baça que no espelho se arrepia.
A vida é nuvem fria, eu sou parada aqui na praça
Aqui toda alma me admira, mas ninguém tem ar de graça.
Roda vira, mira o céu, vira a vida pelos olhos da desgraça!

Quanto tempo foste o manto que cobriu a solidão?
Os muitos a quem tu deste tua suja resignação,
Homens sem dó de quem são, rodam caminhos de alcatrão.
Contam pedras da calçada, trocam coroa por tostão.
Espalha o ouro pela estrada só para veres a confusão!

A menina bem te avisou, quis-te dar seu coração.
Tu aturdido pelo que te disse, não prestaste bem atenção.
Anda lá papel de rebuçado dá-me a tua doce lição.
Perseguido pela intrujice, não dás tréguas à tolice.
Olha para trás, atreve-te a olhar para o logro.

Aquele que um te disse:
- Aperta minha mão suja.
- Olha para tua conformação.
- Anda lá que és cá dos meus.
- Pelas cordas das minhas violas.
- Também hão-de corres as tuas esmolas.
- Ouve o que eu te digo.

Lágrima tatuada no canto do olho, roubou minha atenção.
Procurei por ti na cidade, na rua do campo... não confirmado.
No miradouro do passado está confinado o teu pecado,
Não tenho meu pé mais molhado, nuvem cinza sinto-me triste!
Pena branca, tenho dó... Porque partiste?
Por ti meti minha vida em riste,
Tenho o meu passado acabado,
Sinto-te aqui ao meu lado!

As cordas das violas
Também dão vida às marionetas
Contam histórias
Pelos acordes da voz,
Daqueles com quem tu te metes.

Por isso...

Ponte do vai de volta
Volta que a vida varreu.
Armadura de concreto,
Opção que Deus me deu!
.
.
.
Pena branca voou pelos teatros da vida, foi marioneta no Porto e foi pousar no miradouro do Palácio de Cristal, de olhos postos para o rio Douro!

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Mundo de Cancer

Catarse que corre no sangue
Cateter no pulso
Doença da treta
Pulsa esfera da caneta
Palavra que não dá cheta
Por que só diz coisa preta.

O ser humano fura e tira
Da retina a perspectiva vira.
Broca gume, cliva dura-máter viva.

Cinto de castidade, cofre de ouro,
Guarda a visão da verdade,
Oculto no hemisfério onde mora a divindade,
Vestida com a pele do touro.

Consciência plana assassina,
O firmamento aguarda o momento
E a gravidade ama,
O que a retina confina
Na sua forma feminina.

Fronteira na alma dói,
Cinto de castidade corrói,
Abusa do firmamento,
Cliva de nós a verdade
E a moral do pensamento.

E o ser humano vê o que lhe resta,
Volta a dizer que não presta,
Gravita pró centro da esfera.
A ética derruba a barreira,
Imaterial é a nossa fronteira.

A tecnologia, plateia prá divindade.
Renasce noutro hemisfério,
O Deus de uma nova vontade,
Sem barreira nem fronteira.
Perspectiva não mora mais ao lado.

Olha no olho da menina,
Só pra ver que a retina
Não confina a gravidade.
Amor está no centro
Dos centros, dentro da sua realidade.
Núcleo, cerne da terra
Onde a esfera de ferro berra,
Olha para mim com toda a percetividade.

Palavra que não dá cheta
Que só diz coisa preta,
Cura doença da treta.
Sangue e sofrimento...
É só tinta na caneta!


Visão hipotética da tecnologia como incubadora de novos níveis de consciência humana. Fazemos uma viagem imaginária com Julio Verne e no centro da terra, no
núcleo, na esfera de ferro incandescente e magnética, somos esmagados pelo amor da força da gravidade. Projectamos a nossa visão trezentos e sessenta graus para todos os lados e numa fracção de segundo podemos agora olhar para mundo com a perspectiva do tudo. Do fundo de cada um de nós emergimos de novo para a nossa realidade e connosco trazemos a magistral tomografia. Os planos estendem-se até ao infinito e no ponto, no segundo, no escuro, no silêncio, no vazio, na omnisciência, na omnipotência, na omnipresença e na singularidade percebemos onde mora este amor, que emana de dentro para fora e dizemos sentir de verdade. Como o planeta e todos os corpos celeste, o nosso corpo também deixa a sua assinatura na matéria escura que flutua no tecido espacial. Do nosso centro flui a mais subtil das gravidades, fluxo constante que cria à nossa realidade, onde a matéria aguarda, em todas as suas formas possíveis, por uma única decisão na infinidade de todas as possibilidades que podemos concretizar nas nossas escolhas futuras. O futuro já existe, só aguarda a nossa decisão, enquanto que o passado nada mais é que o estado concretizado de todas as decisões que tomámos. O ser humano é um fractal que se expressa na multicitasses das suas próprias imagens através dos sentimentos e talvez o amor seja um só fragmento de todas essas imagens, que em nenhum momento se pode separar da figura geral, caso contrário estilhaça a nossa existência. A gravidade que circunda o nosso corpo celeste, ama-se a si própria até encontrar outro corpo celeste, outra gravidade e entrar na sua orbita
.
As palavras que acabou de ler não reflectem nem suportam nenhum evidência cientifica, são só um emaranhado de palavras ao sabor da literatura.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

A Hidra Lírica
(derrotando o impostor que tenta enganar o amor)

O assobio que sinto
toca a canção
do vazio que acorda
o silencio
no temor
do tormento
que entra pela porta
do credo em crer
maldito momento
que não mais
quer ouvido
escutar
o que lhe vai
no pensamento.

Tenebroso
pobre tinhoso
causa que tento
igualar sucedido
lamento tal
impropério
vivo na mente
que calca
de tacão
calçado
o amor
que houvera
cá dentro.

Rezo por tudo
pedindo não querer
mais nada pois
corto essa assa
pra não andar
a pairar
por cima da casa
o grito que é mito
que a mim
não engana
nem faz tábua rasa
aquele que ama
mentir contumaz
profana mentira
à ponta da espada.

Por mais porta
aberta que seja
o medo de entrar
sobeja de novo
honrar
ímpia pulsão
perpetrada
para intimar
e lascar do desejo
pedaço de corpo
prá intimidade
penetrar
na ressurreição
do homem morto
que anseia
um coração
profanar.

O lírico poético, na noite do quê cético!...

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Well

Estava a precisar de morrer.
Morrer pelo menos uma vez por segundo.
Porque a alma que não se acalma,
Acorda muitos amanheceres,
Desperta para as manhãs vazias
E para as alegorias do mundo,
Sem pensamentos nem viveres.

É o que trago dos sonhos profundos!
Não sou mais sagaz nem capaz
De ser o que me apetecer.
E agora que eu ouço o poço imundo
E quem lá jaz, naquelas pérfidas
Entranhas do viver.
Sei que não são almas estranhas,
São só minhas companheiras,
Do meu despertar para o amanhecer...

Leva-me a vida poço imundo.
Quero ouvir o teu julgamento.
Quero estar por dentro da tua sentença.
Quero ser presença tão pérfida
Como às almas que o ouvido ouve gemer.
Diz-me quantas vezes tenho eu que morrer,
Para volta a ser quem gostaria de ser.

Nadas nos braços dos muitos.
Sofres a força dos amassos do tempo.
Escalas pelo muco verde nos anéis de pedra.
Sentes que cada passo escorrega
E em cada amasso osso quebra.
Esta vida que não medra...
É só uma livre queda pró sonho que não tive.

E agora, sou só este ser que não presta,
Na minha alma todos os dias é festa,
No meu viver sem dó, nem manhã para o amanhecer,
Sonho o sonho de saber que não sei o que me resta.
Só sei que é vida por viver, sem fá, sem lá, sem dó!
Porque o caminho está na pedra que carrego,
No peso do fardo e no saber como sofrer.

Por isso, sofre vagabundo!
Dobra te sobre o poço,
Mira o teu reflexo na água parada!
E sofre com as dores do mundo!...
Eu sem ti não sou nada.
És tu quem és água,
És tu vida parada,
És tu poço sem fundo,
A reflectir tuas dores pró mundo!

Viver no fundo do poço é uma exaustiva tentativa de sair lá. Muita vezes na vida real é mesmo quebrar osso e escorregar em muco verde, é lentar e voltar a cair exaustivamente. Outras vezes é olhar-mo-nos ao espelho e perceber que sempre lá estivemos e que a única forma de sair de lá é aceitar que se la vive e que o poço, nada mais é que o centro do próprio ser. Cabe-nos a nós decidir se o enchemos ou não com água e descobrirmos que tipo de reflexo de nós mesmos queremos ver espelhado nos tantos espelhos que vamos encontrando pela vida!

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

O Meu Primeiro Amor

A caminho de casa animado,
Sempre pelas bordas da calçada,
Aquele menino que de mimado não tinha nada,
A trautear e de pensamento ausente,
Calça rasgada,
Chutando pedras pela estrada
E a viver um tempo que não lhe acaba,
Leva consigo um leve sorriso
Que denuncia a todos por quem passa.
O que na verdade ele não sabia
É que os olhares que o miram
Também já houveram sorrido assim um dia.

Leva com ele uma mochila
E a trote ouvem-se canetas voltear.
Uma derramou um pouco de tinta
Que mancha a sebenta,
Onde escreveu composição sucinta
Sobre a Rã-pimenta
E o que na sua mente a fantasia venta,
Pois lá está escrita também uma sentença.
Na mão direita leva consigo a razão
De tanto salto saltar
E com a sua esquerda agarra o coração,
Que o próprio consegue auscultar.

É de amor todo aquele jubilo.
Do primeiro dia do resto da vida.
Daquela paixoneta
Tipo Romeu e Julieta.
É uma sensação que todos
Recordamos nos lugares mais íntimos,
Escondidos na gaveta
Ou esquecidos em alçapão.
São nossos propósitos mais legítimos
Voltar um dia aquela canção.

Dos primeiros encontros na capela.
Do abraçar constante.
Do estarmos sempre de sentinela
Com um medo hesitante
De dar um beijo a mulher mais bela.
Mas é do abraço que eu não esqueço,
Da lágrima verdadeira
Da emoção que ainda padeço.
De estar nos teus braços o tempo inteiro
Nesse momento em que o mundo,
Não era mais imundo.
Era-mos apenas Duas almas enfraquecidas
Sem tempo nem fundo naquele singelo bueiro.
Horas sem dizer nada
Enroscados um no outro
A pensar em universo, e na nossa grande jornada...

Fomos traídos pelo verso...
Pelo ponto final...
Pelo último capitulo...
Pela triste contradição
De tu seres moda
E eu tradição.
Formou-se o brilho nos olhos.
A vida correu ao molhos
E eu não recordo mais o teu rosto,
Mas ainda guardo o desgosto
Da verdade que é ser dois e ser oposto.
Mas o amor, esse sim...
Ainda parece a fantasia
Que é ter-te de novo a olhar para mim
Aquele amor é como uma ementa,
Ainda me faz tropeçar pela gaveta,
Ainda leio aquele bilhete
Que me escreveste na sebenta!...


Quem ainda se lembra do seu primeiro amor?... Eu lembro e bem... E acho que não mais me vou esquecer... Quem guarda pequenas notas, pequenos bilhetes, desde essa altura? Eu guardo um em especial, aquele a que me refiro nesta história.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Minha Maça Macia

Rego minhas macieiras
Que ganham cada vez mais raízes.
Um dia darão maças doces
Para adoçar aquilo que tu me dizes.

Os teus lábios sabem à madrugada,
Como a árvore que o orvalho molhou.
Sê para mim minha maça descascada,
Deixa em teu pranto morrer
Quem eu nem sempre soube ser.

Meu propósito final
Será ter um pomar
E tu, meu chapim-real
Nas minhas macieiras
Irás sempre nidificar.

Despojos do ser que vê no entristecer de um inverno frio a sua mais quente tentação. Que é na verdade poder morder de lábio dormente uma tenra maça. Tão tenra como a carne que eu provo nos dias em que te chegas a mim com as tuas mão frias. E se fosse verdade?... Também querias?...

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Gotas de Luz

Quando era menino gostava de ver chover à noite. Mas não era um ver chover como normalmente se vê. Punha a cabeça fora da janela, rodava todo o meu corpo pela parte de dentro, pousava a minha nuca no peitoril e ficava só a olhar para as gotas de águas que de supetão irrompiam a auréola de luz circundante do candeeiro que iluminava a rua mesmo ao lado do meu quarto. Era um espectáculo digno de se experienciar, melhor do que qualquer fogo de artificio nos dias de hoje, era como se eu estivesse a fazer uma viagem para as estrelas. Felicidade pura, como se não houvesse mundo, nem mágoas, nem dor ou sofrimento naquele instante, era eu e aqueles crepúsculo mágicos. De vez em quando uma ou outra gota de chuva caia nos meus olhos, como se fossem lágrimas de alegria, pois eu só sorria quando isso acontecia! Saudades de olhar para a chuva cair como estrelas, almas vivas que me tocavam na cara, uma a seguir à outra. Imaginava que todos os contos de fadas que me contavam eram de verdade e que todas as almas que houveram vivido na terra existiam na eternidade daquela venusta experiência. Hoje quando choro outro tipo de lágrimas recordo-me desta minha imagem de felicidade, criança e de cara literalmente à chuva, de olhos postos no infinito. No súbito recordar desse momento, esboço um sorriso, no meio do pranto e do sofrimento que agora sei que existe e sem querer volto a ser uma criança feliz sem noção de o ser.

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Acho que todos nós já vivenciámos esta experiência, de uma forma ou de outra, mas aqui o mais importante prende-se na sensação que muitos de nós perdemos em alguma altura das nossas vidas, ver o mundo com os olhos de uma criança. De forma genuína e verdadeira, onde todas as coisas ganham vida e alma para alem daquilo que as nossas percepções, muitas vezes tolhidas pelos preconceitos, pelos estigmas, pelas falsas assumpções de moral, pela dor ou pelo sofrimento, deixam de ver. Alinhar os sentimentos e realidade de cada um de nós com a magia que está presente por todo o lado nem sempre é fácil, mas vale a pena reflectir sobre isso e pensar que podemos transformar qualquer coisa à nossa volta num manancial de pura alegria e felicidade, da mesma maneira que uma criança pode olhar para umas "simples" gostas de água e extrair de lá um mundo inteiro!

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Prossigo com dificuldade em abandonar os meus pensamentos...
Eles ao meu coração dão sustentos,
Que nunca ninguém consegui sustentar!

Será isto que é a mim mesmo me amar??


Sou sonhador,
Ilusão...
Penso em mundo
Meto-o no meu coração
Bem fundo...

Deixo-o sangrar.
Vitimizo a solidão
Pois não tenho aptidão
Para deixar ferida sarar.

Não tenho quem abandonar
E...
Só penso em sustento
Para o meu coração sustentar.

Atraco meu coração num porto
Para não o sentir naufragar.
Sou o logro da cobiça
Passado da injustiça
Que jurei meu coração amar.

Não cumpri promessa em mim,
Deixei-me acobardar em areia movediça,
Atirei meu coração pra alto-mar.

Tem como viver nesta dor?
Há em quem mais confiar?
Como irei viver sem amor?
Sem um padeço dessa dor?

Não vou meu coração mais maltratar!
Vou seguir com meu sustento,
Vou lhe dando pensamento,
Do meu próprio alimento
Até te reencontrar.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Acto Continuo

O homem na insensatez
Das suas convicções,
Incapaz de duvidar
De si próprio
E de a si mesmo
Se questionar,
Padecerá no caos
Dos seus absolutismos!

Vida, acto continuo...
Sem estado nem propósito,
Desapego da certeza,
Perene compósito.
A maior subtileza
É por pés ao caminho,
Navegar com destreza,
Não querer estar sozinho.
Germinar pra incerteza
De não saber o caminho.
Viver a mesma firmeza
Com que pula um menino
Que cresceu na beleza
De não saber de pequenino,
Tal como a natureza
Desconhece que a vida
É viagem sem destino!

A existência do ser é um acto continuo, como um eco do principio dos tempos. É a grande explosão que por momentos implode para expandir infinito. É um universo dentro de cada um dos átomos do nosso corpo. O verdadeiro manancial do Ser está, pelo menos em perceber, que a vida é uma viagem sem destino. Importa porém o processo que implica aceitar a mudança constante, a aprendizagem constante, o conhecimento constante e a transformação constante, que todavia nem temos forma de impedir só de nos adaptarmos. Aceitar o que conhecemos e o que não conhecemos em uníssono e sem absolutismos que são perigosos e eternamente insuficientes.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Adão e Eva

O Ser humano continua a viver no paraíso,
Agora repleto de macieiras
Cobras aos molhos
A Eva não está mais sozinha
E o Adão também não!
É Manuela,
É João,
É Ricardo,
É Badaró...
Floribela,
É Gugu,
É Jolie...
Julieta,
A maça é reineta servida Gourmet
Da maria para o José
Da Maria para a Maria do José para o José
E todos jogam ao bate-pé.
O pecado tem muito mais originalidade
Vem com pitada de promiscuidade
Ninguém tem mais vergonha de aparecer pelado
A serpente escreve Hip-hop e rima com divindade
E Deus está lá em cima sisudo
Sozinho, velho e cansado
a ver isto tudo!...

No caótico mundo, porém belo, em que o planeta cada vez mais se transforma, mais do que a consciência da nossa própria nudez, das suas vulnerabilidades, das vulnerabilidades dos outros e da nossa mortalidade, hoje perecem existir muitas outra principalmente esta, onde esta mensagem e outra flutuam de mão em mão. A consciência do mundo digital e que parece ter ele mesmo uma consciência própria, no fundo é só uma ferramenta ao nosso dispor a moldar a consciência de todos nós, o paradigma social e da mente Humana.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

O Feitiço da Papoila

Das profundezas do Ser,
Um dia se ergueu uma vontade maior.
Do cataclismo da vida,
Do horror que outrora ouviu dizer temor.

Ainda assim eram exigências do Ser...
Das noites de glória.
Da confusão tamanha,
Esta tão grande história.

Era do trauma o enredo,
Ou até de algum medo.
Pois para trás ficou sagaz,
Aquilo que um dia ele iria ser capaz.

Mas bem antes da tentação,
Nos improvisos do acaso,
Encontrou mulher madura
Que lhe roubou a atenção.

Num instante passou de cavalgadura
A cavalo com nobre crina.
Do coração desapareceu a amargura,
Deu lugar a amante azucrina.

Seu primeiro amor padecia de um feitiço
E ele da vontade maior,
Além do temor que era cobiço,
Foi rumo ao melhor, sabendo que sabia a dissabor.

À margem social, no cimo de tão alto vale,
Mandavam uns actores.
Diziam - "Quanto queres?"
E agora? - "Vai-te embora oh animal!"

Personagens de teatro, bizarrices sociais.
Senhores doutra justiça,
Protegidos pela cobiça.
Daquele atro outra lei, trajada de mestiça.

Travados carro a fundo, num baldio qualquer,
Eles...
Aquela ânsia de viver e um tremer de dedos
Num plantio de malmequer.
Uma agitação descuidada, parafernália preparada
E uma avidez azarada.

A seguir o que todos sabem,
Que não é fácil descrever.
É um entrar num outro mundo,
Onde não há vida nem viver.
É onde há um padecer profundo,
Um calor vindo Ser...
É onde a contrariedade, mente ser verdade.
É onde tudo se pode querer ou não querer.
É manto mágico que aquece no mais frio amanhecer.
É onde a vida é o mais displicente viver.
É onde o tempo deixa de ter segundo.
É um mais não lhe querer deixar.
É o Sonho encantado do Mundo.
É um não sei se havemos de acreditar.
É a maçã envenenada da Bruxa má.
É fechar os olhos por um instante
E lá poder ser cavaleiro errante.
É descarga forte de Serotonina,
É o recital de uma heroina.

Mas ao largo passa o tempo
E vergonha inaugura tamanha,
Que não se esconde mais do olhar sofrimento,
Nem o perder tudo o que se tenha.

O calor passa a horror
E o turbilhão deixa de ser amor.
O que também não é fácil escrever,
Passa mesmo só a ter que ser.

Tudo se desmorona,
Tão bem planeado é o feitiço.
Tudo se vai vender à dona,
Só para deixar de ser sacrifício.

Cai a moral e o bom costume,
Cai até o prazer carnal que outrora foi perfume.
Cai o santo do altar que a mãe quis preservar.
Cai a impotência do pai que também perde o seu curtume.

Miram-nos de longe os conhecidos,
Murmuram coisas que nos chegam aos ouvidos.
Murmuram coisa tamanha
Que só um ou outro amigo de verdade apanha.

E quando já nada resta,
Quando se perde a moral,
Sobra um cansaço que não presta.
Onde se afoga aquela besta?

Quando se entra em espiral,
Quando já nada é festa.
Já só lhes resta ser moribundo
A deambular pelo mundo.

Lá em baixo o que fazer?
Mendigar um abraço?
Pedir tostão a tremer?
Passar por quem finge não ver?

Ser Ser hipotético
Da sociedade cruel
Que trata com desdém,
Mais um filho da mãe.

Cheirar a dias sem lavar,
Viver a estacionar.
A correria patética,
Essa vida de sonho, essa existência profética.

O completo desvincular,
De todos os que havia para amar.
O deixar cair o pano,
Nesse tão grande desengano.

E por fim o pilar,
Os muros da justiça saltar.
Pois é uma dor que não se aguenta,
Uma dor que jamais se cobiça.

É uma dor que lhes leva o alento,
Que não lhes deixa parar o tempo.
É uma dor que leva de arrasto todo o sustento.
É uma dor que não lhes deixa ser, ser humano atento.

Ficam tolhidos da razão,
No caos da inconsciência.
Na insatisfação de só querer dormência,
Na prosperidade da demência.

É o que a sociedade deixou aos incautos.
Para os que não se precaveram a tempo.
Para os cabeças de vento.
Para o ser humano sem alento.

O cárcere para o que deixou cair pilar,
Para o que se atreveu a roubar.
Para o que não se conteve a ferir,
E cometeu acto de bravura.

Para esses a justiça foi mão dura!
Esse senhores sem rosto,
Capas negras da lição,
Patriarcas da malfadada educação.

Uns quiseram trenar moral,
Outros, sacudir condenação social.
Há os que foram só saber mais mal
Mas só os bem aventurados saíram ressuscitados.

Ressurreição pró novo homem
Que aceitou condenação,
Que bebeu da sua bênção, tão honesta gratificação.
Do caos floriram ordem, os de plena consciência.

Por isso feiticeira...
Papoila dormideira...
Não tens culpa da incúria...
Não tens culpa da avareza...
Pois também ajudas a trazer o pão para a mesa.

Tão bela flor...
Pétala purpura!
Como podes tu ter culpa
De tanto dissabor?
De tanto sucumbir, de tanto sonho...
De tanto fazer dormir?
Tu que ajudas a partir,
Que restituis paz aos doentes,
Tu que até tiras uma enorme dor de dentes!
Porquê por ti inflingir tanta ferida?
Tu não tens culpa de ser...
Uma tão bela flor pela natureza parida!
Capaz de muito mais que dissabor.
Porque esse feitiço?
Oh linda flor bicolor!

Ser humano com suas compulsões
Violou tuas bênçãos.
Escolheu o caminho incauto,
Destruiu a mãe, o pai... enviou filho pró mar-alto!

Preferiu erguer armas para te conter,
Para te usar a seu belo prazer.
Para dizimar e esconjurar
Como pretexto mais fraco daqueles além-mar.

Por isso eu não te culpo Papoila,
Por isso também tens o meu perdão
Liberta o homem do teu feitiço,
Pois juraram em sã consciência, quem só lhes foi tentação.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Cantar Gago

A poesia do homem
incapaz de ser sucinto
flui da tinta da caneta
para o branco do papel,
como da boca de um gago
flui o cantar mais afinado
que o de uma flauta de bisel.

Pois é!... Na vida somos constantemente deparados com imperfeições e com defeitos que só existem mesmo na nossa concessão da realidade. Como mo filme a Bela e o Monstro onde no seu âmago residia o mais belo dos seres. Também o monstro precisou de uma bela para quebrar o feitiço a que tinha sido sujeito. No fundo a Bela veio como o despertar da consciência daqueles que não se sentem perfeitos ou completos, daqueles que acham que não se encaixam neste mundo de um forma ou de outra, por algo que eles consideram ser um defeito com base em estereótipos a que a sociedade nos impõem constantemente, quando na verdade existe uma real magia por detrás desses muros que levantamos só para nós mesmo. Quando conseguimos derrubar esses muros, que na verdade não são mais que casas de palha, é que podemos então revelar o que de mais verdadeiro e mais belo há em nós. Portanto nada disso importa. Na verdade não ha defeitos, há sim um caminho a percorrer sem preconceitos e uma continua construção do ser, que por si já é belo, para um ser que não teme revelar ao mundo ser um ser Humano cada vez mais belo e mostrar assim, o seu talento, do que é capaz e mostrar também que o mundo é que precisa de readaptar para o receber de braços abertos e em paz.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Estou condenado ao exílio e ás demandas daqueles que me quiseram exilar. Exilaram me sem rosto, um capuz negro cobria-lhes as expressões, pregaram com o martelo de Odin os pregos da caixa onde agora eu me encontro fechado e por fim atiraram-na ao mar. Sei... porque me sinto a flutuar, a balbuciar à deriva e esta caixa é tão pequena que eu já não tenho mais espaço para tanta imundice... Condenaram-me à sorte de um dia poder vir a dar à costa - "Um dia!" - disseram eles... até lá... Sou ser imundo a velejar pelo mar e pelos cambiantes da minha imaginação, numa caixa sem vela nem janela. O que será de mim quando for lançado conta as rochas? Sobreviverei eu a esta viagem? Serei eu naufrago sem fim numa ilha deserta do mundo? Acabarei eu so e mudo?
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Nas maiores travessias do deserto árido, seco e doloroso encontramos dificuldades a cada passo que damos na areia quente, na areia que submerge verdadeiros mistérios, enterrados pela força do vento. Muitas vezes somos tentados a esparramar-mo-nos no chão e desistir das miragens constantes nos horizontes que queremos alcançar. Mas se não sucumbirmos à dor, à dificuldade e à solidão da travessia, certamente aprenderemos com ela. Um dia no horizonte do Ser que persiste não aparecerão mais miragem. A resiliência é chave para chegar aos oásis da vida, tal como os nosso antepassados chegaram à terra prometida.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Cubo de Seis Alçados

Na minha imaginação eu traço linhas.
Com régua e esquadro empurro uma para cima,
Com brusco sentimento traço outra pró lado
E com brutalidade irrompe do meu coração um quadrado.
Por de trás dos meus olhos surge um tracejado,
Desta projecção nascem sentidos
Tal como de uma canção dós sustenidos.
Um quadrado é para os ouvidos,
Outro é para o olhar que de ti vou estirar.
Há um que dança dentro da boca...
Goza a saliva que um dia hei-de provar.
É uma ilusão... uma visão tão pouca,
Que da saudade surto outro para as palmas da mão
Que tanto querem fazer do teu corpo tentação,
Calor, suor... e do meu no teu resvalar.
No compêndio não vejo pauta para solfejar,
Só traços, linhas e mais um deste quadrados
Também começa a rodar.
De uma espiral emana fragrância
Que inusitado dia bisbilhotei à distancia.
Em mim se abre uma brecha, como se incidisse
De um sexto sentido o dó sustenido.
A minha mente exibe de supetão este flagrante.
É um cubo dançante, de seis alçados a girar.
Gira tão vertiginosamente, gira e gira sem parar.
Gira o teu paladar na minha boca,
Assobia a tua canção à minha audição,
Desprega gota de suor pró meu tacto,
Ofusca a minha visão com um só fotão
E como um flor, delicia o meu olfacto.
E agora gira e gira... gira mais...
Gira cubo de sei alçados.
Concede que de lá tua saias,
De corpo inteiro e intentos acabados.
Com a força de todos os sentimentos
Sai paixão... Entra nos meus sentidos.
Sai possibilidade...
Sai crepúsculo, genuína presença,
Acaba com esta tua ausência.
Sai verdadeira sedução,
Pelo quadrado que falta...
...o da minha intuição.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Cigana Sagitariana

Gostava de dizer de ti.
Do teu olhar astuto,
Que de bruto dava sinal.
Que atravessava o povo.
Que atravessava a multidão
E chegava até mim...
Ao meu âmago de curumim,
De menino até ao fim.

A tua nota, o refrão
O teu papel moeda
A tua face turbilhão,
Hum...
Mulher maravilha,
Mulher de discussão táctil,
Cigana atrevida com juba.
Enforcas-te minha alma fácil,
Com a teia de aranha do Madagáscar.

Teus olhos veneno.
Umas vezes verdes,
Outras cor de feno.
Duas delas serdes.
Em meus Invernos aguarelas
Não poupaste minhas lágrimas.
Com a tua simples contradição,
Não quiseste afogar mágoas.
Minha breve confusão
Tua leve brutalidade
Minha dor realidade...
Abandonada à sorte,
À loucura da tu vaidade!

Se te agarras ao caminho,
Sem noção dos teus lugares,
Sempre gritas:
- Norte ou sul?
- Diz-me já a direcção!
Que te posso dizer eu agora?
Não tens cara para tostão,
Tu não tens dó da minha solidão.
Ainda assim eu dou-te a voz,
Do meu agridoce perdão.
Agarrado ao meu ser sozinho
Não atravesso mais o teu caminho.

Cancer sagitariana
Nó na garganta
Doença na cama
Dor que não adianta
Aflição em chama
Mulher pequenina
Amargo rebuçado
Explosão feminina
Meu corpo cansado
Alma aturdida
De tanto afago
Boca dormente
Quase morte...
Que o meu amor sente...
Mulher de louco desejo,
Pedra no coração
Que nem beijo permite.
Mulher que não sente
Só deseja, só sobeja...
Meu coração insolente...
De velas velejar,
Prazer de seres vento
E contra as rochas esmagar
Meu coração que naufragou,
Onde tu o deixaste a boiar!
Meu coração,
Que agora também não sente.
Meu coração doente,
Meu coração mais prudente.
Foste só um acidente,
Que eu quis provocar!

Grito para que tu desse lado meu ouças
E vais ouvir um dia, não desejo vendeta.
Mas vê se tens noção do que minha alma acarreta!
Dentro do meu coração... há um punção,
Que serve para deixar marca... mas também espeta.
Sejas tu pedra, ferro, ou mera resistência de volfrâmio
Sê por ti própria diligente atenta ao teu domínio
Punção espeta retina e meu olhar é agora pulsão de titânio!

Alma cigana...
Quero um dia passar por ti!
Parar dentro de mim
E poder dar-te um abraço sem fim!
Se isso algum dia for assim...
Não fujas, não sejas, não sobejes!
Não sejas resistência de volfrâmio!
Eu não serei pulsão de titânio,
Nem recomeçar...
Serei só o meu olhar...
Que acabou de despertar!

Repito: - A gravidade que circunda o nosso corpo celeste, ama-se a si própria até encontrar outro corpo celeste, outra gravidade e entrar na sua orbita.

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Sei que sou...

Mas não sei se me entendo ou se alguma vez me entendi
Sei que pretendo ser o que outrora já senti.

Fugindo do confronto encenei falsidade,
Fui hipócrita de verdade,
Constrangi minha liberdade
Em nome de uma vontade.

Por isso sei que sou...

Sou a ferida do mundo pois não sou prefeito para viver imundo a existência desfeito.
Sou o mar profundo onde mergulho desnudo, onde me afogo na vida pra levar meu dizer.
Sou torpe, sem inocência, vagão vazio, prenuncio de morte, sou o trilho da má sorte.

Sou vala comum, que coveiro cavou numa noite sem luar, onde há quem no escuro me vêm esperar.
Sou alma perdida, voltada prá inocência, hipócrita presença que não se quer ausentar.
Sou eco no tempo, perdido no olhar, daquele que ceifou o vento só para ter que me sustentar

Sou do alto da montanha, bala perdida, armada em inocente que acerta no doente a rezar no altar.
Sou abstinente genuíno que rouba ao menino o seu doce lar, que o troca pela moça e pelo abandonar.
Sou grão de pedra na brita, filho do cansaço que abana a peneira à força de braço.

Sou a tempestade certeira que acerta na telha e a transforma em areia, murmúrio do vento que faz das vida lamento.
Sou uma imitação, um verbo perdido, uma nota sem sentido, uma falsificação...
Sou pessoa no desalento que anda a procurar no tempo o que não soube encontrar no advento.

Sou o fiel da justiça, pecado, marcado, danado, partido quebrado, mal fadado, entristecido, atido à cobiça,
que deu as costas à razão e pecado à tentação.
Sou pião que roda, que não está mais na moda, a mó da levada de água parada, roda que não roda nem faz centrifugar.
Sou uma porta fechada, um fachada por pintar, sou fobia sou Narciso cheio de mania...
Não sei quem sou...

Só sei quem sou nas horas de aflição e a caneta a única que nunca me diz que não!

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli

Ser humano visceral.

Ser humano, ser assumido,
Presunção do ter sido.
Ser nota, triunfo sustenido.
Prototipo do acaso,
Empatia, introvertido.
Ser humano aurora... deslumbramento,
Carga boreal, forca viscera,
Saber sofrer, sem nunca ter sofrido.

Parede branca em quarto vazio,
Padrão de encanto no manto branco
Na tábua morta, desenho frio.
Ser humano... Ser tanto.

Cobaia poética, nascer contemporâneo,
Viver de encanto? Morrer no teu pranto!...
Som das teclas do piano,
Oh ser humano, Oh ser humano!...
De que tanto tens medo tirano?
Da ponta da espada?
Do reflexo do espelho?
Tirano do tudo ou nada...
Liberta-te, deixa voar o pensamento,
Oh novo ser humano...

Arquétipo! Super herói!
Salvador, mascara de humildade,
Predador da cabeçada, da lição tirada...
Lobo, caçador de coelho de pele mal amanhada.
Casca de árvore, cruz, trindade...
Predador da humanidade!

Vampiro condescendente
Observa o parir, do berço a puberdade.
Deixa em ti crescer sentimento,
Esconde-te por de trás da invisibilidade.
Oh ser humano... encontro singular, consciente...
Inspira pó e deixa em ti, de novo, entrar singularidade.
Oh ser humano de verdade!...

Epifania... esgotamento.
Varão roscado da sociedade ascendente.
Invisibilidade parada no tempo,
Momento...
Casa do passado, parede de pedra,
Antiguidade, família constelada.
Rejuvenescimento....
Oh ser humano castrado pelo tempo
Deixa em ti entrar de novo... sentimento!

Fotão de luz, folha que voa,
Portão de ferro,
Papel de jornal...
Voa...
Oh ser visceral
Sonhador, poeta de Lisboa
Maldito...
Bendito Animal.
Oh ser humano, tu que fazes do amor
Humanidade, ser carnal...

Gratidão universal...
Gratidão universal...
Ser humano, ser humano visceral...

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
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Madeira de Cedro

Quantas vezes lapidei madeira,
Dobrado ao calor da nossa fogueira,
Lapidando à mão com o teu formão.

Hoje sou cedro aqui plantado
E tu vens toda enamorada.
Encostas-te ao meu tronco,
Sussurras...
Segredos vindos do nada.
Ao pé do meu ouvido,
Deixas-me sentido!...
Tu não sabes...
Mas a sombra onde trocas,
Retocas...
Outras juras de amor,
São lembranças
Da dor!...

São o dissabor,
Negativo que resta do amor,
Que fotografámos nas docas.
Desalento que o vento não leva
Do amor que fizemos nas rochas...
Amor que sugo da terra,
Do negro das minhas raízes,
Que não seguem mais tuas directrizes.

Por isso sei que te vais,
Agora não sabes que dizes,
Minha sombra não é mais...
O que naquela noite fomos no cais,
As lembranças que travamos...
Nós dois, não dá mais!...

Agora não nos amamos!
A sombra deste cedro,
É para acolher as perdizes,
Os galhos para o melro cantar,
As folhas são para o sol irradiar,
O dossel para eu perdoar momentos infelizes,
Horizonte, onde jaz a linha da montanha,
É onde dorme a saudade tamanha,
Que um dia senti... ter de ti!

Agora aguardo no tempo
O alento do madeireiro.
Sei que me irá encontrar,
O meu tronco é para decepar
E a minha madeira
Com amor alguém irá lapidar.

E vou sentir de novo
Minha pele nas mãos do povo,
Que o formão voltará a rasgar.

Quem não tem coração
Não se sabe entregar,
Como o cedro se entrega ao formão,
Nas mãos de quem o quer transformar,
Numa mesinha de cabeceira.
Onde irei de novo ao pé do ouvido escutar
Juras de amor...
Juras de amor,
Prá vida inteira!

Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira
Inserida por ruialexoli