Raniere Gonçalves
Sessão coruja.
Livro de cabeceira+insomnia.
Um travesseiro entre as pernas que não é você.
Navego passados
e lembranças
O sono pesa minhas pálpebras de chumbo.
Morfeu me puxa os pés enquanto meus dedos
automáticos escorrem pelo teclado.
É hipnótico.
Um mais-que-um-vício.
Meu cérebro corroído por taturanas vermelhas.
Imagens, palavras: ir-e-vir-e-ir-e...
Dormir é desconectar.
Desconectar é viver.
E viver não é preciso.
Naveguemos, pois, Pessoa.
Amanhã retumbarão culpas.
Outra jornada A la recherche
du temps perdu.
Mas vá!
Melhor que os bispos da Universal,
melhor que o ópio da zona baixa.
Ou não?
Acabarei mesmo por me entregar.
O peso é demasiado.
Dos dias-e-noites,
do chiaroscuro intermitente
na janela.
Um vento negro apagará meu senso.
Levará o sonho para dentro de
minhas narinas corroídas,
das minhas orelhas moucas.
Dormirei, enfim, para
novamente girar a roda do destino.
Do meu destino apoucado
de alegrias pela areia
amarga dos anos.
Que já vai um pouco além
da metade da ampulheta
da vida.
Não devemos usar casos isolados
como justificativa agigantada
para arrimar nossas próprias ideias.
Um torcedor do fluminense num espaço
majoritariamente flamenguista
seria igualmente hostilizado.
O que não quer dizer que todos
os rubro-negros são fascistas,
não é?!
Precisamos tirar a venda da paixão
para nossos olhos enxergarem
os espaços entre as letras.
Santa cesta.
Abóboras orvalhadas
no titubear da meia-noite.
A lua nos seus olhos
sesta santa.
Aluam os meus olhos
sexta sexy.
Lábios selados
com os beijos das horas.
Entre a noite obumbrada
e o dealbar apenas
murmúrios entristecidos
das galinhas-d'angola.
Um sapo será sempre
um sapo.
Princesas, imaginário,
ideário,
desejos, beijos
não mudam isso.
Um dia a gente acorda
e vê tudo desbotado.
Era apenas sonho.
Estou saindo de casa.
Vou trafegar no ror sonoro
dos bares habituais.
Encontrarei ainda uma vez
alguma alma perdida que me falta.
E te digo com a sensatez
daquele que acordou:
a vida é feita disso.
De olhares,
remorsos,
mágoas.
De sorrisos engarrafados,
de alegrias gozosas..
E, num átimo,
voltamos à torpeza do adormecer
quando abrimos os olhos.
São 4h09min.
Child in time flauteia os meus ouvidos.
27 no dial.
Nem abóboras maduras,
nem princípios de incandescência.
Apenas outra madrugada tíbia.
Outra noite no vazio dos seus olhos.
Bagos flutuantes se alternam no veludo vagaroso dos dedos.
Nada sinto.
Senão um fado roçando as minhas vontades.
Meu olhar pesa tanto, tanto é o sono
que encobre o meu querer.
E só antevejo sonhos.
Apenas paz.
Não sei respirar desejos,
não sei te deixar.
Adiante sua face mudará de cor.
Seu hálito será o meu alento.
Nessas águas de outono.
Nessas noites de trégua.
Nesses dias de escuridão.
Nonego.
Última geladíssima na borracharia.
Coxinhas queima-dedos deliciosas.
A lua cheia clareia a madrugada
enquanto a cidade dorme.
Não quero cama:
quero você.
Na vida não há saída,
mas sempre haverá
uma saideira.
Daqui irei tomar a primeira
das últimas
no bar da Nega.
A rapinha da garrafa.
Dois dedos translúcidos
mergulhados em energéticas bolhas
douradas.
E já, já seguirei
o habitual caminho do prazer.
Os balcões dos bares costumeiros
aguardam pelo cuidadoso atracar
do meu cotovelo esquerdo.
Lá vou eu, já vou eu
colorir meus olhos marrons
com o brilho ensurdecedor da multidão
vazia.
Procurarei princesas pálidas,
ou cervejas gélidas,
ou a saciedade gordurosa
de um x bacon.
Estou cativo.
Vivem a minha vida,
não a vivo eu.
Deambulo num mundo de títeres.
Linhas quase visíveis manipulam
o meu devir.
Sinto prazeres que não são meus,
tenho vontades artificiais
inoculadas nos meus sentidos.
Meu pouco por cento de lucidez juvenil
se esvai com o vento inexorável dos anos.
Neves de outono prateiam meus cabelos
enquanto o bridão do destino
já não incomoda tanto minhas gengivas.
Fui um deus
com minha ousadia,
com meus sonhos,
com a minha liberdade.
Sou agora
apenas um pobre diabo.
Caraíbas de agosto.
400 sóis iluminando alegremente a paisagem gris.
Mesmo meus olhos brilhantes refletem
o sorriso da manhã.
Outro dia navegando estradas
rumo ao mesmo destino:
A vargem do Piancó,
a Vertente da Moeda.
Atroaram roucos estampidos
no distante.
Zilhões de gotículas vieram,
chuveriscando a pastaria.
Desenhou-se um riso
álacre nos meus lábios:
Perdigotos de deus
colorindo de verde
esses meus olhos
abaçanados.
Respiro o ar seco de setembro.
Estou voltando...
Pariram mais duas hoje.
Abro um sorriso
pra confrontar o tempo.
Será assim
até São Pedro chorar.
Lá na pastaria onde lido
vez ou outra olho
para esse céu piscina,
cheio de algodão-doce.
Decerto que você também abaixa os seus olhos.
E daí dessa nau remansosa enxerga uma
colcha de retalhos
verdes claros,
verdes escuros.
Inevitável algum imaginário
adejo.
Bem perto do sonho é
tudo tão açúcar.
A terra é lollipop.
Melancolópolis.
A solidão conglobada no metrô
da tarde.
Estômagos gritam
em esperanto
o vazio infinito
desses dias.
Lá se foi.
'Findomingo'.
'Laenvem' segunda
com seu cheiro de realidade,
com seus ventos de horrores.
'Laenvem!'
Nostalgias 'dinfância':
O dever da escola feito à noite,
fim da noite.
'Findomingo'.
Pois quase uma oitava.
Entre os tons graves e os agudos,
as melhores alturas.
E vão subindo nossas notas
na direção do silêncio.
Ou dalguma pausa.
Palmas.
E gerânios
e margaridas multicoloridas
pelo seu aniversário.
Se a sorte lhe sorrir: saúde,
alegrias...
Senão o meu beijo
e o meigo abraço
do acaso.
Tristeza esse tempo.
Tudo seco,
tudo cinza.
As vaquinhas ficam atarantadas
debaixo desse sol de agosto.
Desgosto de tardes amarelas.
Saudades da esperança
que nunca madura.
Só não gostamos daquilo
que ainda não aprendemos a gostar.
Os chineses gostam de tudo:
a necessidade lhes molda o paladar.
Embora tenha lá minhas preferências
muito amargo na vida
eu aprendi tolerar.
