Raniere Gonçalves
Deixo os deuses para os fracos.
Prefiro acreditar que a vida se faz com atitudes.
Que crenças religiosas servem apenas
para aplacar o medo que nos é impingido
goela abaixo pelos que nos exploram.
A lucidez denota equilíbrio,
equilíbrio de conhecer a verdade.
As palavras que sobram
são apenas publicidade
Ignara solicitude a do puxa-saco.
Fantoche sorridente manipulado
ao bel prazer do candidato.
Finda a utilidade: lixo!!!
Meu sangue é de um rubro intenso,
quase veludo.
Gotas esvaídas na areia de agosto.
E um cheiro adocicado
nas farpas da cerca de arames.
Os pais da desonestidade cínica agora erguem bastiões à moralidade. Olvidados estão de sua década de corrupção e iniquidades?!
Tudo vai bem no planeta Minas.
Soçobram meus pensamentos afundados no malte.
É isso: just keep walking...
And drinking.
.
Um lamento de saudades
daqueles guarda-chuvas
que ficaram perdidos pelos
cantos da vida
ecoa na minha lembrança.
Novembro chove!
Gotas com cheiros de musgo e de passado.
Metrópoles molhadas
nostálgicas de minha presença.
Minha imaginação passeia
enquanto a água para
o café borbulha lá
na cozinha.
Tempo que cura e mata.
Tempo que enruga tudo.
Tempo que nos faz olhar pra trás
quando já é tarde.
E vem o tempo que tudo leva e tudo consome.
Até mesmo deuses e reinos celestiais.
E assim simbolismo e mitos
vão tombando desfalecidos
a cada ano que fica para trás.
Tempo que nos ensina a impermanência do mundo,
dos homens,
das ações e de todas as coisas criadas.
('')
O importante não é o que pensamos ser importante...
Pensar nunca diz nada.
O melhor,
o que realmente importa,
é o que sentimos.
Coisas como sabores,
como sons ou arrepios ...
Sentir vale muito mais que valores.
Valores que nosso pensar
nos teima em dizer...
Nossa percepção abraça
o que ninguém quer saber...
mas lembre-se:
Isso,
essa certeza, ...
é o que realmente importa...
E é assim: Infindáveis horas
em direção ao pôr-do-sol.
Viver, sorrir, chorar...
Tristezas, alegrias...
E lágrimas
e as rugas desenhando
continentes novos
nos nossos rostos:
Universo em movimento.
Nem bem começo a encher o balaio e a vacada vem correndo me rodear. Assim é todos os dias: vou distribuindo balaiadas e mais balaiadas pras minhas mimosas. Elas adoram mascar mangas. Comum, coquinha, sabina. Elas nem se importam muito. Só ficam lá mascando e me olhando com aqueles olhares ternos e distantes. Todas elas menos Shanti, o bezerrinho baio que comprei da minha prima. Ele ainda está arredio na nova morada. Lindo e receoso com aquele seu lençol de barbela. Converso com ele mas nada: olha para os lados, suspeitoso... É preciso vagar com a lida. No dilatado do tempo tudo se encaminha. Dia desses ele aprende a mascar mangas, dia desses ele vira mansinho. Vida rural: horizontes alongados!
Nada será como antes.
Pena.
Agora somos outros!
Mas olharei ainda uma vez
no precipício dos seus olhos.
E deixarei que meu corpo caia
sem paraquedas,
nem asas de cera.
Dizem namoradas mas os namoros acabam.
No lugar, ficam sempre
amizades muito ternas.
Vivemos pedaços de felicidade.
Sem sermos livres naufragamos
no tédio.
Ela me disse: vaca "aqui em casa é somente a pele esticada no chão da sala".
Eu retruquei que é assim mesmo,
que vivemos só um pouquinho.
Mas antes do açougue,
ou do cortume,
ela bem que deve ter pastado nalguma baixada,
nalguma vargem maciosa.
Deve ter bebido água limpinha
dalgum ribeirão
e deve ter tido o sossego
dalguma sombra frondosa no meio da pastaria.
Seus olhos de entardecer nunca vão junto.
Eles são hereditários, eternos.
E eu os vejo todos os dias.
Mafuá detrás do banco do saveiro.
Ferramentas misturadas
com livros.
Seu carro: sua vida!
Preciso fechar gestalts,
abrir horizontes...
Fuçando escritos antigos encontramos pérolas que nem sabíamos tão preciosas. Já ri muito de minhas elucubrações adolescentes.
Abriu. Estava um barradão bonito no começo da manhã. Enquanto os róseos dedos da madrugadora aurora surgiam puxados pelos berros da caracada as nuvens foram se dissipando até clarear por completo. O gado me rodeou farejando o sal que eu colocava no cocho. Olhei: nenhumas novidades. Faltaram as duas mojadas. Levantei a vista e as vi lá na cabeceira. Lentas, sossegadas. Fui lá. A parição é breve, pensei. Agora estou em casa. Soprando o café preto pra mastigar o pão de queijo. Outra semana começa.
No caminho de Passárgada
encontrei um mastodonte
carregando uma mochila de pedras.
Seguimos juntos por algum tempo.
E uma amizade inabalável surgiu.
Não sei se ele ainda carrega
aquela pesada mochila
mas meu coração me diz
que ele segue firme na direção do poente...
Olho pras coxas
mas paro mesmo
nos olhares...
É triste numa noite
com um ror de gentes
encontrar apenas
um ou dois sorrisos
com neurônios...
Há quem diga que na cama
isso não faz diferença. ...
Também gosto desses seus olhos penetrantes, mágicos.
Desses seus lábios generosos, rubros...
Os medos todos os temos..
Tiramos um pouco de coragem da manga e...
Quanto ao amor te digo que ele existe
e é lindo, terno, apaixonante...
Mas (infelizmente) temporário...
Findo o último
suas marcas só se apagarão com o próximo...
Virulência.
Coisas de rio.
O Amazonas prossegue.
E vai...
Assim passando
por nossas almas fugidias.
Por nossa carne morna.
Vontades de Rio:
corredeiras!
A saliva escorre sem pensar.
Vontades de te lamber.
Bobagens!
Ficou assim perdido no tempo, não?
Coisas de interiores medíocres.
Sinto vontades.
Suas.
Parece com um passado permissivo.
Não sei:
Coisas e coisas...
Adoro lembrar coisas.
Sinto saudades, vislumbres...
Outros mundos, Mozart?!
Beijos líquidos!
E outros.
