Raniere Gonçalves
Megalópolis cá estou eu,
de novo.
Pareço procurar pelo que não perdi.
Ou por aquele olhar escondido
no meio de tantas faces aneantidas.
Estou de volta
ao seu mar de asfalto e desespero.
Gosto:
me sinto em casa,
novamente!
Sempre me sinto em casa
quando entro nas cidades em que vivi.
Mas, agora, ando lerdo...
Seduzido pela comodidade, pelo conforto...
"Ocê mire e veja": Eu finalmente cheguei:
delícias em cetim vermelho!
Ressacas e contas... Banco... Filas.
Atrás...
Sinuca necessária, jogo:
Destino implacável. Vida.
Morrer três vezes, Forró...
Será, então.
Escuto músicas daqui ...
Irei depois das novidades?! Você sabe:
Dançar ... adoro!!! Meus cabelos ficam
eletrificados, como parafina ...
Outros oráculos para dizer
mesmas lágrimas...
São Pedro chora, chove.
Gotículas escorrem enquanto digito...
Subterfúgios de fundo.
Saudades de mim mesmo, antes.
Adoro Mozart... Simbolismos....
Espero, mas adoro.
Depois será,
agora.
Amanhã.... bobagens....
O W.C. fica onde mesmo?!
Nos vemos num desses espaços
entre as notas: pausas,
cruzilhas...
.
Sinuca de bico.
Atado ao cais, continuo.
Papagaios prorrogados às barbas do carnaval.
Vacas, bezerros e leite que me escorre por entre os dedos:
Vicissitudes bovinas.
Coisas e amarras.
Eu não era assim.
Escuto Gainsbourg.
Ando youtubado nas horas vagas.
Saudades daí, de você e de mim mesmo
nesses ares urbanos.
Venenos, ando precisado deles...
Margaridas multicoloridas num copo d'água.
Amanhã será segunda,
outra.
Milhões de pequenas bobagens para pensar.
Quando será que vou lavar meu carro
ou limpar minhas gavetas,
ou colocar velhos livros na estante?!
Será que a vida é só isso? ...
Alguma coisa me aflige.
Meu coração está mole.
Terei que achar uma benzedeira...
Outras saudades!!!
Beijo!
r.
.
Mas é isso mesmo, não? Estamos todos fadados ao apego desmedido.
Nos esquecemos que a vida é efêmera e para voar precisamos de ventos e de velocidade.
Esses sapatos de chumbo teimam em nos firmar: instintos de sobrevivência desnecessários em tempos de abastança.
Também tenho pensado e repensado tudo.
O tempo urge, a vida escoa...
Olho no espelho e tenho apenas vinte anos.
Parece bobagem mas eternizar passados às vezes não passa de nostalgias recorrentes.
Fiquei sabendo de planos que já ficaram para o outro ano. Pena.
Os trens têm horários rígidos.
E passam de tempos em tempos por nosso presente.
É preciso coragem para embarcar.
E também para as necessárias despedidas do que ficará pra trás.
No fundo tudo se ajeita.
Escolhas são sempre traumáticas mas imprescindíveis e inevitáveis.
Não escolher já é uma escolha...
Cá estou eu. Aí está você.
Me aceite e poderá ver o meu umbigo.
E eu o seu.
Então seguiremos você e eu:
Umbigos e caminhos.
Alguns territórios valem mais a pena que outros
mas sempre há novos rumos a seguir,
novas terras a conhecer
e outros mundos a serem conquistados
Meu sorriso é que define minha vida,
não o contrário.
Não sou muito de chorar
leite derramado.
Costumo ir atrás do que me interessa.
O que não fica lá no meu passado,
como nostalgia,
como uma lembrança boa.
Temos que chupar as mangas
que nossas mãos alcançam.
As que estão muito alto vão cair
e se esborrachar no chão.
Nem mesmo serão chupadas.
Perdemos muito tempo com molhos
quando o importante é matar a nossa fome.
Nossa fome de vida,
de prazeres,
de sonhos.
Detalhes apenas ao Roberto interessam.
Quem exige muito,
quem escolhe muito
acaba sozinho.
Te falei pra amar quem te amasse.
Te amassaram e você não amou.
Ficou só pensando no seu céu.
Se esqueceu que pra conhecer o paraíso
é preciso morrer.
E sem muita certeza pois lá pertinho
também fica o seu inferno.
O certo é amar o que temos.
Muitos amam a lua,
mas há espaços pra poucos astronautas
na nave.
...
Fiquei horas contando moedinhas esquecidas
numa caixa de sapatos.
Enquanto eu as separava memórias
dos tempos magros me vieram.
Bitucas juntadas e desfiadas no cachimbo.
Pinga com mel.
Casinhas de cachorro com pão e mortadela
de almoço dividindo o dia...
Meu irmão me dizendo: "tô tão pobre que tou tomano
manga da boca de porco".
Hoje tudo isso é apenas alegoria.
Aquele pobre nem existe mais nesses dias.
Eu derramava meus olhares,
meus sorrisos: estava apaixonado!
Ela sempre distante nunca me deu lado.
Passaram os anos de escola,
passou nossa adolescência...
Um dia desses ela mandou recado.
Obediente que sou eu
a acompanhei.
Algumas horas de minguado prazer
no motel da cidade apenas
para me confirmar que o tempo devora tudo.
Até mesmo o amor.
O cheiro era o de mucama alisando o cabelo
com pente de ferro em brasa.
Calibrei o mochador à vermelhidão e comecei
a queimar os chifres dos parcos bezerros
fora da linhagem do Campeão.
Depois um ungüento para evitar
as moscas varejeiras e pronto.
Foi a estréia do tronco novo
na Vertentinha:
Aprovado!
Se seguirão outras lidas.
O gado manso, a curralama regular,
a formiga, o pente de rolimã...
tudo contribui pra facilitar minha vidinha rural.
E é isso:
O gado engorda aos olhos do dono
e o dono engorda olhando o gado!
Rsss!!!
.
Não existem pecados gratuitos.
Todos eles são pagos.
- E os mais caros são os melhores!
De uma maneira ou de outra
sempre pagamos.
Às vezes à vista, outras parceladamente
e outras, ainda, quando
o diabo nos leva.
Ando mouco de deleites.
Meus habituais apelos aos prazeres mundanos
foram engolidos pela vida tarefeira,
pelo meu cotidiano estúpido.
Ando cinza ultimamente.
Tudo à minha volta desbotou.
O velho está mais velho, a cada dia.
E o novo não existe.
Escuridéu, breu.
Demorou um tanto
pra ver a anágua do dia.
Sorti de sal os cochos.
Passei os olhos
na mansidão da vargem...
Olhando o ocaso cor de sangue
e de volúpia, penso: Amanhã a luz
do sol haverá de incinerar
toda essa escuridão que me aturde.
Caminho pelas pastagens maiúsculas
do Piancó.
Sol a pino.
Vacas, bezerros... Uma anta atravessa
a rodovia.
Penso.
O vento me sopra
idéias.
Tépido, tíbio, úmido.
Esse final de dia cozinha minhas carnes
e meu cérebro gris.
Imagino rafting na Cachoeira
ou windsurf no Rio Grande.
Chegando em casa.
Noite tíbia que cozinhou meu coração.
Agora naufragarei entre travesseiros.
E que o sono amaine meu tédio
e meus olhos despertem coloridos
de esperanças alegres.
O baile foi até dia claro.
Whiskies, energéticos, cervejas...
e o sol que fechou meus olhos.
O cetim vermelho engoliu meu corpo
e quando dei por mim a tarde caía.
Meu estômago pedia comidas em esperanto.
Nada lhe dei da minha geladeira cheia de espaços.
Terei de buscar coragem pra ir até a cidade,
pra saciar meus desejos.
Outra balada sem cevada.
Anti-inflamatórios seguem cuidando para que
meus finais de semana não inflamem.
Nostalgias do normal.
As chuvas inundaram todos os planos.
Minha lida vespertina foi adiada
para a manhã de amanhã.
Embora sábado restarei na alcova.
Sonharei com sorrisos perdidos,
com os olhares que não passarei pela turba cazuzeana,
com as cervejas seladas,
adormecidas no fundo do freezer.
Universidade.
Ando chateado com o meu passado
E também com esse presente cheio de
mesmices.
Velhas estórias não me seduzem mais.
Sinto dores que não são de amor e as
intempéries se agigantam no inverno.
Acho que o peso dos anos vividos
começa a me agaçar.
Fico esperando pela chuva pra poder chorar
sem que ninguém perceba.
Eu nos teus lençóis essa alegria me
bastava.
Abrir todas as janelas e deixar
entrar um pouco de luz dentro da vida.
Estou amargo de tanta solidão.
Preciso mesmo de novas ilusões que
me distraiam o senso.
Acho que voltarei pra universidade.
Lá tem lindas
cabritas sorridentes.
Com beijos
molhados e olhos macios.
E um pouco de
esperança pra eu poder roubar.
Hei de poder deitar naqueles colos
quentes.
E sentir o perfume daquelas coxas
roliças e longas.
E ainda uma vez olhar pra frente com
um sorriso nos lábios.
Ventos agustinos penteiam as guarirobas.
A rede balouça meus signos ressaqueados.
E segue o domingo
magro de deleites.
A lida é um sem fim.
Um brota e desbrota.
Um faz e desfaz
que nem mesmo a morte leva.
Um trabalho de Sísifo.
Um cansaço desesperado
feito de sombras e sobras...
