R.M. Cardoso
PRISIONEIRO
A noite já não me assusta
Com seu vestido de ébano
Nem me assombram as vozes
Que emergem do invisível...
Houve um tempo
(Há muito tempo)
Em que a noite
Era um segredo -
E eu, prisioneiro
Das sensações do medo!...
SEM RESPOSTA
Não me perguntem
Sobre alegorias...
Cores... festas...
Metáforas de luz!
Não me perguntem
Sobre exultações...
Risos... volúpias...
Frenéticas folias!...
Meu verso não responde,
Meu verso não o sabe.
A fome, a miséria e a violência
Prosperam, cada vez mais,
Desativando o cenário
De quaisquer euforias
DESCRENTE
Há quem, sem sonho e sem paz,
Siga os caprichos da vida
Com alma desiludida
E sem crer em nada mais!
E carregue o seu tormento
Sem pensar em novo dia,
Se esquivando da alegria,
Abraçando o sofrimento!
E, conduzindo adiante
O viver tão infecundo,
Talvez almeje que o mundo
Desabe a qualquer instante!...
CAOS
Ante
a vigência
do cinismo
(raio x
dos nossos
dias),
mergulhamos
no caos
e - aos poucos -
degeneramos
na escuridão
do abismo!...
CLÍMAX
São fagulhas e lampejos
De uma sedução tão louca,
Quando me dás os teus beijos,
Quando sugo a tua boca.
Nossos corpos, tão famintos,
Se alimentam de carícias
E desvendam labirintos
De volúpias e malícias.
Artimanha e artifício -
Apetrechos do exercício
Desse amor sem obstáculo.
Nossas carnes, indefesas,
Imergem nas profundezas
Do clímax desse espetáculo!...
SEGREDO
Entre
o obvio
e o enigmático,
é
essencial
que se entenda
que o amor
é
segredo
que só
o coração
desvenda!...
HORAS CALADAS
Na rota
da noite
transita
o mistério
das horas
caladas...
Fria,
boceja
a brisa -
e, entre
ideias
avulsas,
pulsa
a poesia!...
Natureza e poesia
Por caminhos bem diversos
Cantando, tecendo versos
Me abasteço de harmonia.
Posso não ser bom poeta,
Mas minh'arte predileta
É semear poesia.
Canto o passado, o presente
E sigo sempre contente
Elaborando o porvir.
Canto a aura cristalina,
A beleza feminina,
Tudo o que me faz seguir.
Amo o timbre tão suave
Do gorjeio de uma ave;
Do sol canto o resplendor!
Canto toda a natureza
De onde emana a grandeza
Do poeta Criador.
RESTOS DE TARDE
Cerram-se,
lentamente,
as cortinas
do dia;
do sol -
o fogo
já
não
arde!
Enquanto
lavro
um
poema,
a angústia
se distrai
mascando
os restos
da tarde!...
DEMOLIÇÃO
O gume
das palavras
floresce
e frutifica
na garganta
do ferir...
Oh!
tosca
e agreste
evidência
do dom
de demolir!...
QUADRAS DA PRIMAVERA
Vibram sonhos e canções
Nas rimas do trovador
E pulsam as sensações
Da reinvenção do amor!
Brota n'alma a esperança -
E nas manhãs, a alegria.
É primavera, é bonança
Irrigando a poesia!
E tudo sorri e canta
Na cidade ou no sertão.
Belo cenário que espanta
Os males do coração!
Lindas flores, brisa doce...
Ó gente, como eu quisera,
Que na vida sempre fosse
Só tempo de primavera!...
TROVA - 160
Ah! O amor se vai mas deixa
(Isto é realidade),
Quando não é uma queixa,
Deixa n'alma uma saudade!...
TROVA - 161
Do beijinho adocicado
Que me deste, ó coisa louca,
O sabor ficou grudado
Bem no céu da minha boca!...
MAL DE AMOR
O que tende a ser
O mal de amor? -
Senão agros sintomas
Que se agregam aos sentimentos
Ou danos oriundos
De afetos corroídos;
Senão a inquietude
Que no peito se aloja
Ou a degeneração
De promessas formuladas;
Senão a eternidade
Em cada instante de espera
Ou rastros de lágrimas
Na face de alguém
Que nutriu uma quimera!...
LAGO
Há
pranto
que n'alma
escorre
(feito
sangue
nas veias),
e torna-se
imenso
lago,
em
cujas
águas
afogam-se
mágoas!...
DISTONIA
Desabitado
de sonhos
e otimismo,
desligado
da vida
e de tudo,
circundado
de ruínas,
inerte,
apodrecia
enclausurado
no ostracismo.
TROVA - 162
Seu encanto é feito ímã
Atraindo para o beijo,
Quando ela se aproxima
Gruda nela o meu desejo!...
ENCANTOS E DESENCANTOS
De minha janela,
Crianças vejo brincando
Tagarelas e festivas!
Adultos vão passando:
Uns se cumprimentam,
Outros, no entanto,
ignoram-se, apenas.
E a vida prossegue
Tecendo seu espetáculo
de encantos e desencantos.
POETA E SERESTEIRO
Há
um
etéreo
encanto
em
teu
olhar
de luar!
Deixa-me
ser
teu
poeta
ou
(quem
sabe)
seresteiro,
para
entoar
cantigas
que propaguem
o meu
sonhar!...
SONHAR CONTIGO
Sonhar contigo?
Hei sonhado
Qual nunca houvera!
Sou inverno
A buscar a primavera...
Ah!...
Este sonho oceano
Em que navega o meu viver!
Este sonho, afinal,
É o que há de real
No universo do meu ser.
MENSTRUAÇÃO
Lentamente
a escorrer
da menstruação
das nuvens
eu
via
o níveo
sangue
no dorso
do alvorecer.
INSONE
Da boca
da noite
vinha
um
bafo
de outono.
Nos braços
do poema
gemia
uma
lembrança! -
E eu,
sem
sono!...
