Matheus Horacio

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No vaivém apressado do Rio de Janeiro, onde o barulho dos ônibus se mistura ao canto distante do mar, ela caminhava como quem conhecia o peso e a beleza da própria história. Não precisava anunciar sua presença. Havia algo nela que fazia a cidade diminuir o ritmo por um instante — talvez o olhar firme, talvez a serenidade rara de quem aprendeu a atravessar tempestades sem perder a delicadeza.


Era morena, de pele aquecida pelo sol carioca, daqueles tons que parecem guardar o brilho dourado do fim de tarde. Os cabelos caíam livres, volumosos, dançando com o vento que vinha da orla, como se também tivessem personalidade própria. Mas eram os olhos que mais impressionavam. Olhos fortes, atentos, capazes de intimidar a arrogância e acolher a tristeza no mesmo segundo.


Quem a conhecia sabia: ela carregava uma força silenciosa. Dessas que não fazem espetáculo. A força de acordar cedo, enfrentar dias difíceis e ainda encontrar gentileza para oferecer ao porteiro, à vizinha cansada, à criança perdida no ônibus. Tinha opinião firme, voz segura e uma coragem que não cabia em discursos. Nunca precisou endurecer o coração para sobreviver à cidade.


Nas tardes de calor intenso, gostava de observar o movimento das pessoas enquanto tomava café perto da praia. Via o Rio em suas contradições — belo e caótico, duro e apaixonante — e talvez por isso combinasse tanto com ele. Porque também era assim: intensa, luminosa, impossível de ignorar.


E enquanto a cidade seguia correndo sem olhar para trás, ela continuava ali, atravessando ruas, dias e memórias com a mesma elegância de quem entende que ser forte não é deixar de sentir. É continuar sendo gentil, mesmo quando o mundo desaprende como.

Clara conheceu Roberto numa terça-feira qualquer, dessas que o Rio inventa para lembrar que a cidade pode ser bonita mesmo quando a vida não está.


Foi num bar pequeno em Botafogo. A televisão estava ligada num jogo qualquer, o ventilador fazia mais barulho que o necessário e alguém discutia sobre política na mesa ao lado. Do lado de fora, os carros passavam pela rua molhada, carregando gente que provavelmente também estava tentando chegar a algum lugar.


Roberto bebia cerveja sozinho.


Clara entrou porque começou a chover.


Ela tinha os cabelos molhados e aquele jeito de quem parecia estar sempre pensando em alguma coisa que não contaria a ninguém.


— Posso sentar aqui?


Roberto olhou para a cadeira.


— Se você não se importar com a minha cara de poucos amigos.


Ela sorriu.


— Eu também não estou com uma cara muito boa.


E foi assim.


Sem música bonita. Sem coincidência extraordinária. Sem o universo conspirando.


Só duas pessoas cansadas dividindo uma mesa porque começou a chover.


Depois vieram outras noites.


Copacabana depois das dez. Lapa numa sexta-feira. Caminhadas sem destino pela orla. Café barato. Cigarros que Roberto prometia parar de fumar. Conversas sobre dinheiro, medo, infância, fracassos e todas aquelas coisas que as pessoas escondem quando ainda estão tentando parecer interessantes.


Clara gostava do mar.


Roberto dizia que não gostava de praia.


Mas sempre acabava sentado ao lado dela olhando para o mesmo mar.


Talvez fosse amor.


Talvez fosse apenas solidão encontrando outra solidão e decidindo ficar por algum tempo.


O problema é que o amor, quando chega, não avisa quanto tempo pretende permanecer.


Um dia Clara disse:


— Você nunca fala sobre o futuro.


Roberto acendeu um cigarro.


— Porque o futuro nunca falou comigo.


Ela ficou em silêncio.


Depois olhou para o calçadão, para as pessoas correndo, para os prédios iluminados e para o Pão de Açúcar aparecendo ao longe entre as luzes da cidade.


— Eu queria uma vida mais simples.


Roberto riu.


— Todo mundo quer uma vida mais simples. Até descobrir que precisa trabalhar para pagar por ela.


Clara não achou graça.


Naquela noite, eles discutiram.


Não foi uma grande discussão. Ninguém quebrou nada. Ninguém saiu gritando.


Foi pior.


Foram aquelas discussões silenciosas em que duas pessoas percebem que estão querendo coisas diferentes e nenhuma delas sabe como dizer isso sem machucar a outra.


Clara queria construir alguma coisa.


Roberto ainda estava tentando descobrir como reconstruir a si mesmo.


E talvez isso fosse incompatível.


Ela foi embora numa manhã de domingo.


Roberto ficou sozinho no apartamento, ouvindo os ônibus passarem lá embaixo.


Encontrou uma presilha de cabelo dela no banheiro.


Ficou olhando para aquilo durante alguns minutos.


Depois colocou sobre a mesa.


Não jogou fora.


Também não guardou.


Algumas coisas ficam exatamente onde foram deixadas, porque a gente não sabe se está pronto para perder ou se ainda espera que voltem.


Meses depois, Roberto viu Clara na rua.


Foi na Glória.


Ela estava acompanhada.


Parecia feliz.


Ou pelo menos parecia ter aprendido a parecer feliz.


Eles se olharam por alguns segundos.


Ela sorriu.


Ele também.


Não conversaram.


Talvez porque certas histórias terminem antes que as pessoas tenham coragem de admitir que terminaram.


Roberto continuou andando.


O Rio estava quente.


Um vendedor gritava alguma coisa na calçada. Um ônibus passava cheio. O céu tinha aquela cor suja de fim de tarde.


Ele pensou em Clara.


Pensou no bar em Botafogo.


Pensou nas noites em Copacabana.


Pensou que talvez tivesse amado aquela mulher da única maneira que sabia: mal, tarde demais e com medo.


Depois acendeu um cigarro.


E continuou andando.


Porque a cidade não para para ninguém.


Nem para os apaixonados.


Nem para os arrependidos.


Nem para aqueles que ainda esperam alguém voltar.


No Rio, até a saudade precisa atravessar a rua com o sinal aberto.

A mulher das tatuagens


ela entrou no bar
como quem já conhecia
todos os tipos de despedida.


pele clara,
tatuagens espalhadas pelo corpo
como pequenas revoltas
que ela decidiu não explicar.


bebia devagar
e olhava para o nada
com a tranquilidade de quem
já tinha aprendido
que algumas pessoas
só ficam enquanto é conveniente.


havia flores no braço,
um pássaro perto do ombro,
algumas palavras que eu não consegui ler.


talvez fossem nomes.
talvez fossem erros.


ela sorriu uma vez
e foi o suficiente
para fazer o bar parecer menos miserável.


eu pensei em dizer alguma coisa bonita,
mas coisas bonitas
quase sempre soam ridículas
quando você está diante
de alguém que já sofreu o bastante.


então fiquei quieto.


ela acendeu um cigarro,
olhou pela janela
e disse:


— algumas marcas a gente escolhe.


não perguntei pelas outras.


naquela noite
ela foi embora sozinha,
levando consigo
aquela coleção de desenhos,
silêncios e pequenas cicatrizes
que faziam dela
mais humana que qualquer santo.


e eu fiquei ali,


bebendo o resto do meu copo,


pensando que talvez
a beleza nunca tenha sido
sobre aquilo que uma mulher
carrega na pele,


mas sobre tudo aquilo
que ela conseguiu sobreviver
sem precisar contar.

Noites Brancas de Copacabana






No Rio, algumas noites parecem não terminar.


Não porque sejam bonitas — embora às vezes sejam —, mas porque a cidade continua acordada quando todo o resto do mundo já deveria estar dormindo.


Era quase meia-noite quando eu saí de casa sem saber exatamente para onde ia. Peguei a rua e deixei que o Rio decidisse por mim. Caminhei pela orla de Copacabana, com o barulho distante dos carros, vendedores recolhendo suas coisas e o mar fazendo aquele movimento paciente de quem não tem pressa nenhuma.


Eu gostava dessas horas.


Durante o dia, a cidade pertencia a todo mundo. À noite, pertencia aos solitários.


Foi perto de um banco, olhando para o mar, que encontrei uma moça.


Ela estava sozinha.


Não parecia triste. Apenas parecia estar esperando alguma coisa que talvez nem soubesse nomear.


Parei alguns metros adiante.


— Você está esperando alguém?


Ela olhou para mim.


— Estou.


— Ele vem?


Ela sorriu.


— Não sei.


E foi assim que começou.


Sentamos no mesmo banco, mantendo aquela distância educada que existe entre dois desconhecidos. Conversamos sobre coisas pequenas: o calor, o mar, a cidade, as pessoas que desaparecem sem explicar por quê.


Depois falamos de coisas maiores.


Ela me contou que gostava de andar pela cidade quando não conseguia dormir. Que tinha medo de ficar parada tempo demais porque, quando ficava, começava a pensar.


Eu disse que também fazia isso.


Ela perguntou:


— Você está fugindo de alguma coisa?


Pensei um pouco.


— Talvez de mim mesmo.


Ela riu.


— Então estamos no lugar certo.


Ficamos ali por horas.


O Rio parecia diferente naquela madrugada. As luzes dos prédios refletiam no mar, os ônibus passavam quase vazios e, de vez em quando, alguém surgia caminhando pela calçada como se também tivesse sido esquecido pelo sono.


Às quatro da manhã, ela finalmente me contou quem estava esperando.


Era alguém que amava.


Alguém que havia prometido encontrá-la naquela noite.


Mas ele não apareceu.


Ela dizia isso com calma, embora seus olhos contassem outra história.


Eu quis dizer que ela deveria esquecê-lo.


Quis dizer que ninguém deveria esperar tanto por alguém.


Mas descobri que existem conselhos que só servem para quem não está sofrendo.


Então fiquei em silêncio.


Quando o céu começou a clarear atrás dos prédios, ela se levantou.


— Acho que agora preciso ir.


— Para onde?


— Para casa.


— E ele?


Ela olhou para a avenida vazia.


— Acho que não vem mais.


Foi a primeira vez que ela pareceu realmente triste.


Caminhamos juntos até uma esquina.


Antes de ir embora, ela disse:


— Obrigada por ficar.


Eu respondi:


— Eu também precisava de alguém para ficar.


Ela sorriu.


Depois foi embora.


Eu continuei andando.


O sol começava a nascer sobre o Rio, devagar, revelando a cidade que durante algumas horas havia parecido pertencer somente a nós dois.


E foi então que entendi uma coisa:


há encontros que não foram feitos para durar.


Algumas pessoas atravessam nossa vida como essas noites cariocas — chegam silenciosamente, iluminam tudo por algumas horas e desaparecem quando o dia começa.


Mas isso não significa que tenham sido menos reais.


Talvez certas pessoas existam apenas para nos lembrar que ainda somos capazes de esperar por alguma coisa.


E, naquela manhã, enquanto o primeiro sol tocava o mar de Copacabana, eu percebi que pela primeira vez em muito tempo não estava com medo de voltar para casa sozinho.


Porque algumas noites terminam.


E mesmo assim,


deixam luz suficiente para a gente encontrar o caminho.